Protagonismo na policrise: liderança estratégica na gestão do novo caos global

Em meio à escalada no Oriente Médio e ao risco sobre o Estreito de Hormuz, a IA, strategic foresight e sustentabilidade deixaram de ser diferenciais para se tornar pilares de sobrevivência empresarial

Pessoa de terno segura uma xícara e um pires, enquanto a cabeça é substituída por formas abstratas e linhas em espiral, criando uma colagem colorida em tons de azul, verde e laranja. A composição sugere confusão mental, excesso de pensamentos ou sobrecarga cognitiva.
master1305 via Getty Images, Tima Miroshnichenko via Pexels

Carlos Braga 5 minutos de leitura

Em meus artigos anteriores para a Fast Company, provoquei a liderança brasileira com uma verdade que os eventos deste início de 2026 tornaram incontestável: quem ainda aposta em previsões lineares já ficou para trás. O mundo não enfrenta apenas uma volatilidade passageira de mercado; vivemos o que historiadores e economistas consolidam como uma policrise sistêmica. O conflito no Oriente Médio e o quase fechamento do Estreito de Hormuz — por onde fluíam 20 milhões de barris de óleo e derivados por dia — reduziram esse tráfego a um fio, empurrando o preço do petróleo e derivados, para patamares que testam a sobrevivência de qualquer negócio.

Neste cenário, a tecnologia emerge não apenas como ferramenta de eficiência, mas como o sistema nervoso da estratégia. A Inteligência Artificial tornou-se o divisor de águas que permite às organizações evoluírem do tradicional forecasting para o strategic foresight.

Enquanto o forecasting (projeção linear) tenta prever o futuro com base apenas na repetição de dados do passado — uma abordagem que falha diante de "cisnes negros" ou rupturas geopolíticas —, o strategic foresight utiliza a IA preditiva para mapear múltiplos cenários plausíveis, identificar sinais fracos de mudança e preparar a organização para a incerteza.

Nesta nova fase, a sustentabilidade corporativa abandona o território da gestão de riscos tangíveis e intangíveis para se tornar o núcleo duro da soberania e da resiliência estratégica.

A diferença é vital: o forecast busca a precisão em um mundo estático. O foresight busca a prontidão em um mundo em mutação.
Para a liderança que domina essa visão, o choque atual em Hormuz não é lido como um "imprevisto isolado", mas como o acelerador definitivo do ESG 2.0. Nesta nova fase, a sustentabilidade corporativa abandona o território da gestão de riscos tangíveis e intangíveis para se tornar o núcleo duro da soberania e da resiliência estratégica.

ALÉM DAS FRONTEIRAS FLUIDAS: A NOVA ARQUITETURA DAS CADEIAS DE VALOR

A guerra do Irã expôs a fragilidade de cadeias de suprimentos estendidas e dependentes de pontos de estrangulamento geopolítico. Embora o near-shoring já estivesse no radar estratégico, ele agora se consolida como um imperativo de sobrevivência.

ilustração com quatro barris de petróleo sobre o mapa mundi, inundado por petróleo
Madmaxer via Getty Images

O ESG 2.0 exige o que chamo de materialidade dinâmica: a segurança do suprimento e a proximidade física tornaram-se métricas tão críticas quanto a própria pegada de carbono.

Nesse cenário, o Brasil emerge com uma vantagem competitiva ímpar. Com nossa posição geográfica estratégica e uma matriz energética invejavelmente limpa, deixamos de ser um "plano B" para podemos nos tornar no hub central de cadeias de valor protegidas de choques transoceânicos. O uso do foresight permite que a liderança não apenas reaja ao aumento do frete, mas antecipe o redesenho dessas rotas, priorizando a segurança do fornecimento versus a eficiência econômica de curto prazo. A nova arquitetura das cadeias de valor é mais regional, resiliente e, acima de tudo, soberana.

O PARADOXO BRASILEIRO: PETRÓLEO COMO PONTE E O PROTAGONISMO DA COP 30

O Brasil vive hoje um momento de "protagonismo pragmático". Nossa capacidade de manter e expandir a produção de petróleo em um momento de escassez global nos confere uma relevância geopolítica que poucos países possuem. No entanto, sob a ótica do ESG 2.0, esse recurso deve ser encarado como a "ponte" para a transição, e não como o destino. O capital gerado pela exportação de óleo deve ser a semente para a infraestrutura de baixo carbono que o país exige.

Ser protagonista nesta policrise significa mediar o equilíbrio entre as necessidades do presente e as urgências do futuro.

Com a liderança da COP 30, em Belém, estendendo sua influência até a COP 31 na Turquia, o Brasil tem o cronômetro do mundo nas mãos. O país está posicionado para liderar a agenda de inovabilidade — a inovação sistemática a serviço da sustentabilidade. Provamos ao mundo que a segurança energética imediata e a descarbonização irreversível não são excludentes, mas faces da mesma moeda estratégica. Ser protagonista nesta policrise significa mediar o equilíbrio entre as necessidades do presente e as urgências do futuro.

ACELERAÇÃO MULTIMODAL: O CARDÁPIO DA RESILIÊNCIA

A crise de 2026 está forçando uma diversificação energética que décadas de diplomacia não conseguiram acelerar. O cardápio da resiliência brasileira é vasto e multimodal:

- Biocombustíveis e Soberania: O biodiesel e o etanol deixaram de ser alternativas "verdes" para se tornarem garantias de abastecimento nacional, mitigando a dependência de um diesel importado que hoje é escasso e caro.

- Eletrificação e Minerais Críticos: O transporte rodoviário representa cerca de 45% da demanda global de óleo. O foresight aponta para a urgência da reciclagem e da exploração soberana de minerais críticos para baterias e eletrificação da frota e aumento da produção de veículos híbridos, mitigando o impacto sobre a mobilidade urbana e o transporte pesado das flutuações do Golfo Pérsico.

- Energia Nuclear e Renováveis: A busca por energia de base reabilitou o debate nuclear, convivendo com a expansão agressiva das eólicas e solares para garantir que a produção industrial não sofra interrupções a nível local e global.

CONCLUSÃO: A LIDERANÇA DO FUTURO É AGORA

O ESG 2.0 não é sobre conformidade; é sobre a capacidade de manter a operação viva enquanto o mapa do poder mundial é redesenhado sob nossos olhos. O Brasil tem a oportunidade histórica de ser um dos fiadores da estabilidade global, unindo sua força nos biocombustíveis e renováveis à sua competência em gestão de crises geopolíticas.

O futuro, definitivamente, não pertence a quem tenta prever o impossível, mas a quem tem a agilidade de se preparar para o inevitável.

O bloqueio em Hormuz é o lembrete final de que a estratégia sem sustentabilidade é miopia, e a sustentabilidade sem estratégia são apenas boas intenções. O strategic foresight, potencializado pela IA, é a ferramenta capaz de transformar o caos de 2026 na soberania e resiliência do amanhã. O futuro, definitivamente, não pertence a quem tenta prever o impossível, mas a quem tem a agilidade de se preparar para o inevitável.

Referências de Conteúdo: Para aprofundar-se nas medidas de mitigação e nos dados globais de consumo, acesse o relatório oficial da Agência Internacional de Energia: IEA – Sheltering from Oil Shocks (2026)


SOBRE O AUTOR

Carlos Braga é professor associado e coordenador do Centro de Referência em Inovação e ESG da Fundação Dom Cabral, conselheiro sênior ... saiba mais