POR LAUREN ZANOLLI

Já sabemos que os mais pobres são também aqueles que sofrem mais drasticamente os efeitos da mudança climática ao redor do mundo. Só que nesta população de poucos recursos existe um grupo ainda mais vulnerável: as mulheres.

“Mulheres e homens não vivenciam as mudanças climáticas da mesma maneira”, afirma Lorena Aguilar, consultora sênior do escritório global de gênero da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), uma ONG internacional voltada para o desenvolvimento.

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Aguilar integra uma rede relativamente pequena de líderes de ONGs e diplomatas que defendem uma maior inclusão das mulheres em todos os níveis das políticas relacionadas à mudança climática. Essa rede pressionou para que a igualdade de gênero e os direitos humanos fosse incorporada ao Acordo de Paris – o que, em última análise, não aconteceu como esperado. Em 2015, a Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) designou o dia 8 de dezembro como o “dia do gênero“, organizando uma série de conversas e divulgando alguns relatórios que destacavam essa questão. No fim das contas, porém, os membros envolvidos nas negociações reclamam que o acordo final ficou aquém de qualquer compromisso significativo para abordar desigualdades na causa climática.

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“O acordo final simplesmente não atende às necessidades dos países, comunidades e pessoas mais vulneráveis ​​do mundo.  Ele não consegue lidar com as estruturas de injustiça e desigualdade que causaram a crise climática”, declarou Bridget Burns, co-coordenadora do Grupo Constituinte de Mulheres e Gênero da UNFCCC.

Em todo o mundo, as questões das mulheres e as mudanças climáticas se cruzam de várias maneiras. No espectro mais amplo, os efeitos da mudança climática sobre as mulheres, especialmente nos países em desenvolvimento, são agravados pela discrepância de direitos e pela falta de acesso a recursos financeiros e educacionais.

Para dar um exemplo, basta dizer que as mulheres constituem a maioria dentre os pequenos agricultores do mundo – uma tendência que pode crescer à medida que os homens cada vez mais migram das áreas rurais para encontrar trabalho. Contudo, elas ainda não têm acesso aos mesmos recursos agrícolas que os homens. O relatório da IUCN estima que, se pudéssemos eliminar a lacuna de recursos agrícolas para as mulheres agricultoras, a produção aumentaria o suficiente para diminuir entre 12% e 17% a fome no mundo.

Os direitos à terra são outro ponto que merece atenção: apenas 28 dos países do mundo dão aos homens e às mulheres os mesmos direitos legais à terra. “A mudança climática aumentará a gravidade e a incidência de desastres naturais em muitas partes do mundo, e as mulheres muitas vezes não terão os recursos e documentos – como títulos, escrituras e papéis de cidadania – necessários para sustentar suas famílias após os desastres”, prevê Mayesha Alam, Diretora Associada do Instituto Georgetown para Mulheres, Paz e Segurança e autora de um relatório recente sobre mulheres e mudança climática.

À medida que recursos básicos como água e lenha se tornarem mais escassos, mulheres e crianças pobres terão que viajar cada vez mais longe para atender às necessidades de suas famílias, o que em alguns lugares pode, inclusive, aumentar o risco de violência sexual. Alam lembra que as mulheres já gastam coletivamente 140 milhões de horas por dia coletando água em todo o mundo – tempo que poderia ser aproveitado para trabalhar ou ir à escola.

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Mas as mudanças climáticas também afetam as mulheres de maneiras menos óbvias. Elas têm maior probabilidade de morrer em desastres naturais: 70% das vítimas do tsunami no Oceano Índico, em 2004, foram mulheres. Além disso, o aumento do nível do mar já começou a incrementar a salinidade da água potável em muitos lugares, o que é especialmente perigoso para mulheres grávidas. Um estudo de 2011, feito em Bangladesh, descobriu que um aumento na hipertensão entre as mulheres grávidas estava diretamente relacionado ao aumento do nível do mar.

No entanto, as mulheres não podem ser reduzidas apenas ao estigma de “maiores vítimas dos desastres climáticos”. Afinal, “o que as torna vulneráveis ​​também as torna essenciais para a ação contra a mudança climática.  São elas que estão na linha de frente nessa batalha: como provedoras de água, de alimentos e de energia ou assumindo papéis de liderança em seus negócios, suas comunidades e até na política.” disse Sarah Marchildon, oficial de comunicações do Secretariado de Mudanças Climáticas das Nações Unidas.

Alam aponta ainda que as mulheres trazem uma abordagem diferente para o mesmo problema: “Pesquisas e experiências mostram que enquanto os homens engajados na adaptação e mitigação das mudanças climáticas tendem a favorecer soluções técnicas, as mulheres tendem a estar mais cientes dos riscos e mais dispostas a mudar seus hábitos”.

De quebra, os esforços feitos por mulheres para conter as mudanças climáticas também têm o potencial de resolver outros desafios do desenvolvimento global, como a melhoria da situação econômica e educacional das mulheres (na linguagem dos especialistas em desenvolvimento, isso é chamado de “co-benefícios” ou “benefícios múltiplos”). Por exemplo: fogões que funcionam com energia solar ou com biocombustível reduzem as emissões de carbono, mas também diminuem a quantidade de tempo que as mulheres gastam procurando por combustível.

