POR FRANÇOISE TERZIAN

“O capitalismo gera o próprio coveiro”, escreveu Karl Marx há cerca de 200 anos. Seguindo o raciocínio do filósofo, sociólogo e revolucionário socialista alemão, o historiador britânico Eric Hobsbawm afirmou que a injustiça social é o pecado capital do capitalismo. Já o ex-presidente da Polônia, Lech Walesa, que ganhou o Nobel da Paz (1983) admitiu: “o capitalismo não é um bom sistema, mas ninguém inventou coisa melhor”.

Dois séculos depois de Marx, em meio à crise gerada pela Covid-19, o ESG (Environmental, Social and Governance) – sigla traduzida para ASG (Ambiental, Social e Governança) – acena como uma faísca de esperança. Presente nas mesas dos conselhos de administração e dos executivos C-Level das maiores companhias do mundo, o conceito enraizado em pilares como ética e transparência assume como o mais forte candidato a ‘coveiro do capitalismo selvagem’. Aquele que, em pleno século 21, ainda polui, desmata, explora, discrimina, corrompe e até mata.

Embora não seja novo, o ESG foi finalmente alçado aos holofotes em 2020. Em janeiro, Larry Fink, CEO da BlackRock, maior gestora de fundos do mundo, escreveu uma carta aberta aos comandantes das empresas que investe. Enfatizou a importância real dos termos sustentabilidade e responsabilidade e avisou: “para prosperar, cada companhia terá que entregar não só performance financeira, mas também fazer uma contribuição positiva à sociedade”

No mesmo mês, durante Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial (WEF), foi lançado o Manifesto de Davos 2020, que alertou para o propósito universal das empresas na Quarta Revolução Industrial e deixou claro que uma empresa é mais do que apenas uma unidade econômica geradora de riqueza. “O objetivo de uma empresa é envolver todos os seus stakeholders na criação de valor compartilhado e sustentado”, lembrou Klaus Schwab, fundador e presidente executivo do Fórum. Ou seja: o ‘capitalismo de stakeholder’, que deve mirar todas as partes interessadas ou afetadas por um negócio.

Pessoas segurando cartazes com os rostos de Philando Castile e George Floyd durante um protesto em julho de 2020, em Minnesota, nos EUA (Crédito: Stephen Maturen/Getty Images)

Em junho, o assassinato de George Floyd, nos EUA, foi o estopim do movimento Black Lives Matter, de combate ao racismo. “Ele acelerou o olhar para a importância da diversidade e da inclusão, um outro aspecto do ESG. Esse movimento americano refletiu no mundo todo”, observa Valéria Café, diretora de vocalização e influência do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Em novembro, crime parecido aconteceu no Brasil, quando João Alberto Silveira Freitas foi espancado até a morte por seguranças no estacionamento de uma unidade do Carrefour de Porto Alegre.

Protestos se alastraram pelo país até chegar na sede da varejista na França. Na sequência ao acontecimento, o Carrefour anunciou um fundo de R$ 25 milhões para o combate ao racismo. O ocorrido colocou todo mercado corporativo em alerta e dividiu opiniões. Uns defenderam a adoção imediata de uma jornada ESG enquanto outros colocaram em xeque a real eficácia do conceito.

Protesto no estacionamento de uma loja do Carrefour em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, contra a morte de João Alberto Silveira Freitas (Crédito: Sergio Alves/Getty Images) Unsplash

Olhando de fora, o que se observa é que o mercado está fechando o cerco para as empresas que miram o lucro a qualquer custo. Na prática, será que o ESG tem mesmo a capacidade de transformar o capitalismo e torná-lo mais justo e equilibrado? Foi com base nessa pergunta que a Fast Company Brasil conversou com protagonistas e atentos observadores desse movimento no país.

MODISMO OU TENDÊNCIA?

Depois do boom histórico em 2020, a sigla ESG dá sinais de que veio para ficar. Especialmente em um mundo ávido pelos próximos capítulos pós-vacinação contra a Covid-19 e pelo compromisso de ‘lucro com propósito’.

“Há investidores que fazem vistas grossas para questões gritantes como corrupção ativa, aquela na qual a empresa corrompe agentes públicos” — Renato Chaves

“Não é modismo. A gente vem falando de ESG e de sustentabilidade há anos. A partir de 2005, o tema ficou mais forte no setor empresarial, por pressão do mercado. Empresas de capital aberto foram as primeiras impactadas por essa agenda, em resposta às questões do mercado de investimento”, conta João Carlos Redondo, coordenador do comitê de Sustentabilidade do IBGC.

Dos últimos dois anos para cá, Mariana Faria, gerente sênior de sustentabilidade e mudanças climáticas da EY, conta que o interesse dos investidores em ter uma análise estruturada considerando a performance das empresas na temática ESG aumentou mais de 50%.

