O chão que pisamos
Pesquisa do Movimento Brasil da Paz busca saber o que brasileiros e brasileiras, em suas diferentes regiões, culturas e realidades, entendem por paz

Vivemos tempos em que falar de paz pode soar como um gesto quase ingênuo. As notícias trazem guerras, desigualdade, colapso ambiental, polarização, tudo isso em meio às eleições. Diante disso, é tentador achar que a paz é algo distante, um horizonte que só existirá lá na frente, se algum dia existir.
Mas há uma ideia do psicólogo francês radicado no Brasil Pierre Weil, fundador da Unipaz, que tira a paz do campo da utopia e a traz para o presente.
Ele dizia que a paz nunca deixou de existir. Ela está em cada gesto de cuidado, em cada mediação silenciosa de conflito, em cada comunidade que decide reconstruir em vez de destruir.
Em algum momento, deixamos de enxergar a paz e ninguém nos ensinou onde procurá-la. Descobrir a paz, insistia Weil, exige, antes de tudo, uma tomada de consciência: saber onde ela mora e como reconhecê-la quando aparece.
Foi essa provocação que deu origem à pesquisa que estamos lançando pelo Movimento Brasil da Paz, em cooperação com a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e em parceria técnica e institucional com o Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (Nupri/ USP).
Não é uma pesquisa sobre violência, embora a violência seja parte inevitável da conversa. É uma pesquisa sobre compreensão: o que os brasileiros e as brasileiras, em suas diferentes regiões, culturas e realidades, entendem por paz.
Antes de qualquer política pública, qualquer investimento social, qualquer estratégia de comunicação, há uma pergunta que raramente fazemos: qual é o chão que estamos pisando? Qual ideia de paz já vive dentro do imaginário da população brasileira, mesmo sem que ela tenha esse vocabulário pronto? Queremos saber isso.

Essa pergunta parece simples. Não é. Na fase de escuta que antecedeu a pesquisa, reunimos lideranças de educação, segurança pública, povos indígenas e quilombolas, pesquisadores de paz e conflitos, direitos humanos e justiça restaurativa de diferentes regiões do país, e uma coisa ficou nítida: a paz já está sendo construída, todos os dias, em lugares que raramente aparecem no noticiário.
Existem iniciativas em escolas públicas que transformaram o medo em pertencimento. Existe um pacto territorial que reduziu drasticamente a violência letal numa cidade do sul. Existe juventude indígena na Amazônia que assumiu a defesa do seu território como prática de paz.
Nada disso é exceção. É a paz em construção e ação.
Hoje essas iniciativas parecem invisíveis, porque não existe sistematização, nomeação ou demonstração disso de forma integrada em escala nacional. Não podemos transformar aquilo que não sabemos, e é exatamente essa lacuna que a pesquisa pretende preencher – e não inventar paz.
Em algum momento, deixamos de enxergar a paz e ninguém nos ensinou onde procurá-la.
A pesquisa nos ajuda a colocar uma lente e afirmar que o futuro não está dado. O futuro pode ser construído pelas histórias que somos capazes de imaginar, pelas escolhas que fazemos e pelas relações que cultivamos hoje.
Imaginar a paz não é fechar os olhos para a realidade. É olhar para ela de frente e ainda perguntar: qual mundo queremos construir a partir daqui?
A primeira coisa que precisamos fazer, antes de qualquer solução, é entender onde estamos pisando. É esse o convite que o Brasil da Paz está fazendo ao país: Brasil, o que é paz?
Saiba mais e participe da pesquisa nacional em brasildapaz.org.br