Dias nublados são um problema real na vida dos painéis solares. Mas uma inovação está prestes a converter luz UV em energia mesmo que o sol não esteja brilhando.

Quando falamos de energia renovável, painéis solares são ótimos. Sua eficiência melhorou e os custos caíram a ponto de ser factível mudar todas as casas dos EUA para energia solar e economizar dinheiro no processo.

Mas aí entram as nuvens. A intermitência dos céus é um desafio para a eficiência da energia solar, e ainda que não seja possível controlar esse elemento, uma nova invenção encontrou uma maneira de driblar essa inconsistência – captando a energia ultravioleta invisível que está presente, independentemente do clima.

O conceito é chamado AuREUS (sigla em inglês para Aurora Renewable Energy and UV Sequestration – Energia Renovável e Sequestro de UV Aurora), e foi inventado por Carvey Ehren Maigue, um estudante de engenharia elétrica nas Filipinas. A solução envolve uma combinação de partículas orgânicas luminescentes que absorvem a luz UV e a convertem em luz visível, além de um filme solar que converte a luz visível em energia. “É similar à maneira que nós respiramos oxigênio e exalamos gás carbônico,” diz Maigue. “O painel recebe a luz ultravioleta e, depois de um tempo, a libera na forma de luz visível”.

A invenção tem o potencial de transformar janelas e paredes dos prédios em uma nova fonte de energia.

Produzido na forma de uma resina parecida com a utilizada em vidros à prova de bala, essa tecnologia de coleta é uma evolução da tradicional estrutura solar montada no telhado. A invenção foi recentemente escolhida como vencedora do primeiro Prêmio James Dyson de Sustentabilidade, recebendo uma premiação de 35 mil dólares – e chamando a atenção do mundo todo. A solução se destacou entre os quase 1.800 inscritos por ter potencial comercial para resolver um desafio global. De acordo com Tom Crawford, diretor global de sustentabilidade da Dyson e um dos julgadores do prêmio, a invenção será uma grande mudança no jogo para a indústria. “Imagino que quase todas as empresas de energia solar vão bater na porta de Maigue”, afirma.

O inventor Carvey Ehren Maigue e sua criação

Maigue desenvolveu o AuREUS transformando resíduos de plantações de frutas e vegetais em um material luminescente capaz de converter a luz UV. Ao misturar esses materiais com uma resina e atrelá-los a um filme solar, ele criou painéis similares ao vidro que conseguem produzir uma quantidade surpreendente de energia. O protótipo é um painel de 90×60 cm que ele instalou na janela do seu apartamento. Com uma leve tonalidade verde-limão, mas transparente, o painel-teste pode gerar potência suficiente em um dia para carregar dois telefones celulares. Em escala ampliada, explica Maigue, os painéis poderiam permitir que edifícios produzissem toda sua demanda de energia.

O inventor diz que a flexibilidade do material permitirá que os projetistas integrem formas capazes de gerar energia em quase qualquer projeto. “Nós podemos criar painéis curvos, formas mais complexas para as paredes ou o design que eles quiserem sem diminuir a eficiência,” diz ele. “Esta é uma das maneiras com a qual podemos permitir que arquitetos e engenheiros se expressem mais e sejam mais artísticos”.

Maigue diz que o próximo passo é criar um projeto piloto para usar os painéis solares em uma escala maior. A primeira instalação predial será em uma pequena clínica médica na ilha remota de Jomalig, que fica a quatro horas de barco da parte continental das Filipinas. O único médico da ilha é um dos amigos de Maigue – e com frequência reclama que a clínica fica sem energia durante tempestades. “O impacto seria possibilitar que estruturas críticas, como essa clínica, operem mesmo sem energia elétrica,” afirma.

Ele também espera que a tecnologia seja usada em uma gama maior de produtos. A resina pode ser usada em fios, por exemplo, e existe a possibilidade de usá-la para criar tecidos geradores de energia. “Se pudermos democratizar a energia renovável, poderemos aproximá-la física e psicologicamente das pessoas,” diz Maigue. “A verdade é que as pessoas não precisam de grandes instituições para ter a capacidade de obter energia solar em suas janelas.”