Muitas empresas ainda fazem greenwashing: prática na qual um negócio literalmente se maquia de verde para posar de sustentável e ecológico, quando, de fato, nada disso acontece (Crédito: Getty Images)

Esse olhar extrapolou o mercado financeiro e passou a alertar companhias de diversos setores. Hoje, basicamente, o país vive hoje duas realidades: a dos executivos dispostos a mudar suas empresas e entorno e aqueles que praticam o condenável greenwashing – prática na qual um negócio literalmente se maquia de verde para posar de sustentável e ecológico, quando, de fato, nada disso acontece.

Para Renato Chaves, conselheiro em empresas listadas e membro do Comitê de Auditoria da Previ, muito do ESG que se vê por aí não passa de “conversa fiada”. A começar pela sigla, cuja letra E (de meio-ambiente) é, de longe, a mais trabalhada. O G, de governança, revela-se ausente ao se observar conselhos de administração sem diversidade e sem questionamentos. “Há investidores que fazem vistas grossas para questões gritantes como corrupção ativa, aquela na qual a empresa corrompe agentes públicos”, alerta Chaves.

Outro ponto observado por ele refere-se à desigualdade salarial que mora, sem pudor, em inúmeras companhias. Chaves relaciona as maiores remunerações de uma empresa com a média dos salários dos empregados. “Nos Estados Unidos, a diferença é de 265 vezes, enquanto no Brasil é de 600 vezes”, alerta. Ele critica as organizações que demonstram fazer caridade, mas se esquecem de cuidar dos funcionários. “A desigualdade tem reflexo dentro das grandes empresas, que deveriam atacar esse problema e não o fazem.”

Ele menciona que há empresas cujo salário do CEO é de R$ 11 milhões por ano, enquanto a média salarial dos funcionários é de R$ 30 mil por ano. Questionado se for o caso de um CEO que fez Harvard e é altamente capacitado, Chaves responde que nenhum presidente trabalha sozinho para justificar tamanho abismo salarial.

O ESG também passa por políticas internas, que devem considerar a igualdade salarial entre todos os funcionários (Crédito: Getty Images)

O otimismo e as boas práticas, no entanto, estão aí para quem quiser se inspirar. Chaves, assim como outras fontes, citam a Natura, Suzano e a Gerdau como cases a se observar. Essa última deve atrelar parte dos bônus dos executivos às metas ESG.

Um bom ponto de partida é olhar para o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE B3), do qual a operadora TIM faz parte há 13 anos consecutivos. “Existe hoje uma consciência geral de que precisamos mudar de rumo, após os méritos e problemas produzidos pela onda de capitalismo”, diz Mario Girasole, vice-presidente de assuntos regulatórios e institucionais da TIM Brasil.

A caminho de seu segundo ano consecutivo no ISE, a Movida Rent a Car, aposta em um apanhado de ações para colocar o ESG em prática. O CEO Renato Franklin conta que quando a Movida começou, o mercado de locação de veículos não tinha praticamente nada voltado à classe C. Na contramão, ele abriu lojas em bairros de classe média baixa de São Paulo e passou a oferecer condições diferenciadas para atender esse público. “Temos uma jornada de aprendizado grande. Há muito por fazer nesse novo modelo de capitalismo mais justo e sustentável”, afirma.

Também olha para a mesma direção a conselheira de empresas (como a Korin) Tarcila Reis Correa Ursini, que também é da ONG Capitalismo Consciente. O maior exemplo, aponta ela, é a IFRS, organização internacional sem fins lucrativos responsável por desenvolver um conjunto de padrões contábeis globais de alta qualidade, discutir um padrão ESG global, já em consulta pública. “Trata-se de uma condição sine qua non para a sociedade”.

Olhando para a frente, ela destaca a geração dos millennials que, em cinco anos, responderá por 75% da força de trabalho mundial. “A nova geração não admite mais fazer negócios com quem não tiver o olhar para toda a sociedade.”

UMA GOTA NO OCEANO

Apesar de toda beleza do conceito, o Brasil – e boa parte do mundo – ainda se encontra no início dessa longa jornada. Dada toda sua complexidade e profundidade, o ESG ainda é uma gota no oceano brasileiro. No país com mais de 19 milhões de empresas ativas – dados do fim de agosto de 2020 do Ministério da Economia –, ainda são poucas que efetivamente abraçaram as práticas propostas pelo conceito. Um exemplo é a carteira do ISE B3, que passou a vigorar em 4 de janeiro deste ano e conta com 46 ações de 39 companhias. Os papéis que integram o ISE representam 15 setores e somam R$ 1,8 trilhão em valor de mercado, o equivalente a 38% do total das companhias com ações negociadas na B3 (até o fim de novembro de 2020).

