Quem queremos no palco para construir o futuro?

Ao apresentar os novos colunistas da Fast Company Brasil, defendemos a curadoria humana, a diversidade de repertórios e a responsabilidade de escolher onde colocar a luz.

Colagem de um farol coberto por plantas entre duas mãos, diante de um céu estrelado com mapas e fachos de luz.
Créditos: Getty images, Unsplash

Camila de Lira 4 minutos de leitura
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Escolher o time de colunistas da Fast Company Brasil é uma tradição. Muita gente já deu cor às nossas humildes páginas online, trouxe ideias, provocou, discordou e ajudou a ampliar o jeito como olhamos para o mundo. É sempre um momento de prestígio — e de certo nível de ansiedade por aqui.

Há três décadas, a Fast Company se propõe a ser um farol sobre inovação e futuro em um mundo em permanente transformação. Dito assim, parece chique e glamuroso. Mas, na vida real, significa suor, lágrimas e muito menos champanhe do que gostaríamos. Significa o trabalho árduo e diário de fazer escolhas.

Que histórias contar. Que vozes publicar. Quais perguntas fazer. O que merece nossa atenção e o que é só barulho. Quando desconfiar do entusiasmo, quando resistir ao pessimismo. Quais empresas estão fazendo diferença, quais tecnologias estão fazendo a diferença… Afinal, o que significa fazer a diferença?

Ser farol já é difícil quando a noite está clara. Imagine quando está tudo nebuloso e o mapa está meio borrado.

Em 2026, essa talvez seja uma das partes mais importantes do nosso trabalho. Nunca foi tão fácil produzir e distribuir conteúdo. As redes sociais multiplicaram as vozes em circulação; a inteligência artificial tornou essa produção ainda mais abundante. Nesse cenário, pode parecer que o farol perdeu importância. Se todo mundo pode subir ao palco, qual é a importância do palco?

Honestamente? Toda.

Quanto mais coisas disputam nossa atenção, mais necessário — e vital — se torna escolher o que merece chegar até ela. Filtrar o que é som e o que é ruído. O que é debate e o que é apenas discussão de meme. O que é sociedade e o que é trend de redes sociais. E decidir quem ocupa os espaços que ainda têm o poder de reconhecer pessoas como referências, especialistas, criadores e lideranças.

SER UM PALCO TAMBÉM É UMA RESPONSABILIDADE

Não porque uma plataforma de mídia dê voz a alguém. As pessoas já têm suas próprias vozes e são capazes de alcançar uma audiência. Mas porque ainda temos o poder de escolher para onde apontar a luz.

De escolher quem aparece. Em qual contexto aparece. Quem é chamado para falar sobre tecnologia, trabalho, inovação, criatividade e futuro. Quem passa a fazer parte do repertório de pessoas que imaginamos quando pensamos em quem está construindo o mundo.

Essas decisões nem sempre são visíveis para quem está do outro lado da tela. Novamente: é o bastidor do bastidor. E a diversidade também faz parte desse filtro editorial.

Não acreditamos que exista algo extraordinário em construir um espaço em que pessoas com trajetórias, identidades, repertórios e maneiras muito diferentes de estar no mundo possam ocupar o mesmo palco. Isso deveria ser o básico. Só que sabemos que ainda não é.

Nos palcos da inovação e do futuro, as luzes costumam ir para os mesmos lugares. Para os mesmos cargos, as mesmas marcas, os mesmos autores e palestrantes. Pessoas que, historicamente, sempre tiveram o assento marcado e o microfone ligado.

Desta vez, como em outras, escolhemos ampliar o campo de visão.

Entre os nossos colunistas, há quem pense o mundo a partir da neurociência e quem parta da espiritualidade. Há quem observe a cultura pop para entender o comportamento, quem trabalhe com tecnologia, design, sustentabilidade, liderança, criatividade e futuros. Há artistas, jornalistas, pesquisadores, designers, psicólogos, programadores, publicitários e gente que construiu sua própria comunidade em newsletters, redes sociais, salas de aula e palcos.

Ninguém está aqui para representar sozinho uma identidade, uma geração, uma profissão ou uma comunidade. Está aqui porque acreditamos que tem algo interessante a dizer. Porque faz perguntas que queremos ouvir. Porque consegue enxergar coisas que, com toda a certeza, não conseguimos enxergar sozinhos.

CURADORIA SEM ALGORITMO

Escolher essas pessoas é um exercício de curadoria sem algoritmo, sem ChatGPT, sem ranking de popularidade e sem tratar o número de seguidores como sinônimo de relevância.

É uma escolha editorial. Portanto, subjetiva, imperfeita e profundamente humana. Ruidosamente humana. Esperançosamente humana.

Falei da responsabilidade, da ansiedade, do suor… Mas há algo bastante bonito em fazer esse filtro. Há uma beleza indescritível em ajudar a construir o futuro tijolo a tijolo, referência a referência. Em disputar a distopia palavra a palavra. E perceber que, por alguns segundos, em alguns momentos, os humanos ganham no final.

Porque, para olhar para a frente, precisamos olhar para o lado.

E, quando olhamos ao redor, percebemos que há caminhos para todos os lados. Há vida para caramba. Curiosidade para caramba. Há outras perguntas sendo feitas, outras referências sendo construídas e muitas formas possíveis de criar, pensar e fazer. Como diria minha avó: se bater o pé duas vezes, já dá para fazer o forró.

É nessa dança de construir futuros que apostamos com os novos colunistas da Fast Company Brasil: não em uma única visão de futuro, mas na abundância delas.

Abundância, não escassez. De olhares. De palavras. De experiências. De contradições. De possibilidades.

É fora dos caminhos mais óbvios que podemos encontrar aquilo que ainda não aprendemos a enxergar. Que bom ter tanta gente para olhar junto.

Bem-vindos ao futuro. Ou melhor: ao presente.


SOBRE A AUTORA

Camila de Lira é é editora chefe da Fast Company, jornalista formada pela ECA-USP, early adopter de tecnologias (e curiosa nata). saiba mais