Mulheres votam mal? Pesquisa questiona essa ideia
Levantamento com 3.594 brasileiras mostra como renda, rotina e falta de confiança na política influenciam a relação das mulheres com o voto

Nos últimos meses, ganhou espaço no debate público a ideia de que "as mulheres votam mal”. A afirmação, que questiona a capacidade de escolha das eleitoras, ganhou visibilidade a partir de declarações e conteúdos que passaram a circular amplamente nas redes sociais.
O discurso chama atenção em um país onde as mulheres são maioria entre as pessoas aptas a votar. Nas eleições de 2026, elas representam 52,84% do eleitorado, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
É nesse cenário que a pesquisa “Voto Feminino”, realizada pelo Projeto Brief, ouviu 3.594 mulheres em todo o país para entender sua relação com a política, seus comportamentos e percepções sobre o voto. A esmagadora maioria (92,9%) das entrevistadas diz que pretende votar este ano; 13,8% dizem não ter interesse em política.
O VOTO FEMININO EM QUESTÃO
O direito das mulheres de participar das eleições, hoje tratado como questão básica de cidadania, é uma conquista de menos de um século para as brasileiras. Em 24 de fevereiro de 1932, o Código Eleitoral passou a reconhecer o direito das mulheres de votar e serem votadas. Porém, naquele momento, o voto feminino ainda era facultativo.
Dois anos depois, a Constituição de 1934 incorporou o direito ao voto feminino, mas manteve uma diferença em relação aos homens: o voto era obrigatório para mulheres que exerciam função pública remunerada e facultativo para as demais. A obrigatoriedade foi ampliada em 1946.

Só em 1934 o direito foi incorporado à Constituição, ainda sem ser obrigatório como para os homens – para elas valia apenas como um exercício de cidadania a mais. A equiparação entre homens e mulheres no processo eleitoral só seria consolidada em 1965.
Para Caroline Luck, coordenadora do Projeto Brief, esse histórico ajuda a entender por que o questionamento sobre a participação das mulheres na política não aparece isoladamente. “As mulheres têm muitos direitos que foram conquistados. Parece que sempre estiveram aí, mas eles foram conquistados muito recentemente”, afirma.
A RENDA MUDA A DISTÂNCIA DA POLÍTICA
O interesse por política varia conforme a renda domiciliar. Entre as mulheres com renda familiar de até dois salários mínimos, 23,2% não têm nenhum interesse em política. O índice cai para 10,9% entre as que recebem de dois a cinco salários mínimos e 6,5% entre as que ganham mais de cinco salários mínimos.
Essa distância também aparece na participação eleitoral. Em 2022, 29,1% das eleitoras de menor renda ficaram sem voto válido – considerando-se abstenções, votos brancos e nulos. O percentual é mais que o dobro do observado entre as que ganham acima de cinco salários mínimos (13,1%).
Luck relaciona essa distância ao cansaço da rotina entre as mulheres de menor renda. Durante a pesquisa qualitativa, uma das participantes resumiu a relação com a política: “é uma coisa que eu nem presto muita atenção na correria do dia a dia”.
Nesse contexto, a política é percebida como mais uma preocupação em meio à rotina, e não como uma atividade à qual elas possam ou queiram dedicar tempo.
A polarização também aparece como parte desse processo. Segundo Luck, muitas dessas mulheres estão cansadas do embate político e não se identificam com uma lógica de disputa permanente entre grupos.
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Por isso, uma parcela desse público permanece indecisa não necessariamente por falta de informação, mas porque não se sente representada por uma identidade política definida. “Ela já tem muitas preocupações no dia a dia, não quer fazer parte disso”, explica a coordenadora do Projeto Brief.
NÃO SABER VOTAR E NÃO SABER EM QUEM VOTAR
A pesquisa ajuda a separar dois comportamentos que costumam ser tratados como um só: não saber em quem votar e não saber se vale a pena votar.
Uma pessoa pode estar indecisa entre candidatos porque ainda está avaliando suas opções. Outra pode simplesmente não acreditar que a eleição produza mudanças concretas em sua vida. São situações diferentes, mas que podem aparecer publicamente sob o mesmo rótulo de “desinteresse político”.
No caso das mulheres menos engajadas, a segunda questão ganha importância. O levantamento mostra que elas não duvidam da própria capacidade de escolha. O que diminui é a percepção de que essa escolha seja capaz de produzir algum efeito.
O fato de a mulher estar indecisa ou distante da política não permite concluir, por si só, que ela “não sabe votar”.
Essa diferença é importante porque desloca o problema da capacidade da eleitora para a relação que ela estabeleceu com a política. Não se trata de não saber escolher um candidato, mas de não enxergar a política como algo capaz de interferir concretamente em sua vida.
É nesse ponto que a pesquisadora defende uma mudança na maneira de falar sobre política. Em vez de apresentar a participação eleitoral como uma discussão abstrata sobre partidos, ideologias ou disputas entre grupos, seria preciso mostrar como as decisões políticas aparecem na vida cotidiana.
A creche dos filhos, o tempo de trabalho, a renda, a fila do posto de saúde, a iluminação das ruas e o preço dos alimentos são exemplos citados por Luck – problemas que podem parecer distantes da política institucional, mas que estão diretamente relacionadas a decisões tomadas pelo poder público.
A questão também ajuda a relativizar a ideia de que uma eleitora que não acompanha política diariamente seria menos informada ou menos capaz de tomar uma decisão. Interesse político e capacidade de escolha não são sinônimos.
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Uma pessoa pode acompanhar intensamente a disputa eleitoral e ainda assim tomar uma decisão pouco informada; da mesma forma, alguém que não acompanha o noticiário político todos os dias pode pesquisar candidatos e propostas antes de votar.
AUTONOMIA NÃO É O MESMO QUE EFICÁCIA
A própria pesquisa mostra que a relação das entrevistadas com o voto é mais complexa do que simplesmente “se interessar” ou “não se interessar” por política. Entre as mulheres menos mobilizadas, a confiança de que o voto é uma escolha própria permanece relativamente alta, enquanto a percepção de que esse voto pode mudar alguma coisa diminui.
Isso produz uma diferença entre autonomia e eficácia. Uma mulher pode entender que ninguém deve escolher por ela e, ao mesmo tempo, não acreditar que sua escolha tenha impacto suficiente para justificar sua participação.