“Não é lucro e ESG. É lucro com ESG. O caminho é o da atividade lucrativa com responsabilidade” — João Carlos Redondo

“Dentro desse universo, há uma ilha de excelência. Um número razoável de empresas de capital aberto listadas na Bolsa pratica isso”, observa Mauricio Colombari, sócio da PwC Brasil. Dessas, algumas em estágio bem avançado, já outras nem tanto. Fora do universo da Bolsa, o cenário é bem outro. “Essa agenda ainda não está no dia a dia das pequenas e médias empresas, que são as grandes empregadoras e produtoras de commodities e produtos industriais e do varejo nacional. A grande questão é como massificar isso. Há uma necessidade de walk the talk (ou seja, fazer o que se fala).”

O primeiro ponto é entender que a jornada ESG é infinita. Há uma largada, mas não há uma linha de chegada. As possibilidades de evolução em cada letra da sigla, que deve acontecer de forma equilibrada, são inúmeras. “ESG mexe com a cultura da empresa e essa cultura deve se traduzir em atos práticos. Não adianta ter códigos ESG e micro ações em contradição”, explica o vice-presidente da TIM, selecionada para compor o novo índice S&P/B3 Brasil ESG.

“Não é poluir e depois plantar árvores para amenizar os impactos. Não é corrigir. É não fazer. É pensar antecipadamente para evitar impactos negativos. Essa é a grande evolução”, diz Girasole, da TIM (Crédito: Getty Images)

Para Girasole, executivo de Nápoles que se mudou há 15 anos para atuar na TIM, não basta dar uma roupagem nova a práticas velhas. É preciso mudar o mindset. O comportamento das empresas precisa se reinventar. O ESG, explica o italiano, deve ser encarado como a adoção de uma cultura de bons insumos da mesma forma que se produzir uma autêntica pizza napolitana. Em ambos os casos, ingredientes ruins não trarão um bom resultado.

A lógica de ESG é diferente. “Não é poluir e depois plantar árvores para amenizar os impactos. Não é corrigir. É não fazer. É pensar antecipadamente para evitar impactos negativos. Essa é a grande evolução. Quando você entra nessa lógica, os processos das empresas passam a ser repensados”, diz Girasole.

O ESG já se transformou em EESG e EESGI, segundo alguns executivos e conselheiros de empresas. O primeiro E refere-se às questões econômicas e o I à integridade.

LEI DO RETORNO

O ESG fortalece o negócio e traz ganhos de longo prazo. “Não é lucro e ESG. É lucro com ESG. O caminho é o da atividade lucrativa com responsabilidade”, prega Redondo, do IBGC. E o lucro, efetivamente, vem – para a empresa e para seus investidores.

Não por acaso, pesquisa global da Accenture aponta que 99% dos CEOs de empresas que faturam mais de US$ 1 bilhão acreditam que sustentabilidade de forma geral será importante para o futuro de seus negócios. Atenta a essa questão, a BRF, pelo segundo ano consecutivo no ISE da B3, lançou recentemente sua Política de Sustentabilidade que abraça 17 diretrizes como Integridade e Bem-Estar Animal.

“A empresa não é melhor por seguir as boas práticas. Ela segue as regras por ser melhor” — Ricardo Almeida

A empresa conta também com um Comitê Executivo dedicado à Sustentabilidade com foco no fortalecimento da governança ESG. Na diretriz Gestão da Cadeia de Valor, todos os fornecedores da BRF devem assinar o manual de transparência assegurando que não promovem desmatamento ilegal, trabalho escravo, dentre outras ações coibidas pela empresa. Ano passado, por exemplo, 40 fornecedores caíram na malha fina da BRF. Segundo Neil Peixoto, vice-presidente global de sustentabilidade, qualidade e pesquisa & desenvolvimento da BRF, eles foram descredenciados e tiveram seus contratos suspensos, com a abertura de um processo de investigação pela área de compliance.

Essas práticas são observadas pelos investidores. “Para alguns, ESG é modismo. Para outros, tendência. Para nós, já é tradição”, afirma Renato Eid, head de estratégia beta e integração ESG da Itaú Asset Management, a primeira grande gestora de investimentos no Brasil ao aderir ao PRI (Principles for Responsible Investment), em 2008.

Na Bradesco Asset Management (BRAM), 99,4% de todos os ativos são avaliados sob os critérios da sustentabilidade. “Hoje, avaliamos os aspectos ambiental, social e de governança de mais de 260 empresas. Isso faz parte das nossas decisões de investimento. E isso para os fundos dedicados e não dedicados à sustentabilidade”, afirma Marcelo Nantes de Souza, chief investment officer da BRAM.

