A mudança climática é um desafio global, mas não afeta o mundo de forma igualitária. Sabemos que os ricos possuem as maiores pegadas de carbono, mas são os pobres que mais sofrem com os impactos climáticos. Sabemos que poucos países são responsáveis pela maior parte dos gases do efeito estufa, mas essas emissões afetam o planeta todo.

Uma pesquisa recente ilustra, por meio de um mapa, a disparidade entre países que mais emitem agentes que provocam o aquecimento do planeta — e aqueles que somente sentem as temperaturas subirem.

As emissões são indicadas pela cor azul — quando mais alto o nível de emissão, mais forte a tonalidade. A mesma lógica vale para as anomalias na temperatura, exibidas em vermelho. EUA, Europa Ocidental e China Ocidental são os que mais se destacam em azul, enquanto o Ártico salta aos olhos em vermelho — a região está condenada pelo aquecimento, mesmo que quase zero emissões venham de lá.

(Crédito: Monterey Bay Aquarium)

“Há locais no planeta vivenciando os danos provocados pelas emissões antropogênicas e pelo efeito estufa, embora quase não haja emissões nesses lugares. Quisemos jogar luz sobre essa questão”, afirma Kyle Van Houtan, presidente e CEO da Loggerhead Marinelife Center na Flórida. Ele conduziu a pesquisa quando ainda atuava como chief scientist da Monterey Bay Aquarium, na Califórnia.

Parece estranho ver que um aquário embarcaria numa pesquisa dessa (o material foi publicado no jornal Science Advances), mas Van Houtan explica que, por serem uma instituição científica, sentiram que era responsabilidade deles entregar ao público informação com embasamento na ciência sobre o que está acontecendo com o planeta. Ao colocar as causas e efeitos do aquecimento global em um mapa, ele espera que as pessoas vejam como a região em que moram contribui para o problema — e como pode ser afetada.

Para colocar o mapa de pé, Van Houtan e seu time reuniram dados dos quatro agentes que mais provocam aquecimento: dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e carbono negro. Juntos, esses três gases e um aerossol representam 92% de todas as emissões de gases de efeito estufa. Com esses dados, eles mapearam as fontes dessas emissões para mostrar, entre 1970 e 2018, a origem de cada uma.

(Crédito: Monterey Bay Aquarium)

Os pesquisadores combinaram esses dados com mapas que projetam o aquecimento, criados por entidades como Intergovernmental Panel on Climate Change. O resultado foi um mapa que mostra a disparidade entre a origem das emissões e onde as temperaturas mais sobem. É uma imagem desigual: 90% das emissões provocadas pelo homem, que impactam o globo, vêm de somente 8% da superfície do planeta. E embora a fonte dessas emissões esteja concentrada em uma pequena quantidade de terra, mais da metade do planeta vivenciará o aquecimento global extremo até o final deste século. O mapa também ressalta que o oceano absorve 93% do calor provocado pela mudança climática, e é crucial para mitigar o aquecimento.

Van Houtan diz que esta pesquisa é a primeira que mapeia e quantifica as emissões globais desta forma. Agora, o mapa pode ser utilizado para um diálogo mais eficaz com o público, assim como em pesquisas que avaliam quão preparadas essas regiões estão para lidar com o aquecimento futuro.

A razão que explica essas disparidades tem a ver com o modo com que esses gases de efeito estufa se espalham na atmosfera. Embora existam efeitos localizados para fontes de poluição — como os índices de asma perto de usinas a carvão — em geral, emissões de um lugar acabam se misturando com a toda a atmosfera. Essas emissões “funcionam como um cobertor ao redor do planeta, que previnem o aquecimento de se dissipar”, diz Van Houtan.

E ele reforça quão injusta é essa equação: “99% do planeta está sofrendo o efeito de uma mudança climática que não provocaram”.

SOBRE A AUTORA

Kristin Toussaint é editora assistente da editoria de Impacto da Fast Company.