É justamente nesse espaço que o discurso de que “mulheres votam mal” pode produzir uma inversão. Em vez de perguntar por que determinadas eleitoras se afastaram da política ou deixaram de acreditar na eficácia do voto, coloca-se sobre elas a responsabilidade pelo próprio afastamento como se a falta de interesse fosse sinônimo de incapacidade.
A pesquisa aponta para outra leitura: o desafio não é apenas fazer com que essas mulheres escolham um candidato. É fazer com que elas reconheçam por que a escolha existe e como ela se conecta às decisões que já tomam todos os dias.
Nesse sentido, estar indecisa, distante da política ou não acompanhar debates partidários não permite concluir, por si só, que uma mulher “não sabe votar”. São comportamentos diferentes, com causas diferentes. Tratá-los como se fossem a mesma coisa ajuda pouco a entender o eleitorado feminino.
JANELA DE OVERTON
A ideia de que mulheres não deveriam votar ou não seriam capazes de escolher seus representantes pode parecer, à primeira vista, um discurso extremista e sem sentido.
Mas é justamente a presença de discursos considerados extremos no ambiente digital que Luck relaciona ao conceito de Janela de Overton: a ideia de que os limites do que é considerado aceitável no debate público podem mudar conforme determinadas propostas passam a ser repetidas e discutidas.
O processo começa com uma ideia tão extrema que parece absurda. Mas, ao ser colocada repetidamente no repertório de discursos que circulam nas redes, ela passa a fazer parte do que as pessoas reconhecem como uma possibilidade de debate.
As menos engajadas não duvidam da própria capacidade de escolha, e sim de que seu voto seja capaz de produzir algum efeito.
A partir daí, uma proposta menos radical pode começar a parecer razoável quando comparada àquela que já foi apresentada como extrema.
Um exemplo são declarações de influenciadoras como Pietra Bertolazzi, que ganharam circulação nas redes ao defender que mulheres deveriam votar de acordo com a orientação do marido porque não saberiam votar.
A questão, nesse caso, deixa de ser apenas se uma mulher tem ou não capacidade para escolher seus representantes e passa a envolver quem deveria orientar essa escolha.
A dinâmica cria um paradoxo: o fato de uma ideia ser considerada absurda pode ser justamente o que ajuda a fazê-la circular. Comentários indignados, compartilhamentos para criticar o conteúdo e discussões sobre a fala também podem aumentar sua visibilidade.
Por isso, a presença de um discurso extremo nas redes não deve ser confundida com sua aceitação pela sociedade. Viralizar não significa convencer.
A pesquisadora chama atenção para outro efeito possível: a capacidade de determinados conteúdos de sair de círculos restritos e passar a integrar o debate público.
QUEM INFLUENCIA QUEM?
A influência sobre o voto também é discutida na pesquisa. Entre as entrevistadas, 36,2% afirmam sofrer algum grau de influência de pessoas próximas na hora de decidir em quem votar.
Entre aquelas que reconhecem essa influência, o marido ou o companheiro aparecem como principal referência, seguido por amigos, políticos e lideranças. Os influenciadores são citados por 12% das entrevistadas.
Isso não quer dizer que essas mulheres transfiram seu dever cívico para outras pessoas. Ser influenciado por alguém faz parte do processo de formação de opinião e não é, por si só, sinal de falta de autonomia. A diferença está entre influenciar uma decisão e determinar uma decisão.
No primeiro caso, a eleitora continua sendo responsável pela escolha e pela palavra final; no segundo, sua capacidade de decidir é substituída pela orientação de outra pessoa.
A existência de influência dentro das relações pessoais não comprova que as mulheres sejam incapazes de tomar decisões políticas. Ao contrário: o próprio dado mostra que a formação do voto acontece em meio a relações sociais, como ocorre com outros eleitores.