Ela cresceu ouvindo funk. Quis desistir várias vezes. Chegou lá sem investimentos que lhe dessem a tranquilidade de focar apenas no esporte. Em sua primeira apresentação nas Olímpiadas de Tóquio, escancarou seus valores, história e origem. Ao som de Baile de Favela, de MC João, mostrou que era possível conectar o funk à música clássica. E fez história ao se tornar a primeira mulher medalhista de ouro na ginástica levando a melhor na final do salto feminino. Rebeca Andrade é uma mulher negra no topo. Assim como centenas de outras líderes que, juntamente com seus contextos, histórias e lutas chegam, aos poucos, na liderança corporativa.

Gabriela Chaves, fundadora e CEO da NoFront Empoderamento Financeiro (Crédito: Divulgação)

As histórias de Rebeca e de várias outras mulheres negras não são apenas narrativas de determinação e superação. Elas expressam a luta ao racismo e à desigualdade e um contexto que, ao ser subvertido, mostram que só existe inovação e futuro no mundo corporativo com elas. Uma semana após a celebração do Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha e, agora, com os feitos de Rebeca vale ouvir as líderes que já estão aí para incentivar outras mulheres que não é possível, mas é necessário chegar lá. Isso está no esporte, no trabalho e em qualquer entidade ou segmento que queira evoluir.

Juliana Oliveira, CEO da Oliver Press (Crédito: Beatriz Pereira)

Rita de Cássia Barros Oliveira, head de diversidade e inclusão da The Walt Disney Company Brasil e membro da iniciativa Mover, focada no compromisso da equidade racial, lembra que as pesquisas apontam que menos de 8% dos cargos de decisão e liderança nas grandes companhias são ocupados por mulheres negras. “O que quer dizer que uma significativa contribuição de profissionais diversas muito bem formadas, capacitadas, com experiências singulares e com potencial de agregar e trazer ideias e soluções inovadoras não está sendo utilizada, e, muitas vezes sequer sendo considerado em decisões estratégicas”, afirma.

“O poder das narrativas da mulher negra são infinitos, e vão desde experiências de origens e valores diversos até a construção da representatividade em todos os aspectos de consumo baseado no desejo e aspiração de mais de metade da população que se auto declara preta ou parda nesse país. É preciso olhar pra isso, é preciso estar atento para o quanto essas profissionais negras podem agregar em termos de inovação nos mais variados segmentos de negócio”, pontua Rita de Cássia.

Débora Mattos, chefe de gabinete da presidência da Coca-Cola Latam (Crédito: Divulgação)

Débora Mattos, chefe de gabinete da presidência da Coca-Cola na América Latina e membro da iniciativa Mover, focada no compromisso da equidade racial, entende que a inovação é fundamental e essencial para o crescimento dos negócios e, neste contexto, o olhar da liderança negra e feminina é inerente. “O padrão de consumo é dinâmico e as empresas devem ficar sempre muito atentas para atender às novas demandas e resolver tensões que surgem na vida dos consumidores. O que vejo como maior desafio é como enraizar esse conceito dentro da organização. Não é simplesmente criar uma área de inovação. Para inovar é essencial que aconteça uma completa mudança de mindset. As empresas precisam cada vez mais fomentar que funcionários e parceiros tenham liberdade para criar, pensar diferente e trazer ideias disruptivas e, por isso, um ambiente seguro que permita que tais ideias floresçam é essencial.”

RESISTÊNCIA NA FORMAÇÃO DE LIDERANÇAS

Lisiane Lemos, especialista em inovação (Crédito: Paulo Barros)

O número de mulheres em conselhos administrativos cresceu 13% em 10 anos, de acordo com pesquisa recente da Pearl Meyer. Um avanço, mas ainda lento, como alerta Rachel Maia, CEO da RM Consulting e conselheira administrativa. “Acredito que as mulheres estão, de fato, tendo voz nos boards. Para ocupar uma cadeira como conselheira é preciso muita preparação, certificações e anos a fio de experiência. São mulheres com uma bagagem gigantesca, que sabem muito bem como contornar situações e posicionar ideias. Afinal, essa é uma das premissas de um conselho”, destaca.

