O custo invisível da dor menstrual
Da sala de aula ao mercado de trabalho, a invisibilização da saúde menstrual produz perdas que vão além da qualidade de vida

A produtividade no trabalho normalmente é associada ao burnout, às longas jornadas e aos desafios da rotina. Mas existe um fator pouco discutido que também compromete o desempenho: as dores menstruais.
Frequentemente normalizadas na adolescência, elas podem acompanhar pessoas que menstruam até a vida adulta. Segundo pesquisa do Instituto Alana, mulheres com sintomas menstruais perdem, em média,10,8 horas de trabalho por semana.
Quando visto em larga escala, o problema deixa de ser uma questão individual e passar a representar um desafio econômico.
Segundo relatório do McKinsey Health Institute, feito em parceria com Fórum Econômico Mundial, reduzir as lacunas na saúde da mulher poderia adicionar mais de US$ 1 trilhão ao PIB global por ano até 2040 (US$ 13 bilhões apenas no Brasil) ao ampliar a participação feminina no mercado de trabalho e reduzir o tempo lidando com condições precárias de saúde.
Os impactos, no entanto, não começam na vida profissional. Seis em cada 10 estudantes dos ensinos Fundamental e Médio que menstruam relatam ter cólicas fortes ou moderadas, enquanto quatro em cada 10 faltam às aulas mensalmente por causa da dor. Essas ausências comprometem um direito básico: a educação.
Além disso, a desigualdade racial está presente, já que as faltas tendem a ser maiores entre meninas negras: 14,5% delas faltaram de dois a cinco dias, em comparação com 9,6% das estudantes brancas que faltaram pela mesma quantidade de dias, segundo a pesquisa.
POR QUE O PROBLEMA PERSISTE?
Ainda hoje, falar de menstruação segue sendo tabu e muitas meninas crescem com poucas informações sobre o próprio ciclo menstrual, sobre como cuidar da saúde e por que aquilo está acontecendo.
Esse cenário contribui para a normalização das dores menstruais e faz com que muitas deixem de buscar atendimento ou demorem a perceber que os sintomas podem indicar um problema mais grave.

“A naturalização da dor menstrual faz com que ela seja tratada apenas como um desconforto individual, quando, na verdade, é um fator recorrente de impacto funcional”, afirma a Sofia Reinach, líder da iniciativa de endometriose, dor pélvica e saúde menstrual do Instituto Alana.
A invisibilização reflete no atendimento médico. Dados do estudo conduzido pela Vital Strategies Brasil, em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), revelam que apenas 0,5% das pacientes tinham registro de dor menstrual ou pélvica classificadas com os códigos oficiais de doenças em um mapeamento de 469 mil prontuários de mulheres e meninas de Recife entre 2016 e 2025.
Leia mais: Milhões de mulheres têm TPM grave. Por que não há mais pesquisas sobre isso?
Ao utilizar inteligência artificial para analisar os textos dos profissionais de saúde, foi identificado que cerca de 9% dos prontuários continham menções a dores menstruais ou pélvicas.
Além dos impactos socioemocionais, a invisibilização das dores menstruais também pode provocar consequências maiores, por exemplo, atraso na identificação de doenças, como a endometriose, cujo diagnóstico pode levar até 12 anos.
INVESTIMENTO EM PESQUISA
A saúde menstrual é um desafio multidimensional. Ao longo dos anos, recebeu pouco investimento em pesquisas, o que contribuiu para uma lacuna no conhecimento científico, na produção de dados e no desenvolvimento de ferramentas para diagnóstico e tratamentos.
É nesse contexto que a inovação passa a integrar a discussão. Uma das iniciativas é o investimento de R$ 300 milhões anunciado pelo Instituto Alana com foco na saúde menstrual, dor pélvica e endometriose.
Segundo a instituição, o valor será gasto inteiramente nos próximos 14 anos com objetivo de acelerar pesquisas e ampliar o impacto das soluções desenvolvidas.