Robôs pescadores? Eles ajudam a pesca sustentável de salmão
Máquina usa visão computacional para abater cada peixe em seis segundos, preservar a qualidade da carne e reduzir o desperdício.

A temporada do salmão-vermelho está chegando ao auge no Alasca.
Algumas embarcações que pescam na Enseada de Cook receberam um novo tripulante. Ele não reclama do balanço do mar, não come nem dorme. Ainda assim, consegue processar salmões com mais rapidez e menos sofrimento do que qualquer pescador.
O recém-chegado é o PSDN-S, abreviação de “Poseidon”, um robô criado pela startup Shinkei Systems.
O processo parece friamente mecânico, mas é mais humano do que os métodos tradicionais, que muitas vezes deixam os peixes sufocarem lentamente no convés.
Enquanto navegam pelas águas da enseada, conhecidas pelas marés perigosas, as tripulações colocam os salmões capturados dentro do robô, uma caixa metálica alta fixada à embarcação. Usando visão computacional, a máquina identifica a espécie, localiza uma área de pouco mais de um centímetro no crânio, introduz uma ponta metálica no cérebro e corta as guelras.
Todo o ciclo leva cerca de seis segundos. Em seguida, o peixe é depositado no gelo antes que consiga se debater.

“Estamos basicamente realizando o equivalente a uma cirurgia nesses peixes, em um ambiente marítimo muito difícil”, afirma Saif Khawaja, cofundador da Shinkei.
O MÉTODO DA SHINKEI
O PSDN-S reproduz o ike jime, técnica precisa de abate empregada em peixes servidos nos principais restaurantes de sushi de Tóquio, Los Angeles e Nova York. O método é considerado uma das formas de reduzir o sofrimento do animal durante o processo.
Chefs de restaurantes sofisticados, como Daniel e Atelier Crenn, também acreditam que os peixes processados pela Shinkei têm sabor melhor.
A empresa está sediada em El Segundo, na Califórnia, e foi fundada por Khawaja há quatro anos, em Nova York. Em japonês, a palavra shinkei pode ser traduzida como “sensível”.
A Shinkei instala gratuitamente o robô PSDN-S e paga aos pescadores um valor adicional pela captura. Em troca, assume a propriedade dos peixes, impedindo que eles sejam vendidos no mercado aberto. A empresa processa, distribui e comercializa os pescados por meio da própria marca, a Seremoni.

Até este verão no Hemisfério Norte, a Shinkei usava o método para processar apenas algumas espécies pouco consumidas pelos norte-americanos, como bacalhau-negro, robalo, pargo e peixe-vermelho.
A escolha foi deliberada. Segundo Khawaja, a empresa quis evitar os peixes mais populares da alimentação norte-americana para mostrar o que poderia fazer com espécies artesanais que não são tratadas como commodities.
Agora, o PSDN-S começa a ser empregado no processamento do peixe mais consumido do país. A Shinkei afirma que o salmão chegará aos primeiros restaurantes e varejistas parceiros nas próximas semanas.
Em 2025, cerca de 200 milhões de salmões foram capturados no Alasca durante a curta temporada de pesca. Os norte-americanos consomem aproximadamente 200 mil toneladas por ano, o que faz dos Estados Unidos o maior consumidor mundial.