Fernanda Ribeiro, cofundadora e COO da Conta Black (Crédito: Larissa Isis)

Ainda de acordo com Rachel, é preciso saber ouvir e, mais ainda, saber expor ideias e dialogar com quem pensa parecido e diferente. “Sei da importância e, também, da responsabilidade de ser uma das pouquíssimas mulheres negras a ocupar uma cadeira estratégica. Minha trajetória sempre foi muito solitária e, como sempre digo, não quero que seja só a Rachel”.

“Historicamente foram as mulheres negras que lideraram os processos de resistência e produção de alternativas de trabalho em diversas cidades e comunidades do Brasil. A movimentação de mulheres negras nas esferas de decisão é a possibilidade de pensarmos novos marcos de construção da nossa sociedade”, sinala Kenya Sade, gerente de programação da Trace Brasil. Já Lisiane Lemos, especialista em Transformação Digital e colunista da Fast Company Brasil, reforça que “as mulheres negras são criadoras de inovação desde o dia que chegaram neste país, seja desenvolvendo novas formas de comércio, de alianças, ou no crescimento em meio à adversidade. Neste momento, estamos criando novas formas de acesso, reconhecimento e pertencimento e o primeiro passo é reconhecer a desigualdade de condições que nós (mulheres negras) tivemos e que somente políticas de ações afirmativas serão capazes de melhorar a situação na velocidade necessária”.

RESILIÊNCIA E CRIATIVIDADE

Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta e CEO da PretaHub, também colunista da Fast Company Brasil, ressalta que mulheres negras são símbolos de resiliência e criatividade, principalmente nos negócios. “A sevirologia, que é dar um jeito e fazer acontecer, sempre esteve presente em minha trajetória e na de tantas outras pretas por aí, e não desistimos nunca de fazer dar certo.”.

Rachel Maia, CEO da RM Consulting (Crédito: Claudio Gatti)

Juliana Oliveira, fundadora e CEO da Agência Oliver Press, orienta outras mulheres negras que para se destacar nos negócios, é imprescindível conhecer e atender às necessidades de seu público e colaboradores. “Lembrando que, quando falamos em inovação, não estamos necessariamente nos referindo à implantação de novas tecnologias ou altos investimentos. É possível ser inovador na gestão, nos processos, na implementação de um novo produto ao portfólio. O que não se deve deixar de fazer é buscar sempre um novo jeito de olhar a inovação com o propósito de construir futuros mais diversos e inclusivos. Acompanhe seu mercado e busque estar sempre um passo à frente”.

Gabriela Chaves, economista, fundadora e CEO da NoFront Empoderamento Financeiro, explica que, como as mulheres negras constituem a base da sociedade, esão muito mais conectadas com as necessidades e demandas reais da maior parte da população. “Então, é um olhar que não carrega vícios de privilégios e que traz uma perspectiva plural e necessária para processo de inovação e para que a gente consiga sair do espaço do status quo e desenvolver soluções que agreguem e solucionem problemas reais”, pontua.

Kenya Sade, gerente de programação da Trace Brasil (Crédito: Divulgação)

Adriana Barbosa, CEO da PretaHub  (Crédito: Divulgação)

Para Fernanda Ribeiro, co-fundadora e COO da Conta Black, não é possível movimentar a estrutura sem ter uma mulher negra nesse processo. “Quando partimos do pressuposto de que ocupamos o lugar mais baixo da pirâmide social, inovar é nossa maneira mais política de nos incluirmos. Pois nesse lugar de escassez, nossa criatividade é uma ferramenta importante para transformar nosso entorno em abundância. Trazendo para o empreendedorismo, as mulheres negras lideraram movimentos inovadores, vale a pena destacar a reformulação da indústria cosmética contemporânea que se deu a partir da nossa inventividade para cuidar de nossos cabelos quando a indústria não nos enxergava.”

SOBRE O AUTOR

Luiz Gustavo Pacete é editor-contribuinte da Fast Company Brasil