O preço do chocolate deve continuar a subir. Culpa da desertificação global

A desertificação é resultado de uma complexa interação de fatores impulsionados pela ação humana

Crédito: Eva Bronz/ Pexels

Narcisa Pricope 4 minutos de leitura

Regiões como o nordeste do Brasil, uma das principais produtoras de cacau do mundo, estão enfrentando uma crescente aridez – um processo de desertificação lento, mas constante, devido ao ressecamento do solo.

O cacau, matéria-prima do chocolate, vem das sementes do cacaueiro, uma árvore que se desenvolve em climas úmidos. Com o solo cada vez mais seco, o cultivo da planta se torna mais difícil – e os agricultores, que dependem dela, enfrentam tempos incertos.

O problema não é exclusivo do Brasil. Na África Ocidental, que produz 70% do cacau mundial, e em outras regiões das Américas e do Sudeste Asiático, a mudança nos níveis de umidade ameaça a produção.

Essas áreas, além de abrigarem ecossistemas ricos, são essenciais para a segurança alimentar global. Agora, estão na linha de frente de um processo de desertificação que avança lenta, mas implacavelmente.

Nos últimos 30 anos, mais de três quartos das terras do planeta ficaram mais secas. Um relatório recente da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação aponta que as terras áridas já cobrem 41% da superfície global – uma área que cresceu cerca de 4,3 milhões de quilômetros quadrados nesse período, o equivalente a quase metade do tamanho da Austrália.

Mas esse ressecamento do solo não é apenas um fenômeno climático. Trata-se de uma mudança de longo prazo, potencialmente irreversível, com impactos devastadores para ecossistemas, agricultura e meios de subsistência em todo o mundo.

As mudanças climáticas causadas pelo homem são o principal fator por trás do aumento da aridez. A queima de combustíveis fósseis e o desmatamento liberam gases de efeito estufa, aumentando as temperaturas globais. Com isso, a umidade evapora mais rapidamente, ressecando o solo e a vegetação e agravando a escassez de água.

Desde a década de 1950, a aridez vem aumentando no mundo todo, mas o impacto se intensificou nos últimos 30 anos. Os efeitos são ainda mais fortes em regiões que já eram secas, como o Sahel, na África, e o Mediterrâneo.

Em grandes partes do Chade, na África, a terra vem secando
Em grandes partes do Chade, na África, a terra vem secando (Crédito: United Nations Chad)

Nessas áreas, a falta de chuva, combinada com o aumento da evaporação, cria um ciclo vicioso: os solos mais secos absorvem menos calor, deixando a atmosfera mais quente e intensificando a aridez.

Além disso, a forma como usamos a terra também influencia esse processo. Práticas agrícolas insustentáveis, pastagens excessivas e o desmatamento removem a vegetação que protege o solo, deixando-o vulnerável à erosão.

Muitas das técnicas utilizadas pela agricultura industrial priorizam a produção de curto prazo sem considerar a sustentabilidade, esgotando os nutrientes e a matéria orgânica essenciais para manter o solo saudável.

No nordeste do Brasil, por exemplo, o desmatamento para abrir espaço para a agricultura interrompe os ciclos hídricos locais e acelera a degradação do solo, dificultando ainda mais a produção de cacau.

PROCESSO DE DESERTIFICAÇÃO AMEAÇA A SEGURANÇA ALIMENTAR NO MUNDO TODO

O cacau não é o único cultivo ameaçado pelo avanço da aridez. Outras regiões agrícolas importantes, incluindo algumas das principais áreas produtoras de alimentos do mundo, também estão sob risco. O problema já afeta a produção e a biodiversidade no Mediterrâneo, no Sahel e no oeste dos Estados Unidos.

Até 2100, cerca de cinco bilhões de pessoas poderão viver em regiões áridas – quase o dobro da população atual nessas áreas. Esse aumento será impulsionado tanto pelo crescimento populacional quanto pela expansão das terras secas devido ao aquecimento global. Isso vai colocar ainda mais pressão sobre os sistemas alimentares.

Mas os impactos vão muito além da agricultura. Com menos água disponível, ecossistemas já fragilizados pelo desmatamento e pela poluição sofrem ainda mais e o processo de desertificação avança.

Muitas espécies de animais migram ou desaparecem, e plantas que precisam de mais umidade não conseguem sobreviver. No Sahel, por exemplo, vastas áreas de pastagens estão rapidamente dando lugar a arbustos típicos dos desertos.

Agricultor colombiano mostra um fruto de cacau (Crédito: Neil Palmer/ CIAT)

A aridez não é inevitável, e algumas de suas consequências ainda podem ser revertidas. Mas isso exige ações urgentes e coordenadas em nível global. Governos e empresas precisam investir na recuperação de terras degradadas, na proteção de ecossistemas e na adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis.

A colaboração internacional também pode ajudar a compartilhar tecnologias que tornem essas ações mais eficientes e acessíveis em todo o mundo. Assim, da próxima vez que você saborear um chocolate, lembre-se da complexa rede de ecossistemas que torna essa iguaria possível.

No início de 2025, o preço do cacau atingiu um dos níveis mais altos da história, em parte devido à seca na África. Se nada for feito para conter o avanço da aridez, essa situação pode se tornar cada vez mais comum – e o chocolate pode muito bem se tornar um produto de luxo.

Este artigo foi republicado do “The Conversation” sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.


SOBRE A AUTORA

Narcisa Pricope é professora de geografia e ciência de sistemas terrestres, além de vice-presidente associada de pesquisa na Universid... saiba mais