POR QUE USAR UM ROBÔ PARA ABATER PEIXES
O antecessor do PSDN-S, o PSDN em tamanho integral, ganhou atenção pelas inovações relacionadas ao bem-estar animal e à sustentabilidade. A Shinkei integrou a lista de Empresas Mais Inovadoras de 2026 da Fast Company, na categoria alimentação.
O robô pode reduzir o desconforto de consumidores preocupados em comer animais capazes de sentir dor. Khawaja, porém, afirma que existe outra vantagem importante: o aumento da vida útil do pescado.
Essa promessa ajuda a explicar por que investidores como o Founders Fund já destinaram US$ 22 milhões à empresa. Se os peixes durarem mais, um número maior de pessoas poderá ter acesso a frutos do mar frescos e de alta qualidade.
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Nos barcos comerciais convencionais, a captura causa estresse nos peixes. Eles liberam hormônios, e o ácido lático se acumula na carne, prejudicando o sabor e a textura, favorecendo a proliferação de bactérias e reduzindo sua durabilidade.
Na maioria das espécies, o pescado permanece adequado ao consumo por cinco a sete dias. A Shinkei afirma que seus produtos podem durar entre duas e três semanas.
Estimativas indicam que até 35% de todos os peixes capturados no mundo são desperdiçados devido à deterioração. O retrato mais recente dos Estados Unidos, calculado em 2023, apontou perda de 23% de toda a oferta comestível.
Um estudo recente, conduzido por pesquisadores ligados à Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, à Universidade de Cambridge e a uma universidade chinesa, concluiu que a melhor maneira de ampliar a oferta de pescado no futuro não é capturar mais peixes, mas reduzir o desperdício.

O SALMÃO NÃO FOI FEITO PARA VIAJAR TANTO
Uma característica da indústria agrava o desperdício: boa parte dos peixes vendidos nos supermercados dos Estados Unidos é enviada primeiro à Ásia para ser processada. É lá que ocorre o trabalho de limpeza, retirada de escamas e corte dos filés.
A prática recebe críticas de diferentes grupos nos Estados Unidos, de ativistas trabalhistas e organizações de combate ao desperdício a críticos da dependência comercial da China.
Em março, a Shinkei mais que dobrou sua estrutura de produção no país ao adquirir uma instalação de aproximadamente 1,5 mil metros quadrados em Tacoma, no estado de Washington.
A empresa e seus investidores apostam que a startup poderá trazer parte da cadeia de processamento de peixes de volta aos Estados Unidos. O plano é funcionar como uma operação verticalizada de captura, processamento, distribuição e venda, usando robôs do barco ao prato.
Espécies com formatos mais difíceis, como peixe-espada e linguado, estão fora dos planos por enquanto.
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A parceria com pescadores do Alasca é um primeiro passo importante. O estado responde por aproximadamente 60% dos frutos do mar produzidos nos Estados Unidos, o equivalente a quase 2,7 milhões de toneladas por ano. Ainda assim, cerca de dois terços dessa produção são exportados.
Ao mesmo tempo, até 85% dos frutos do mar vendidos em supermercados norte-americanos são importados. O país envia seus peixes para o exterior e compra produtos de outras nações — aproximadamente metade vem do Chile, e boa parte do restante, da Noruega e do Canadá.
O salmão-vermelho que chega das embarcações, valorizado pela coloração intensa e pelo sabor marcante, será um teste para saber se o modelo suporta o processamento de uma espécie consumida em grande escala.
Barcos que capturam bacalhau-negro retiram da água entre oito milhões e 10 milhões de exemplares por ano. No caso do peixe-vermelho, são cerca de 200 mil. O volume de salmões é muito maior.
“A quantidade que eles estão tirando da água é absolutamente insana”, afirma Khawaja.
QUEM FALA PELOS PEIXES?
Khawaja associa a ideia de um abate com menos sofrimento a um ensaio de Peter Singer, autor de “Libertação Animal”.
Ele cresceu em Dubai, participando de pescarias em família. Anos mais tarde, deixou a pós-graduação na Universidade da Pensilvânia depois de ganhar um prêmio de US$ 100 mil para desenvolver o projeto que daria origem à Shinkei.
Mas foi o ensaio “If Fish Could Scream” (“Se os peixes pudessem gritar”, em tradução livre), publicado por Singer em 2010, que permaneceu com ele.
Segundo o filósofo, a pesca comercial impõe uma quantidade inimaginável de dor e sofrimento aos peixes. Isso quase não é percebido pelas pessoas porque eles não conseguem expressar a própria dor.
Khawaja começou tentando criar um sensor que pudesse ser preso ao corpo de um peixe e emitisse um som cada vez mais intenso conforme o nível de estresse aumentasse — uma espécie de grito tecnológico.
Ele logo percebeu o problema: ninguém queria ouvir peixes gritando.
O empreendedor passou, então, a olhar para o lado comercial da questão. Tratar os animais de maneira melhor também poderia melhorar o sabor e elevar o valor de venda.
Para treinar o PSDN-S, Khawaja e Reed Ginsberg, cofundador e diretor de tecnologia da Shinkei, pediram que pescadores levassem cerca de 50 espécies vivas, de animais com menos de meio quilo a exemplares de mais de 11 quilos.
Eles usaram câmeras para registrar os peixes de todos os ângulos. Assim, os modelos de inteligência artificial da empresa conseguiriam reconhecê-los mesmo quando fossem colocados na máquina em posições incomuns ou de cabeça para baixo.
Identificar os salmões foi fácil. A dificuldade estava em instalar um robô responsável pelo abate em embarcações do tamanho de um ônibus, navegando em ondas de três metros.
“No Alasca, os barcos autorizados a pescar salmão selvagem podem ter no máximo 32 pés”, explica Ginsberg.
O PSDN-S surgiu depois que a empresa ouviu pescadores interessados em aderir ao projeto, mas que tinham um pedido inspirado, ao contrário, pelo filme “Tubarão”: vocês vão precisar de um robô menor.
Ginsberg chegou à Shinkei vindo da SpaceX, onde liderou o grupo de aviônica da Starship e projetou equipamentos para o Starshield, versão governamental da rede Starlink.
Seu trabalho era construir sistemas capazes de resistir a impactos violentos, radiação térmica e variações extremas de temperatura — equipamentos que viajam para muito longe e não podem ser acessados novamente.
Os barcos pesqueiros não são tão diferentes.
Os motores ficam quentes, as ondas provocam vibrações intensas, e os conveses passam do calor do Golfo do Alasca ao frio do Mar de Bering. Segundo Ginsberg, a corrosão é ainda pior do que na indústria aeroespacial.
“O oceano é provavelmente o ambiente mais hostil para o qual já projetei alguma coisa”, afirma.
Como o PSDN-S também viaja para lugares de difícil acesso, a Shinkei envia atualizações de software remotamente por meio da Starlink.
“É como ter um Tesla”, compara Ginsberg. “E agora eles também têm Wi-Fi no barco para assistir à Netflix.”