No longo prazo, a performance das empresas que investem em sustentabilidade é superior a das empresas que não investem. “De 2007 ao fim de outubro de 2020, o Bradesco Fia Sustentabilidade Empresarial apresentou um retorno total de 125,8% no acumulado ante os 84% do ISE e 49% do Ibovespa”, afirma Ricardo Almeida, CEO da BRAM. E complementa: “a empresa não é melhor por seguir as boas práticas. Ela segue as regras por ser melhor.”

Vale lembrar, no entanto, que ESG alto não é passaporte livre para se aportar numa empresa. Embora seja parte fundamental do processo de investimento, é a projeção de lucro, de crescimento nas vendas e do ganho de market share que responderão se vale a pena investir em determinada empresa ou não. As ações podem estar simplesmente caras, coisa que um ESG muito alto não justifica. O contrário, do ESG baixo, também não significa veto ao aporte. Investe-se, se for justificável, mas investe-se menos. “Critério de ESG é input importante, porém não o único na nossa decisão de investimento”, afirma Almeida.

Já o preço de não se investir em ESG é alto. “Você corre o risco de não existir daqui um tempo. O seu produto pode ficar obsoleto, os fornecedores de capital podem não te dar acesso à capital e seu cliente pode não ter mais interesse na sua empresa”, alerta Nantes de Souza.

Daqui para frente, as empresas que irão se destacar são aquelas que conseguirão unir a narrativa financeira à não financeira, prevê Girasole, da TIM. Antevendo esse cenário, em julho de 2018, ele criou, debaixo de sua diretoria, uma área voltada exclusivamente ao ESG.

UMA DICOTOMIA

ESG é um tema complexo que apresenta uma dicotomia. “Agenda de longo prazo versus cobrança de remuneração de curto prazo. Isso já causa, naturalmente, um afastamento do executivo desse tema. Se ele é cobrado no trimestre, como ele vai dar atenção à uma agenda de longo prazo?”, observa Redondo.

O segundo ponto é que cada empresa tem seu momento. As dificuldades para manutenção da saúde financeira acabam por reduzir o apetite pela busca de uma agenda robusta de ESG. “Nesse caso, a empresa vai focar naquilo que é mais urgente, que é a sua sobrevivência”, diz Redondo.

Há, no entanto, muitas empresas que superaram o primeiro estágio do compliance. Elas entenderam que não basta mais fazer apenas o básico. Ir além e abraçar o ESG faz bem para os negócios e esse assunto já chegou à mesa do conselho de administração. Seja por processo de regulação setorial, marco legal federal, concorrência ou convicção da companhia, como explica o presidente do IBGC.

O custo de se aderir ao ESG vai além de implementar políticas, práticas, processos e metodologias. No dia a dia, obstáculos variados surgem no meio dessa jornada infinita. “A dificuldade de se trabalhar de forma transversal na cadeia foi uma das barreiras apontadas em nossas pesquisas”, afirma Matthew Govier, diretor-executivo da Accenture para a América Latina. Em outras palavras: fazer com que todos trabalhem em prol do mesmo objetivo. Diante de tantos interesses, muitas vezes divergentes, não é fácil para uma empresa coordenar todos os participantes da cadeia de valor.

Outra barreira que surgiu na pesquisa da Accenture foi a necessidade de oferecer um preço mais baixo ao consumidor, o que no curto prazo pode demandar investimentos. Ou fazer uma mudança de embalagem, do plástico para uma versão reciclada, o que também demanda novos investimentos. “Nesse caso, os CEOs estão vendo que não tem mais saída”, diz Govier.

Isso tudo significa que o caminho para um capitalismo mais equilibrado não é simples, curto nem fácil. Pelo contrário, a jornada será longa, tortuosa e, como dizem os especialistas, infinita. Sai na frente quem, efetivamente, mudar a mentalidade e inovar. Bancos, com seus juros sabidamente exorbitantes, estariam dispostos a reduzir seu lucro em prol de taxas consideradas mais justas à sociedade? E eles seriam capazes de vetar empréstimo a empresas que poluem? Já os laboratórios aceitariam ganhar menos para comercializar medicamentos de combate a doenças até então incuráveis? Vender a vacina contra a Covid-19 a preço de custo ou lucrar em cima da pandemia? A AstraZeneca, por exemplo, disse que não lucrará com as vendas de sua vacina enquanto a Covid-19 for considerada uma pandemia.

O presente começa a dar pequenos sinais de que há chances, no futuro, de o mundo assistir a algumas mudanças em prol do outro. O ESG, se levado a sério, abre o horizonte para um capitalismo mais humanizado.

SOBRE A AUTORA

Françoise Terzian é colaboradora da Fast Company Brasil.