Jeans usa 75 litros de água para ser tingido; nova técnica usa duas colheres
Tecnologia de impressão digital pode tornar a produção de jeans mais rápida, barata e menos dependente de água e produtos químicos

A clássica cor azul do jeans tem um custo ambiental: tingir uma única calça jeans consome cerca de 75 litros de água e exige produtos químicos industriais. Mas uma nova abordagem de impressão digital reproduz o mesmo visual usando cerca de duas colheres de sopa de água e corantes de origem biológica.
Uma startup chamada Wtrlss, que está começando a trabalhar com grandes marcas, desenvolveu um corante baseado em bioquímica que é aplicado diretamente aos rolos de tecido por meio de impressoras industriais a jato de tinta.
A impressão digital não é novidade, mas normalmente envolve imprimir apenas na superfície do tecido. Essa nova tecnologia se liga completamente à fibra sem etapas adicionais, resultando em um tecido que, segundo a empresa, é indistinguível do jeans tingido pelos métodos tradicionais.
“Criamos o primeiro conjunto de cores substitutas do índigo que funciona com impressão digital”, diz o CEO Dustin White. “É uma tecnologia realmente revolucionária, no sentido de que é a primeira vez que temos um azul índigo que pode ser aplicado ao tecido sem usar índigo.”
O cofundador da Wtrlss, Mickaël Mheidle, cientista baseado na Suíça, desenvolveu a tecnologia.
UMA NOVA MANEIRA DE TINGIR JEANS
Tradicionalmente, tingir jeans exige uma longa sequência de etapas. O fio de algodão é colocado em banhos de tingimento, nos quais o índigo – ou, mais frequentemente, o índigo sintético – é alterado quimicamente para facilitar sua ligação às fibras. A etapa seguinte normalmente envolve a remoção de parte da cor.
“Você usa alvejantes, lasers e todas essas técnicas diferentes para remover a cor e obter aquele aspecto desbotado que vemos nas prateleiras”, explica White. Fios azuis são tecidos com fios brancos para formar o tecido final, que normalmente passa por outras etapas de acabamento.

Na Wtrlss, o processo digital acontece em uma única etapa. Em vez de começar com um tecido escuro e remover a cor, a cor e o acabamento são aplicados diretamente ao tecido sem tingimento.
A bioquímica foi desenvolvida para ajudar a cor a penetrar na fibra e pode ser ajustada para reproduzir uma aparência específica. “O designer controla o quanto [...] a cor vai penetrar nessa fibra”, diz White.
O acabamento final, incluindo a criação do “toque” do tecido, também acontece dentro da máquina. “Literalmente, você coloca o tecido de um lado, ele sai do outro, e você corta e costura”, diz White.
MENOS ÁGUA, PRODUÇÃO MAIS RÁPIDA
O processo tradicional usa tanta água e gera tanta poluição que muitas vezes é realizado em locais com regulamentação ambiental menos rigorosa. Mas o novo processo, que reduz o consumo de água em 99,99% (já que a única água restante está no próprio corante), permite realizar o tingimento com mais facilidade em lugares próximos a grandes centros de consumo.
Para as marcas, um processo de produção mais rápido facilita a resposta às tendências e ajuda a evitar a superprodução de estilos que não terão demanda. Atualmente, as empresas muitas vezes começam a produção 18 meses antes de um produto chegar ao mercado.
Elas também podem produzir quantidades menores e testar estilos. Todo o processo é mais barato do que a alternativa tradicional, pois utiliza menos mão de obra, consome 90% menos energia e elimina o custo do tratamento da água residual.

Em testes, jeans produzidos com o material da Wtrlss também tiveram maior durabilidade. Os mesmos produtos químicos e processos normalmente usados para tingir e dar acabamento ao jeans também degradam as fibras. O novo processo proporciona o mesmo visual sem causar esse dano.
A empresa agora está realizando testes com o Ha-Meem Group, um dos maiores fabricantes de jeans do mundo, que trabalha com marcas como Levi’s e Gap. Embora a startup ainda não possa divulgar os nomes das marcas que estão começando a utilizar sua tecnologia, afirma que os primeiros produtos chegarão ao mercado ainda esta ano.
A mesma abordagem pode ser usada para outros tipos de tingimento, mas a empresa começou pelo jeans porque esse material exige uma quantidade especialmente grande de água.
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Como o novo processo é mais barato e oferece outras vantagens além da sustentabilidade, tem potencial para ganhar escala rapidamente. A empresa acredita que a tecnologia pode ajudar a transformar a indústria do jeans.
“O processo tradicional de tingimento do fio com índigo é uma forma de arte que, acredito, sempre vai existir em categorias específicas, como deve ser”, diz White. “Mas, para a produção em massa de jeans, não é razoável continuar seguindo o caminho que a indústria está trilhando. Não é sustentável.”