Por que a Levi’s está ensinando a Geração Z a consertar roupas

Em parceria com a Discovery Education, a marca está lançando uma iniciativa para ensinar conceitos básicos de costura aos jovens nas escolas

aula de corte e costura para conserto de roupas
Créditos: Levi's/ fmichaela-st/ Roberto Sorin/ Dylann Hendricks/ Unsplash

Elizabeth Segran 5 minutos de leitura

Amanda Lee McCarty, consultora de sustentabilidade e apresentadora do podcast Clotheshorse, lembra de ter consertado um rasgo em uma camiseta da Forever 21 com um grampeador – apenas o suficiente para chegar até o fim do dia antes de jogá-la fora.

No início dos anos 2000, quando as marcas de fast fashion começaram a inundar o mercado, as roupas ficaram tão baratas que os consumidores podiam renovar o guarda-roupa sem parar.

As peças eram malfeitas e rasgavam com facilidade, mas isso pouco importava. Elas eram pensadas para ser descartáveis, estimulando compras repetidas. “Não parecia valer o tempo e o esforço para consertar a blusa. Além disso, eu não tinha nenhuma habilidade de costura na época”, lembra ela.

McCarty não está sozinha. A partir do início do século 20, escolas passaram a ensinar alunos – em sua maioria meninas – a arte de costurar e remendar roupas nas aulas de economia doméstica. Eles aprendiam a operar máquinas de costura para fazer barras bem acabadas e a pregar botões à mão.

Mas, nos anos 1970, em parte por causa da crítica feminista de que essas aulas reforçavam papéis tradicionais de gênero, esses cursos começaram a ser gradualmente cortados das escolas públicas.

Hoje, existem várias gerações sem nenhuma habilidade de costura. Em um estudo recente realizado pela Levi’s, 41% da geração Z afirmam não ter conhecimentos básicos, como consertar um rasgo ou pregar um botão – o dobro da taxa observada entre gerações mais velhas.

Esse movimento também coincidiu com o barateamento das roupas, impulsionado por cadeias globais de suprimentos e mão de obra de baixo custo em países em desenvolvimento.

De repente, as peças ficaram tão acessíveis que até as famílias mais pobres podiam comprá-las em vez de confeccioná-las. Com o tempo, como ilustra McCarty, ficaram tão baratas que já não fazia sentido sequer remendá-las.

fast fashion e excesso de consumo de roupas descartáveis
Crédito: Freepik

Essa transformação da indústria da moda levou diretamente ao desastre ambiental em que nos encontramos hoje: a fabricação de bilhões de peças por ano acelera as mudanças climáticas e as roupas descartadas agora entopem aterros sanitários, desertos e oceanos.

A Levi’s acredita que um dos passos para enfrentar essa crise é ensinar a geração Z a fazer consertos. A marca de jeans firmou uma parceria com a Discovery Education, nos EUA, para criar um currículo alinhado aos padrões educacionais, que ensina estudantes do ensino médio a pregar um botão, consertar um buraco ou rasgo e fazer a barra de uma calça.

costureira pregando botão

São quatro planos de aula, cada um pensado para ocupar um único período escolar e flexível o suficiente para ser incorporado a disciplinas diversas.

Kimberly Wright, gerente de design instrucional da Discovery Education que trabalhou no projeto, afirma que as aulas não são apresentadas como um resgate da economia doméstica: são enquadradas como habilidades práticas e transferíveis, relevantes para uma ampla gama de carreiras.

A iniciativa é financiada pelo orçamento de impacto social e engajamento comunitário da Levi’s, e não por sua área de marketing, embora o currículo traga a marca da empresa.

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Paul Dillinger, chefe de inovação global de produtos da Levi’s, acredita que há valor em associar a marca ao ato de consertar roupas, pois isso reforça a ideia de que seus produtos são feitos para durar.

“A Levi’s quer ser a peça mais querida do seu guarda-roupa, aquela que você mais usa”, diz ele. “Se capacitarmos nossos clientes a cuidar desse velho amigo no armário, criamos afinidade com a marca.”

CONSERTAR ROUPAS NÃO RESOLVE O PROBLEMA DO SISTEMA

A iniciativa busca desafiar a percepção da geração Z de que roupas são descartáveis. Em teoria, o conserto mantém as peças fora dos aterros sanitários. “Trata-se de estender o ciclo de vida do produto para que você não precise comprar algo novo”, afirma Alexis Bechtol, diretora de assuntos comunitários da Levi’s.

Não há dúvida de que o conserto é uma parte crucial do movimento de moda sustentável. McCarty hoje repara suas roupas para prolongar sua vida útil. Mas ela ressalta que o maior problema da indústria da moda é inundar o mercado com roupas baratas e incentivar o consumo constante.

Embora as pessoas possam comprar menos e usar as peças por mais tempo, ela diz que as marcas precisam assumir a responsabilidade de produzir menos e com mais durabilidade. “É como colocar um curativo em um ferimento sangrando e dizer que está resolvido, quando há questões muito maiores a enfrentar”, afirma.

McCarty estende essa crítica à própria Levi’s. Embora alguns produtos da marca sejam duráveis, ela observa que a empresa também produz grandes volumes de jeans de linha mais básica para o varejo. Essas peças costumam ser feitas com tecidos sintéticos, mais difíceis de consertar e com aviamentos que não são biodegradáveis.

o maior problema da indústria da moda é inundar o mercado com roupas baratas e incentivar o consumo.

Ainda assim, McCarty acredita que o projeto é importante para educar a geração Z não apenas sobre como consertar roupas, mas também sobre as consequências mais amplas da superprodução.

Dillinger concorda. “Quando você ajuda a prolongar a vida útil de uma peça, fica mais difícil ignorar a realidade industrial mais ampla de como as roupas são feitas”, afirma.

No fim das contas, Dillinger vê o ato como uma forma de empoderamento. Ensinar jovens a consertar suas roupas lhes dá autonomia para prolongar o uso do que já possuem e para se relacionar com a moda de maneira mais crítica.


SOBRE A AUTORA

Elizabeth Segran, Ph.D., é colunista na Fast Company. Ela mora em Cambridge, Massachusetts. saiba mais