Terras raras: o que são? E por que estão no centro do debate presidencial?
País tem uma das maiores reservas conhecidas do mundo, mas é a China que domina a produção e o processamento desses minerais

O celular de última geração, o carro elétrico que circula pelas ruas e a turbina que transforma vento em eletricidade têm algo em comum: todos dependem, em algum nível, de minerais usados pela indústria de alta tecnologia. Entre eles estão as chamadas terras raras.
O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).
Apesar do nome, elas não são necessariamente raras. O desafio está em encontrá-las em concentrações economicamente viáveis, extraí-las e, principalmente, separar cada elemento dos demais. Como apresentam propriedades químicas semelhantes, essa etapa é complexa, cara e exige tecnologia e investimentos específicos.
O QUE SÃO AS TERRAS RARAS?
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos: os 15 da série dos lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Eles estão presentes na crosta terrestre em diferentes concentrações, mas geralmente aparecem dispersos ou misturados a outros minerais, o que dificulta sua exploração econômica.
Os elementos também não têm todos a mesma função. Neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, por exemplo, são importantes para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, usados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, robôs, equipamentos industriais e data centers.
Lantânio e cério, por outro lado, são utilizados em processos industriais e no refino de petróleo.
As terras raras também aparecem em eletrônicos, equipamentos médicos, sistemas ópticos, catalisadores e aplicações aeroespaciais e de defesa. É essa variedade de propriedades que faz desses elementos insumos importantes para tecnologias que dependem de componentes menores, mais eficientes ou capazes de operar em condições específicas.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os ímãs permanentes representam cerca de 95% do consumo de terras raras em valor e estão entre as aplicações que mais crescem.
A demanda pelas quatro principais terras raras utilizadas nesses ímãs – neodímio, praseodímio, disprósio e térbio – dobrou desde 2015 e deve crescer mais de 30% até 2030. Por isso, as terras raras deixaram de ser apenas uma questão de mineração e passaram a fazer parte da disputa por tecnologia e segurança de abastecimento.
O BRASIL TEM AS RESERVAS. POR QUE PRODUZ TÃO POUCO?
O Brasil está entre os maiores detentores de reservas conhecidas do mundo. Os depósitos estão concentrados principalmente em estados como Amazonas, Bahia, Goiás, Minas Gerais e Sergipe.
Mas a China, que concentra aproximadamente 44 milhões de toneladas, produz muito mais. Em 2025, foram cerca de 270 mil toneladas, contra duas mil toneladas no Brasil.

A diferença está na cadeia produtiva. Depois da mineração, as terras raras precisam passar por concentração, separação, refino e transformação antes de chegar aos componentes utilizados pela indústria. A separação é especialmente complexa porque os elementos apresentam propriedades químicas semelhantes.
Segundo a IEA, a China respondeu por cerca de 60% da produção mundial dessas terras raras em 2024. No refino, a participação chegou a 91%. Na fabricação de ímãs permanentes sinterizados, usados em motores e outras aplicações de alta tecnologia, chegou a 94%.
A China investiu nessas etapas durante décadas e construiu uma indústria integrada. O Brasil ainda está ampliando essa capacidade. Por isso, ter grandes reservas não significa, por si só, controlar a cadeia ou ficar com a maior parte do valor gerado por esses recursos.
UMA DISPUTA QUE VAI ALÉM DO BRASIL E DA CHINA
A concentração da cadeia em mãos dos chineses transformou as terras raras em uma questão geopolítica. Estados Unidos e outros países buscam reduzir a dependência da China e encontrar fornecedores alternativos para minerais considerados estratégicos.
Em 2025, a China introduziu controles de exportação sobre determinados elementos de terras raras e produtos relacionados. Segundo a IEA, a redução dos fluxos de exportação naquele ano dificultou o acesso de fabricantes de automóveis nos Estados Unidos, na Europa e em outros mercados a ímãs permanentes.
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Algumas empresas precisaram reduzir a produção ou interromper temporariamente operações.
O episódio mostrou que uma restrição no fornecimento pode afetar setores que vão muito além da mineração, com impactos sobre carros elétricos, equipamentos eletrônicos e máquinas industriais. Nesse cenário, as reservas brasileiras ganham importância estratégica.
POR QUE ISSO IMPORTA PARA O BRASIL AGORA?
O interesse internacional acontece ao mesmo tempo em que o Brasil discute como pretende participar dessa cadeia. A questão não é apenas quanto minério existe, mas quem poderá explorá-lo, quanto do processamento será feito no país e quanto valor econômico e tecnológico ficará aqui.
O tema também entrou no debate eleitoral. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido que o Brasil não se limite a exportar matéria-prima e amplie sua capacidade de processamento e desenvolvimento tecnológico.
Em julho, Lula afirmou que o país deveria aproveitar o interesse internacional pelas terras raras para criar conhecimento, laboratórios e uma indústria nacional.
A concentração da cadeia em mãos dos chineses transformou as terras raras em uma questão geopolítica.
Flávio Bolsonaro incluiu os minerais críticos e as terras raras em seu programa de governo, defendendo acelerar o licenciamento de projetos, ampliar mecanismos de garantia para financiamento e estimular o processamento no Brasil. A proposta também prevê a atração de capital estrangeiro e tecnologia.
Em setembro, foi sancionada a Lei nº 15.506, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A legislação busca estimular pesquisa, extração, beneficiamento e transformação desses recursos em território nacional.
A lei, que também criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, já está em vigor, mas parte de seus instrumentos ainda depende de implementação.
O INTERESSE ESTRANGEIRO PELAS RESERVAS BRASILEIRAS
Em 2025, a empresa Serra Verde iniciou a produção comercial de concentrado de terras raras no projeto Pela Ema, em Minaçu, Goiás. A operação foi projetada para chegar a cerca de cinco mil toneladas anuais de óxidos de terras raras quando estiver em plena capacidade.
A escala ainda é pequena diante da produção chinesa: as cinco mil toneladas projetadas representam menos de 2% das 270 mil toneladas produzidas pela China em 2025.

