POR BEN SOLTOFF 

Melissa Mazzeo sempre quis causar um grande impacto no mundo. Sua primeira função profissional foi em uma organização global de saúde pública, que a levou em missões em Uganda e outros países da África. Anos depois ela entrou na Universidade de Yale para cursar um MBA em Gestão Ambiental.  Mas em vez de buscar uma posição de destaque numa multinacional, ela quis fazer algo ousado para uma estudante de uma instituição de elite americana: assumir o pequeno negócio da sua mãe – uma loja de roupas para crianças chamada Merry Go Rounds localizada em Easton, Massachusetts. No início de 2020, antes da pandemia, Melissa conseguiu realizar seu sonho.

Como coordenador dos cursos de empreendedorismo em Yale, trabalho com muitos alunos como ela. Quase todos estão focados em inovações que podem gerar lucro e, ao mesmo tempo, tornar o mundo um lugar melhor. Às vezes, esses inovadores têm como objetivo ampliar seus empreendimentos, mas frequentemente querem permanecer pequenos, com foco nas comunidades locais. Um nicho que tem se mostrado um grande motor de crescimento e oportunidades para a economia americana – e, por que não dizer, de todo o mundo.

Mas temos um problema: a educação para o empreendedorismo tende a desconsiderar ou ignorar as pequenas empresas. Simplesmente porque elas não se enquadram na trajetória de alto crescimento que muitos investidores de capital de risco esperam.

As empresas apoiadas por investidores de risco são um nicho minúsculo, compreendendo menos de 1% das empresas nos EUA. Por outro lado, as empresas com menos de 500 funcionários representam 99% das empresas americanas e empregam quase metade dos trabalhadores americanos.

Nós negligenciamos essa verdade nas faculdades de administração. E seguimos, de maneira equivocada, a mesma narrativa dos fundos de capital de risco.

Nos últimos meses, a pandemia do coronavírus chamou a atenção para os pequenos empresários. Eles se mostraram alicerces importantes de suas comunidades. As pequenas empresas foram duramente atingidas pelo confinamento, mas também tiveram a coragem de fornecer serviços e suporte essenciais para o ecossistema ao seu redor. Além disso, fomentaram um sentimento vital de resiliência e camaradagem em tempos tão difíceis.

Foi o caso de Melissa. Ela precisou fechar uma das duas unidades da Merry Go Rounds e demitiu temporariamente a maior parte de sua equipe. Foi angustiante, mas isso não a impediu de fazer ajustes, incluindo dar o impulso final para lançar o negócio online e realizar eventos de compras ao ar livre.

Por que ignorar essa realidade?

Há, ainda, outro problema. As empresas pertencentes às minorias foram as mais afetadas pelo surto do vírus.

Em abril de 2020, durante o auge do confinamento da pandemia, mais de 40% dos proprietários negros de pequenas empresas relataram que não conseguiriam continuar trabalhando, em comparação a apenas 17% dos proprietários brancos de empresas do mesmo porte. Essa disparidade pode ser um reflexo do fato de que as empresas de propriedade de negros têm menos probabilidade de ter um parceiro bancário tradicional – e, portanto, menos acesso a empréstimos ou recursos públicos. A maioria dos proprietários de pequenos negócios nos EUA são mulheres e negros. E duvido que seja uma coincidência que esses também sejam os grupos que menos frequentemente recebem financiamento do capital de risco.

Eis meu ponto: a narrativa cultural do empreendedorismo americano sempre foi construída ao redor do capital de risco. Mas essa narrativa está mudando.

O movimento Zebras Unite, por exemplo, reúne empreendedores que buscam a construção de empresas sustentáveis em vez de crescimento exponencial. Eles se autodenominam zebras em contraste com os unicórnios do mundo da tecnologia. “Essa mentalidade ajudou a Merry Go Rounds a sobreviver”, diz Melissa. “É muito difícil para um investidor entender quando um empreendedor não quer percorrer toda a sua estrada de crescimento em potencial. Mas, às vezes, crescer de maneira desenfreada pode não ser algo sustentável”, afirma.

Minha sugestão: não procure apenas unicórnios. Em vez de olhar somente para eles, passe a considerar as zebras.

É responsabilidade daqueles que ensinam empreendedorismo reconhecer o protagonismo das pequenas empresas. E reconhecer que, há muito tempo, elas são o coração do empreendedorismo. Nada contra a mentalidade dos investidores de risco. Mas é uma mentalidade que não precisa ser seguida, necessariamente e o tempo todo, nas universidades.

Aprendi algumas lições importantes sobre a narrativa de mudança do empreendedorismo. Aqui estão alguns pontos que gostaria de compartilhar.

  1. Inclua as pequenas empresas no seu radar – não somente as de tecnologia. Por exemplo, em nossos cursos de desenvolvimento de risco, apoiamos qualquer forma de inovação de um aluno que trate de um problema do mundo real, incluindo empresas com fins lucrativos, organizações sem fins lucrativos e até mesmo projetos de curto prazo.
  2. Use uma linguagem amigável para as pequenas empresas. É óbvio que a escolha das palavras importa. No jargão do empreendedorismo, uma pequena operação, como a Merry Go Rounds, pode ser classificada como um negócio de “estilo de vida”, o que implica uma forma de renda passiva e não consegue valorizar o trabalho árduo necessário para administrar uma empresa local. Portanto, faça o possível para evitar esse termo. Além disso, faça uma pausa sempre que usar a palavra “escala” ou “crescimento”. E pense se elas são realmente necessárias.
  3. Dê reconhecimento público às pequenas empresas. Eu ajudei a coordenar pelo menos uma dúzia de competições com prêmios para startups, e percebi que as pequenas empresas raramente ganham. Essas competições são frequentemente julgadas com expectativas de escala. A maioria dos empreendedores de sucesso que conheci não dependeu de prêmios para crescer, mas é fato que eles são vitrines de inovação de alto nível – e, como tais, refletem os princípios da instituição que os está concedendo.
  4. Ensine sobre pequenas empresas. Qualquer curso de empreendedorismo que deixe de fora essas empresas perde uma parte importante do cenário. O mesmo se aplica a cursos e workshops extracurriculares. Ao planejar um programa, inclua caminhos que não priorizem somente o crescimento.

Interações regulares com pessoas que dirigem pequenos negócios podem se tornar uma forma vital de desenvolvimento da comunidade. Esses negócios não são um estilo de vida, mas a nossa principal força.

Ben Soltoff é professor de inovação ambiental e coordenador dos cursos de empreendedorismo na Universidade de Yale, onde trabalha com alunos para explorar como novas ideias, tecnologias e modelos de negócios podem resolver os problemas mais urgentes do mundo.