POR LENA CASTELLÓN

O arquiteto francês Olivier Raffaelli, sócio-fundador do escritório Triptyque, está à frente de um projeto arquitetônico diferente em um ambiente diferente também, ao qual pouca gente tem acesso, o Parque Indígena do Xingu. Fundado há 60 anos, ele tem mais de 2,6 milhões de hectares e em sua área vivem 16 etnias. É junto a uma delas, os yawalapiti, que será constituído um instituto criado e definido em suas linhas gerais pelos índios, seguindo tradições e seus conceitos de habitar, conviver e construir. “Eles serão os arquitetos”, diz Raffaelli.

Batizado de Instituto Reserva Indígena Xingu, o projeto foi apresentado há cerca de duas semanas aos yawalapiti, em sua aldeia. Não com um esboço, mas em sua “filosofia”, conta Raffaelli. Estavam sendo dados os primeiros passos de um desejo manifestado internacionalmente dois anos atrás. O futuro instituto tem como primeira missão cuidar das fronteiras daquele território. 

Olivier Raffaelli apresentou a filosofia do projeto para os yawalapiti. A sede do Instituto Reserva Indígena Xingu será construída perto de onde vive essa etnia. Crédito: Triptyque. (Crédito: cortesia de Christy Dawn)

A apresentação de Raffaelli coincidiu com um momento especial no Xingu e na própria aldeia. Eram dias do Kuarup, o ritual fúnebre indígena que reúne outras etnias em uma grande cerimônia de homenagem aos mortos. Desta vez, as honras foram prestadas ao cacique Aritana, que faleceu em 2020, vitimado pela covid-19. Ele era líder dos yawalapiti. 

Aritana foi um dos chefes indígenas que ajudou a trazer para o Xingu o projeto do instituto. Em maio de 2019, Raoni Metuktire, cacique dos caiapós, viajou à Europa para pedir apoio às causas dos povos da floresta. Com ele estavam o filho de Aritana, Tapi, hoje cacique dos yawalapiti, sucedendo o pai, e mais dois representantes indígenas, Bemoro Metuktire e Kaiulu Kamaiurá

O périplo – que incluiu uma visita ao presidente francês Emmanuel Macron –, foi organizado pela Association Forêt Vierge, criada em 1989 pelo cineasta belga Jean-Pierre Dutilleux, diretor do documentário “Raoni” (1977), que tem sede em Paris. Na ocasião, o líder caiapó declarou que buscava um milhão de euros para financiar muros verdes de bambu para marcar os limites do Xingu, como forma de proteger o parque de invasões. 

Não são muros verdes que serão erguidos no projeto. Mas o objetivo de vigiar com mais eficácia as fronteiras do território, ao menos ao sul do Xingu, poderá ser iniciado dentro de dois meses. Com recursos arrecadados na Europa e nos Estados Unidos a partir dessa viagem, a associação francesa pode procurar um escritório de arquitetura para dar largada no projeto. A escolha recaiu sobre o Triptyque, um escritório franco-brasileiro inaugurado há 15 anos e que tem expertise em construção sustentável. 

“Já trabalhamos com índios em São Paulo, mas era para um projeto do CDHU. Eles moram perto da capital paulista e têm uma vida moderna ocidental”, afirma Raffaelli, salientando a diferença entre um caso e outro. O que estão preparando para o Xingu foge de qualquer coisa que tenham feito. “Este não é um projeto tradicional”, reforça.

A começar pelo fato de que os arquitetos que se juntarão ao projeto deverão atuar em segundo plano, captando o que desejam os índios.  Colocar os povos da região no centro desse planejamento é essencial para garantir o respeito à cultura local e às tradições xinguanas. 

OBSERVATÓRIO E ESPAÇO CULTURAL 

O local onde deverá ser erguido o instituto já foi escolhido. Como primeiro propósito, o espaço servirá de base para fazer a observação das fronteiras com o uso de drones atualmente adotados no combate a incêndios. O segundo é criar um lugar em que a cultura dos povos do Xingu seja resguardada. “A questão é saber como valorizar as tradições em um cenário em que as novas realidades vão surgindo”, explica Raffaelli.

Esta é a segunda visita do arquiteto francês ao Xingu. Uma diferença notável em comparação a sua primeira vez, cinco anos atrás, foi ver a multiplicação de celulares entre os habitantes do território indígena. “Não se pode perder a cultura local diante da força da modernidade”, completa. Ele também testemunhou o crescimento dos focos de incêndio na região.