Apesar de a importância feminina ser inegável, alguns ativistas alertam que no universo das discussões de alto nível sobre mudanças climáticas – onde os dois principais objetivos são a adaptação e mitigação dos seus efeitos – as mulheres continuam sendo frequentemente retratadas apenas como vítimas, das quais se espera que aprendam a se adaptar. Elas não são reconhecidas como líderes em potencial, ou como agentes fundamentais nas tomadas de decisões. 

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“Todos querem enquadrar as mulheres como a parcela que deve se adaptar”, diz Jeanette Gurung, diretora executiva da rede internacional Mulheres Organizadas para Mudanças na Agricultura e na Gestão de Recursos Naturais (WOCAN). “Na melhor das hipóteses, as mulheres são associadas de forma ativa aos projetos de pequena escala, como o desenvolvimento de lâmpadas solares ou de fogões a lenha. Enquanto isso, os homens seguem monopolizando o trabalho de ‘mitigação’ e ganhando dinheiro com isso.”

Gurung defende que as lideranças femininas deveriam ser mais agressivas na busca de grandes fatias do enorme bolo do financiamento climático, em vez de apostar naquilo que é mais seguro, com os projetos de pequena escala. Mas ela também destaca os desafios que as mulheres enfrentam em todos os níveis – desde as agricultoras até as ministras – para ter acesso aos recursos financeiros e políticos de que precisam para avançar nos quadros da mudança climática.

“Há uma necessidade imensa de intermediários entre as mulheres agricultoras e esses níveis mais elevados de fontes de financiamento e de tomada de decisão. Esse é o nível em que ninguém quer pensar”, disse ela. “Se as mulheres estão envolvidas, quase se espera que sejamos voluntárias, em vez de valorizar nosso trabalho”.

Nos níveis de governança nacional e internacional, há uma lacuna de gênero marcante. As mulheres chefiam apenas 12% dos quase 900 ministérios do setor ambiental dos países membros da ONU e, em média, apenas um terço dos delegados em negociações globais, como a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP21) são mulheres.

Novos intermediários financeiros, como o Fundo Verde para o Clima, podem dar uma nova vida ao trabalho com foco nas mulheres. O GCF (sigla a partir do inglês, Green Climate Fund), criado em 2010, detém atualmente cerca de US $ 10 bilhões em doações governamentais e privadas e tem como meta chegar a US $100 bilhões. É o primeiro fundo climático a incluir um mandato para políticas de gênero e a exigir que qualquer organização que receba dinheiro para o trabalho climático seja credenciada por suas políticas e seu histórico de igualdade de gênero.

“É uma mudança no jogo”, diz Gurung. “Os defensores de direitos igualitários não precisam mais convencer ninguém a vincular gênero à mudança climática. Estes são os figurões, e eles já entenderam.”

A organização de Gurung, WOCAN, também está trabalhando em investimentos climáticos para apoiar a igualdade de gênero, da mesma forma que os créditos de compensação de carbono financiaram grandes projetos de reflorestamento e energia renovável. Eles estão lançando o W +, o primeiro “padrão de empoderamento das mulheres” do mundo, que mede coisas como tempo economizado, renda gerada e treinamento educacional para quantificar quais são os benefícios para as mulheres dos projetos de desenvolvimento e, em seguida, comercializar os “créditos” para venda ao governo ou a investidores privados. O objetivo, diz Gurung, é ajudar a preencher as lacunas de financiamento que existem, fazendo com que ele chegue às organizações locais e àqueles que fazem o trabalho climático com foco nas mulheres.

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A WOCAN já aplicou o padrão W + a dois projetos na Indonésia e no Nepal e está trabalhando para estabelecer um preço de crédito estável. Eles esperam conciliar o padrão para venda com projetos de compensação de carbono. Gurung diz que até agora percebeu muito interesse de empresas privadas que fazem trabalhos de sustentabilidade.

“Esse sistema foi desenvolvido para incentivar os projetos que já estão atuando na mudança climática a pensar especificamente nas mulheres, e lucrar com isso”, disse Gurung.

Também existem bolsões de liderança regional sobre a questão climática, especialmente em áreas onde os impactos das mudanças já estão sendo sentidos. Originária da Costa Rica, Lorena Aguilar (IUCN) aponta alguns motivos para ter esperança: países latino-americanos como Guatemala, Costa Rica e Peru já se comprometeram com políticas nacionais de mudança climática com enfoque em gênero.

“Para nós, é uma questão de vida ou morte. É preciso lutar por isso”, disse ela. “Não é algo da boca para fora, é algo que vivemos.”

SOBRE A AUTORA

Adele Peters é repórter da Fast Company que cobre soluções para alguns dos maiores problemas do mundo, de mudanças climáticas à falta de moradia. Anteriormente, ela trabalhou com a GOOD, BioLite e o programa de Produtos e Soluções Sustentáveis na UC Berkeley, e contribuiu para a segunda edição do livro best-seller Worldchanging: A User’s Guide for the 21st Century.