Em setembro, a australiana Lynas anunciou a compra da brasileira Meteoric Resources por US$ 672 milhões. A operação dá acesso ao projeto Caldeira, em Minas Gerais.
A companhia afirmou que avalia desenvolver capacidade de processamento no Brasil e já comprometeu mais de US$ 500 milhões em investimentos para o projeto.
As movimentações mostram que as reservas brasileiras já fazem parte da estratégia internacional de diversificação das cadeias de fornecimento.
EXPORTAÇÃO COM VALOR AGREGADO
Para o Brasil, aumentar a produção é apenas parte da oportunidade. Se os minerais forem exportados antes das etapas de processamento e transformação, uma parcela importante do valor econômico continuará sendo criada no exterior.
Um exemplo de tentativa de ampliar essa capacidade é o investimento de R$ 77,5 milhões aprovado pelo BNDES para um centro de terras raras em Poços de Caldas (MG).

O projeto prevê uma unidade piloto para produzir carbonato misto de terras raras e testar técnicas de processamento que poderão ser utilizadas posteriormente em uma planta industrial de maior escala.
A estratégia busca ampliar a participação brasileira nas etapas que geram mais valor, mas também exige investimentos em pesquisa, infraestrutura, tecnologia e formação de profissionais especializados.
O QUE O BRASIL PODE GANHAR E PERDER?
Transformar reservas em uma cadeia produtiva pode criar empregos qualificados, desenvolver tecnologia, atrair investimentos e ampliar a participação brasileira em mercados como veículos elétricos, energia renovável, eletrônica, robótica, inteligência artificial e defesa.
Mas a exploração também tem custos. A mineração pode alterar o uso do solo, afetar habitats e pressionar a biodiversidade. Também pode consumir grandes volumes de água e gerar resíduos capazes de contaminar o solo e os recursos hídricos.
A China investiu no processamento de terras raras por décadas e construiu uma indústria integrada.
Nas etapas de separação e refino, existe ainda uma preocupação específica: dependendo do depósito, o processamento pode concentrar elementos radioativos, como tório e urânio, nos rejeitos. O refino também apresenta elevada intensidade energética e de carbono em comparação com outras etapas da cadeia.
No Brasil, parte dos depósitos está em regiões do Centro-Oeste e do Norte, próximas a ecossistemas como o Cerrado e a Amazônia e, em alguns casos, a territórios indígenas. A exploração pode afetar recursos hídricos, biodiversidade e comunidades que dependem desses territórios.
A decisão, portanto, não envolve apenas quanto o Brasil pode ganhar com as terras raras, mas também quais impactos está disposto a assumir para explorá-las.
O QUE ISSO TUDO TEM A VER COM VOCÊ?
A concentração da cadeia produtiva também significa que decisões tomadas em um país podem repercutir em empresas e consumidores do outro lado do mundo. Uma restrição na oferta pode afetar desde a fabricação de um carro até o custo de equipamentos usados pela indústria.
Para o Brasil, o momento representa uma oportunidade, mas também uma escolha sobre o papel que pretende ocupar nessa cadeia. O desafio não é apenas descobrir quanto minério existe no subsolo, mas decidir quanto valor o país consegue criar a partir dele, quem se beneficiará dessa atividade e quais serão seus custos ambientais.
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Se conseguir avançar em mineração, processamento, refino e fabricação de componentes, o Brasil pode transformar suas reservas em investimentos, empregos qualificados e desenvolvimento tecnológico.
No fim, a disputa pelas terras raras não é apenas uma disputa por minerais. É sobre quem terá capacidade de transformar esses recursos em tecnologia, quanto valor será gerado ao longo dessa cadeia e qual será o custo ambiental dessa transformação.