Menor que um grão de arroz: dispositivo acompanha a migração das borboletas
Transmissores minúsculos ajudam cientistas a descobrir onde as borboletas param, quanto voam e quais obstáculos enfrentam durante a migração

Pesquisadores monitoram os deslocamentos de animais por meio de dispositivos instalados em suas patas, asas e carapaças. Mas como acompanhar uma criatura que pesa menos de um grama?
Para desenvolver um equipamento pequeno e leve o suficiente para uma borboleta monarca, designers precisaram criar o menor dispositivo de rastreamento de animais selvagens do planeta.
O minúsculo transmissor para borboletas desenvolvido pela Cellular Tracking Technologies (CTT), empresa sediada em Nova Jersey, nos EUA, chama-se BlūMorpho. Ele tem apenas 3,5 centímetros de comprimento, pesa quase o mesmo que um grão de arroz e funciona sem bateria.
A CTT fabrica dispositivos de telemetria da vida selvagem, usados para acompanhar os deslocamentos e os padrões migratórios de animais em seu habitat natural. Depois de internalizar sua produção durante a pandemia, a empresa passou a ter condições de fabricar peças minúsculas por conta própria.
“Somos uma empresa de telemetria desde 2007 e trabalhamos principalmente com aves. Por isso, tudo gira em torno da redução de peso”, conta David La Puma, vice-presidente de desenvolvimento de mercado global da CTT.
Projetar um dispositivo adequado ao peso de uma borboleta, porém, representou “uma restrição extrema”, afirma La Puma, acrescentando que o desenvolvimento e a fabricação do produto exigiram investimentos consideráveis.
Em vez de uma bateria, o rastreador utiliza um painel solar minúsculo, menor do que a luz de uma lanterna na parte traseira de uma moeda de dez centavos.
Ele fica localizado na parte superior do transmissor. A maior parte do dispositivo consiste em uma antena fina, que percorre o corpo do equipamento e transmite informações para estações receptoras fixas.

No primeiro semestre de 2025, 30 borboletas equipadas com o BlūMorpho foram soltas em Ontário, no Canadá, pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do país. O objetivo era acompanhar sua migração em direção ao sul, como parte de uma colaboração de pesquisa chamada Projeto Monarca.
Mais de 400 borboletas foram identificadas com os dispositivos e monitoradas no ano passado. Este ano, o número chegou a cerca de 1,5 mil. A meta é ultrapassar 2 mil borboletas depois da instalação de novos transmissores.

Obter essas informações pode ser especialmente importante em um momento em que as borboletas estão em declínio, ameaçadas por fatores como as mudanças climáticas e a perda de habitat.
No Centro de Estudos de Ecossistemas de Vermont, pesquisadores dedicados à conservação estão usando os rastreadores para descobrir quantas borboletas monarca de Vermont conseguem chegar ao sul do México.
Quando não conseguem, o objetivo é identificar onde estão as ameaças e os gargalos ao longo do percurso. Os dispositivos também permitem investigar se as borboletas têm mais chances de sobreviver quando iniciam a migração mais cedo no ano.
A equipe do centro consegue instalar os rastreadores depois de colocar as borboletas em uma geladeira por aproximadamente 20 minutos, para desacelerá-las. Em seguida, cada exemplar é colocado sobre uma placa de preparação, com as asas abertas e mantidas nessa posição por pequenos pesos, que impedem seus movimentos.

O transmissor é colado ao tórax da borboleta com uma cola atóxica usada para cílios postiços, que seca em 15 minutos. Depois de passar um breve período em uma gaiola temporária para que os pesquisadores confirmem o funcionamento do rastreador, a borboleta é solta na natureza.
“Com esses transmissores, pela primeira vez podemos realmente observar os deslocamentos de indivíduos. Nunca tínhamos conseguido fazer isso antes”, afirma Desirée Narango, cientista especializada em conservação do centro.
Os pesquisadores descobriram que as borboletas seguem diferentes rotas migratórias por uma ampla área geográfica. Agora, conseguem observar a velocidade com que voam, a distância percorrida e a duração de seus voos contínuos, além de identificar onde param para encontrar néctar e recuperar as energias.
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Esses locais podem ser pequenos jardins para polinizadores no quintal de uma casa ou em uma escola, ou áreas próximas a ameaças, como rodovias e regiões expostas a pesticidas.
“Conseguir enxergar o quanto esses pequenos fragmentos de habitat são importantes para as jornadas migratórias tem sido revelador”, afirma Narango. Segundo ela, os pesquisadores já discutem a possibilidade de utilizar os transmissores também em libélulas e mamangavas.