Prevenir pandemias custa 5% do gasto de lidar com elas

Crédito: Fast Company Brasil

Kristin Toussaint 4 minutos de leitura

A Covid-19 teve um enorme impacto no mundo todo, ceifando mais de 5 milhões de vidas e acarretando perdas econômicas da ordem dos trilhões de dólares. Embora tenha se tornado um evento global extremo, essa não é a primeira doença zoonótica que teve efeitos desastrosos na humanidade. Ao longo do século passado, o número de vidas perdidas e os danos econômicos de doenças zoonóticas emergentes, que são transferidas de animais (geralmente selvagens, às vezes gado) para humanos, têm aumentado constantemente. E especialistas afirmam que provavelmente eles aumentarão ainda mais no futuro.

A sociedade tem lidado com essas doenças sobretudo depois que elas já passaram de animais para humanos, concentrando-se em intervenções como testes, vacinas e produtos farmacêuticos. Mas e se, em primeiro lugar, o foco estivesse em impedir que essas doenças se espalhassem dentre populações humanas? Para isso, seriam necessárias táticas como reduzir o desmatamento, gerenciar melhor o comércio de vida selvagem e a vigilância global de patógenos – e, embora isso tudo seja caro, não custaria mais do que 5% do valor das vidas perdidas e das perdas econômicas anuais decorrentes desse tipo de doença.

Esse número foi extraído de um artigo publicado na Science Advances, de autoria de 20 pesquisadores que estão pedindo aos formuladores de políticas públicas que se concentrem na prevenção de pandemias zoonóticas, em vez de tentar conter as doenças apenas depois de terem surgido. “Queremos destacar o seguinte: o que aprendemos com a Covid-19 foi uma lição muito amarga, e a lição é que, mesmo com todos os nossos recursos e mesmo com toda a nossa ciência médica, as curas não estão funcionando bem o suficiente”, diz Stuart Pimm, catedrático de ecologia da conservação da Duke University, cujo trabalho se concentra na biodiversidade e na perda de espécies.

Para calcular o custo dessas pandemias, os pesquisadores analisaram todas as novas doenças zoonóticas que mataram pelo menos 10 pessoas desde a gripe espanhola, incluindo o HIV, a Febre do Nilo Ocidental, a SARS e o H1N1 (patógenos que afetaram gado ou plantações não foram incluídos). Os pesquisadores atribuíram um valor a cada vida perdida, que varia de acordo com o país, e calcularam as perdas econômicas dessas doenças em termos de seu efeito sobre a renda nacional bruta.

Todos os anos, na estimativa mais baixa, o mundo perde cerca de US$ 320 bilhões em termos de vidas perdidas e cerca de US$ 200 bilhões em desacelerações econômicas devido a doenças zoonóticas emergentes. Segundo os pesquisadores, o custo para adotar ações preventivas que limitariam, antes de qualquer coisa, a transmissão dessas doenças para os seres humanos seria de cerca de US$ 20 bilhões. Mas os cálculos que os pesquisadores fizeram sobre os custos de precisar lidar com essas doenças também têm suas limitações: eles não conseguem quantificar exatamente o impacto psicológico do COVID-19 ou os custos das pessoas que tiveram que adiar seu atendimento médico durante a pandemia ou, ainda, os custos médicos associados ao tratamento dessas doenças anos depois.

“As atitudes que estamos sugerindo são realmente muito diretas. Precisamos saber os vírus que estão circulando lá fora, precisamos reprimir fortemente o hábito de trazer animais selvagens em cativeiro para comê-los… precisamos suprimir o comércio de animais vivos, de animais selvagens que não são verificados quanto a doenças”, defende Pimm. “Todas essas são táticas óbvias, prudentes e sensatas e o que é necessário para colocá-las em prática é alguma vontade política, além de uma quantia surpreendentemente pequena de dinheiro para nos levar de volta a um mundo mais seguro.”

A estratégia inclui uma etapa de vigilância de patógenos, mapeando onde vivem as concentrações mundiais de espécies que poderiam nos causar doenças e criando um banco de dados compartilhado dos patógenos que eles carregam. Outras ações preventivas também teriam benefícios amplos. Acabar com o desmatamento permitiria aos animais selvagens mais espaço de habitat e os impediria de viver tão perto das cidades; além disso, o desmatamento tropical responde por 10% das emissões mundiais de gases de efeito estufa. Combater esses efeitos é essencial para prevenir pandemias – o desmatamento é “indiscutivelmente o principal fator de emergência de patógenos”, escrevem os pesquisadores, e reduzi-lo também nos ajudaria a atingir nossas metas climáticas.

E, embora a prevenção tenha amplos efeitos positivos, reagir a cada doença zoonótica emergente é uma estratégia de benefícios limitados. A vacina contra a Covid-19 foi um grande feito médico, mas não há garantias de que a próxima vacina poderá ser desenvolvida tão rapidamente. Por outro lado, evitar que as doenças se espalhem pode impedir não apenas o avanço de um vírus, mas de qualquer um deles.

“Vamos ter um fluxo dessas doenças zoonóticas que vão se espalhar em nossa população”, teme Pimm. “Os números e a gravidade estão aumentando. Este pode não ser o último caso, o que é assustador. E as mudanças que estamos propondo são muito simples, muito diretas e só apresentam benefícios.”

 


SOBRE A AUTORA

Kristin Toussaint é editora assistente da editoria de Impacto da Fast Company. saiba mais