Terras raras: o que são? E por que estão no centro do debate presidencial?

País tem uma das maiores reservas conhecidas do mundo, mas é a China que domina a produção e o processamento desses minerais

terras raras entram no debate da campanha presidencial
Créditos: Ashes-Sitoula/ Usplash/ Magnific/ Vecteezy

Isabella Lura 9 minutos de leitura
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O celular de última geração, o carro elétrico que circula pelas ruas e a turbina que transforma vento em eletricidade têm algo em comum: todos dependem, em algum nível, de minerais usados pela indústria de alta tecnologia. Entre eles estão as chamadas terras raras.

O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).

Apesar do nome, elas não são necessariamente raras. O desafio está em encontrá-las em concentrações economicamente viáveis, extraí-las e, principalmente, separar cada elemento dos demais. Como apresentam propriedades químicas semelhantes, essa etapa é complexa, cara e exige tecnologia e investimentos específicos.

O QUE SÃO AS TERRAS RARAS?

As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos: os 15 da série dos lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Eles estão presentes na crosta terrestre em diferentes concentrações, mas geralmente aparecem dispersos ou misturados a outros minerais, o que dificulta sua exploração econômica.

Os elementos também não têm todos a mesma função. Neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, por exemplo, são importantes para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, usados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, robôs, equipamentos industriais e data centers.

Lantânio e cério, por outro lado, são utilizados em processos industriais e no refino de petróleo.

As terras raras também aparecem em eletrônicos, equipamentos médicos, sistemas ópticos, catalisadores e aplicações aeroespaciais e de defesa. É essa variedade de propriedades que faz desses elementos insumos importantes para tecnologias que dependem de componentes menores, mais eficientes ou capazes de operar em condições específicas.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os ímãs permanentes representam cerca de 95% do consumo de terras raras em valor e estão entre as aplicações que mais crescem.

A demanda pelas quatro principais terras raras utilizadas nesses ímãs – neodímio, praseodímio, disprósio e térbio – dobrou desde 2015 e deve crescer mais de 30% até 2030. Por isso, as terras raras deixaram de ser apenas uma questão de mineração e passaram a fazer parte da disputa por tecnologia e segurança de abastecimento.

O BRASIL TEM AS RESERVAS. POR QUE PRODUZ TÃO POUCO?

O Brasil está entre os maiores detentores de reservas conhecidas do mundo. Os depósitos estão concentrados principalmente em estados como Amazonas, Bahia, Goiás, Minas Gerais e Sergipe.

Mas a China, que concentra aproximadamente 44 milhões de toneladas, produz muito mais. Em 2025, foram cerca de 270 mil toneladas, contra duas mil toneladas no Brasil.

mapa mostra os locais onde há reservas de  terras raras no Brasil
Fonte: DMPM e estudo “Terras raras: elementos estratégicos para o Brasil”, de Paulo César Ribeiro Lima

A diferença está na cadeia produtiva. Depois da mineração, as terras raras precisam passar por concentração, separação, refino e transformação antes de chegar aos componentes utilizados pela indústria. A separação é especialmente complexa porque os elementos apresentam propriedades químicas semelhantes.

Segundo a IEA, a China respondeu por cerca de 60% da produção mundial dessas terras raras em 2024. No refino, a participação chegou a 91%. Na fabricação de ímãs permanentes sinterizados, usados em motores e outras aplicações de alta tecnologia, chegou a 94%.

A China investiu nessas etapas durante décadas e construiu uma indústria integrada. O Brasil ainda está ampliando essa capacidade. Por isso, ter grandes reservas não significa, por si só, controlar a cadeia ou ficar com a maior parte do valor gerado por esses recursos.

UMA DISPUTA QUE VAI ALÉM DO BRASIL E DA CHINA

A concentração da cadeia em mãos dos chineses transformou as terras raras em uma questão geopolítica. Estados Unidos e outros países buscam reduzir a dependência da China e encontrar fornecedores alternativos para minerais considerados estratégicos.

Em 2025, a China introduziu controles de exportação sobre determinados elementos de terras raras e produtos relacionados. Segundo a IEA, a redução dos fluxos de exportação naquele ano dificultou o acesso de fabricantes de automóveis nos Estados Unidos, na Europa e em outros mercados a ímãs permanentes.

Leia mais: Ímãs sem terras raras? Empresa dos EUA tenta quebrar dependência da China

Algumas empresas precisaram reduzir a produção ou interromper temporariamente operações.

O episódio mostrou que uma restrição no fornecimento pode afetar setores que vão muito além da mineração, com impactos sobre carros elétricos, equipamentos eletrônicos e máquinas industriais. Nesse cenário, as reservas brasileiras ganham importância estratégica.

POR QUE ISSO IMPORTA PARA O BRASIL AGORA?

O interesse internacional acontece ao mesmo tempo em que o Brasil discute como pretende participar dessa cadeia. A questão não é apenas quanto minério existe, mas quem poderá explorá-lo, quanto do processamento será feito no país e quanto valor econômico e tecnológico ficará aqui.

O tema também entrou no debate eleitoral. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido que o Brasil não se limite a exportar matéria-prima e amplie sua capacidade de processamento e desenvolvimento tecnológico.

Em julho, Lula afirmou que o país deveria aproveitar o interesse internacional pelas terras raras para criar conhecimento, laboratórios e uma indústria nacional.