A intenção da Triptyque é começar com algo pequeno, como um observatório e um canteiro de obras. Vão ser chamados estudantes de arquitetura para contribuir com o processo de construção, que não tem prazo para acabar. “Vamos usar técnicas indígenas”, adianta. O que eles puderem agregar será feito em concordância com os “contratantes”, por assim dizer.

Está previsto também o uso de material da floresta, de madeiras a outros elementos. A utilização de terra seca, por exemplo, pode produzir algo tão resistente quanto porcelanato. 

Por sinal, a gestão dos recursos naturais é mais um dos focos do instituto, dentro do que eles, os especialistas de fora, puderem ajudar. Afinal, quem mais para saber como cuidar da flora e fauna do Xingu do que seus habitantes? A intenção é fornecer soluções de inteligência para esse gerenciamento.

ARQUITETURA INDÍGENA

O conceito de moradia, voltado para o viver junto e para o coletivo, é destacado pelo arquiteto. (Crédito: Triptyque) 

“Como arquiteto, digo que os índios do Xingu têm casas incríveis”, afirma Raffaelli, que destaca a construção das ocas em volta de um espaço largo e aberto onde a vida acontece. Nelas, vivem as famílias, em grupos, com um funcionamento voltado para o coletivo. “Eles têm um conceito de viver junto que tem de ser realmente protegido”. 

Para o sócio do Triptyque, essa convivência é uma forma inteligente, sofisticada e orgânica de morar junto. “É o melhor jeito de se viver e isso me fascina totalmente”. 

Fascínio é uma palavra que pode ser empregada para o sentimento que Raffaelli experimentou ao visitar o Brasil pela primeira vez. Depois de se formar, ele viajou para o Rio de Janeiro e se deslumbrou. “É uma cidade moderna no meio de uma floresta”. Nascido em Paris, ele estava habituado a uma metrópole inteiramente construída. Claro, há parques lindos na capital francesa, mas para ele foi um choque encontrar a natureza envolvendo com sua força uma cidade plenamente desenvolvida.  

O encontro entre o mundo construído e o mundo natural é uma proposta que Raffaelli e o Triptyque buscam harmonizar em seus projetos. Um dos trabalhos do escritório no Brasil, que tem sede em São Paulo, é exemplo do que eles vão procurar desenvolver no Xingu, mas pela conceituação. 

EM HARMONIA COM O MUNDO NATURAL

Em 2008, o Triptyque apresentou o projeto Harmonia, um edifício na Vila Madalena, bairro de São Paulo, com ateliês de artistas, que foi desenhado como um organismo vivo. Suas paredes de concreto possuem poros de onde brotam diversas plantas, conferindo uma aparência verde ao prédio e transformando essa camada em uma espécie de pele do edifício, que respira. 

Outra característica desse projeto é que ele recupera água da chuva, que é reutilizada. Esse processo confere frescor à construção para que não seja utilizado ar-condicionado nos ateliês. “É um prédio muito vivo. Você sente o elemento natural”, explica Raffaelli.

Essa arquitetura viva vem ganhando evidência no mundo. Alguns anos atrás, pensava-se no natural como algo “interessante”. Com a crise ambiental se expandindo, porém, isso virou o assunto. “Só falam disso agora”, comenta. 

Já houve época em que prédios de vidro eram tendência. Hoje, a madeira, a terra e a pedra estão voltando como avant-garde na arquitetura. “Virá um tempo em que vamos olhar para trás e vamos falar como pudemos construir tantos prédios de vidro”, critica. 

Raffaelli gosta de destacar que o Triptyque é um escritório franco-brasileiro. “Acho um belo encontro de culturas. Trabalhamos na harmonização da arquitetura com a natureza”, ressalta.

Sobre o Xingu, mesmo com a marcha do mundo moderno acelerada – como testemunhou em sua visita recente ao parque –, o arquiteto aponta o que mais lhe marca a memória: a luz, a beleza e as cores. “Nenhum lugar no mundo provoca em mim a impressão que o Xingu me traz. Para defender isso, a gente tem de fazer qualquer coisa, mas com respeito aos índios e sem deixar nossos rastros”, pontua.

SOBRE A AUTORA

Lena Castellón é jornalista, corredora, escreve sobre marketing, vida digital, esportes e saúde, e é viajante (antes da covid-19; agora espera a pandemia passar). Seus trajetos incluem o Alasca e o Parque Indígena do Xingu.