A concentração da cadeia em mãos dos chineses transformou as terras raras em uma questão geopolítica.

Flávio Bolsonaro incluiu os minerais críticos e as terras raras em seu programa de governo, defendendo acelerar o licenciamento de projetos, ampliar mecanismos de garantia para financiamento e estimular o processamento no Brasil. A proposta também prevê a atração de capital estrangeiro e tecnologia.

Em setembro, foi sancionada a Lei nº 15.506, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A legislação busca estimular pesquisa, extração, beneficiamento e transformação desses recursos em território nacional.

A lei, que também criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, já está em vigor, mas parte de seus instrumentos ainda depende de implementação.

O INTERESSE ESTRANGEIRO PELAS RESERVAS BRASILEIRAS

Em 2025, a empresa Serra Verde iniciou a produção comercial de concentrado de terras raras no projeto Pela Ema, em Minaçu, Goiás. A operação foi projetada para chegar a cerca de cinco mil toneladas anuais de óxidos de terras raras quando estiver em plena capacidade.

A escala ainda é pequena diante da produção chinesa: as cinco mil toneladas projetadas representam menos de 2% das 270 mil toneladas produzidas pela China em 2025. 

Planta da Mineração  Serra Verde ara processamento de terras raras em Goiás
Planta da Mineração Serra Verde em Minaçu, Goiás (Crédito: Serra Verde)

Em setembro, a australiana Lynas anunciou a compra da brasileira Meteoric Resources por US$ 672 milhões. A operação dá acesso ao projeto Caldeira, em Minas Gerais.

A companhia afirmou que avalia desenvolver capacidade de processamento no Brasil e já comprometeu mais de US$ 500 milhões em investimentos para o projeto.

As movimentações mostram que as reservas brasileiras já fazem parte da estratégia internacional de diversificação das cadeias de fornecimento.

EXPORTAÇÃO COM VALOR AGREGADO

Para o Brasil, aumentar a produção é apenas parte da oportunidade. Se os minerais forem exportados antes das etapas de processamento e transformação, uma parcela importante do valor econômico continuará sendo criada no exterior.

Um exemplo de tentativa de ampliar essa capacidade é o investimento de R$ 77,5 milhões aprovado pelo BNDES para um centro de terras raras em Poços de Caldas (MG).

minerais que compõem as chamadas  terras raras
Crédito: Serviço Geológico do Brasil

O projeto prevê uma unidade piloto para produzir carbonato misto de terras raras e testar técnicas de processamento que poderão ser utilizadas posteriormente em uma planta industrial de maior escala.

A estratégia busca ampliar a participação brasileira nas etapas que geram mais valor, mas também exige investimentos em pesquisa, infraestrutura, tecnologia e formação de profissionais especializados.

O QUE O BRASIL PODE GANHAR E PERDER?

Transformar reservas em uma cadeia produtiva pode criar empregos qualificados, desenvolver tecnologia, atrair investimentos e ampliar a participação brasileira em mercados como veículos elétricos, energia renovável, eletrônica, robótica, inteligência artificial e defesa.

Mas a exploração também tem custos. A mineração pode alterar o uso do solo, afetar habitats e pressionar a biodiversidade. Também pode consumir grandes volumes de água e gerar resíduos capazes de contaminar o solo e os recursos hídricos.

A China investiu no processamento de terras raras por décadas e construiu uma indústria integrada.

Nas etapas de separação e refino, existe ainda uma preocupação específica: dependendo do depósito, o processamento pode concentrar elementos radioativos, como tório e urânio, nos rejeitos. O refino também apresenta elevada intensidade energética e de carbono em comparação com outras etapas da cadeia.

No Brasil, parte dos depósitos está em regiões do Centro-Oeste e do Norte, próximas a ecossistemas como o Cerrado e a Amazônia e, em alguns casos, a territórios indígenas. A exploração pode afetar recursos hídricos, biodiversidade e comunidades que dependem desses territórios.

A decisão, portanto, não envolve apenas quanto o Brasil pode ganhar com as terras raras, mas também quais impactos está disposto a assumir para explorá-las.

O QUE ISSO TUDO TEM A VER COM VOCÊ?

A concentração da cadeia produtiva também significa que decisões tomadas em um país podem repercutir em empresas e consumidores do outro lado do mundo. Uma restrição na oferta pode afetar desde a fabricação de um carro até o custo de equipamentos usados pela indústria.

Para o Brasil, o momento representa uma oportunidade, mas também uma escolha sobre o papel que pretende ocupar nessa cadeia. O desafio não é apenas descobrir quanto minério existe no subsolo, mas decidir quanto valor o país consegue criar a partir dele, quem se beneficiará dessa atividade e quais serão seus custos ambientais.

Leia mais: Uma esponja química pode tornar a extração de minerais menos poluente?

Se conseguir avançar em mineração, processamento, refino e fabricação de componentes, o Brasil pode transformar suas reservas em investimentos, empregos qualificados e desenvolvimento tecnológico.

No fim, a disputa pelas terras raras não é apenas uma disputa por minerais. É sobre quem terá capacidade de transformar esses recursos em tecnologia, quanto valor será gerado ao longo dessa cadeia e qual será o custo ambiental dessa transformação.


SOBRE A AUTORA

Isabella Lura é estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, dedicada e curiosa com interesse em contar histórias e transformar... saiba mais