O robô foi projetado para resistir ao calor, ao frio, à vibração, à corrosão e às ondas enfrentadas pelas embarcações. Crédito: Matt e Alex Lowber/ LOBO
DO BARCO AO PRATO
Desde que os peixes capturados pela Shinkei começaram a ser vendidos, há dois anos, sob a marca Seremoni, o produto passou a ser usado por chefs de diferentes partes dos Estados Unidos.
Os pescados já foram servidos em dezenas de restaurantes com estrelas Michelin. Dan Barber, chef do Blue Hill at Stone Barns, conhecido pelas práticas de sustentabilidade, descreveu o produto como o “ideal platônico” do sabor de um peixe.
Os produtos também são vendidos em redes como Erewhon e Wegmans e pela plataforma FreshDirect. Em 2025, chegaram ao mercado de peixes de Toyosu, em Tóquio, marcando a primeira vez em 17 anos que um bacalhau-negro selvagem foi comercializado no local.
Agora, a Shinkei pretende levar sua tecnologia mais longe.
A empresa prepara um novo sensor chamado NERA, que escaneia os peixes para estimar a data em que cada exemplar alcançará a qualidade ideal — aquilo que Khawaja chama de “ponto de maturação”.
Pode parecer estranho pensar dessa maneira em um animal retirado do oceano. Khawaja, porém, apresenta os dados como se estivesse falando de uma fruta.
“Pense em uma banana”, diz. “Você não quer que ela esteja verde nem preta. Você quer que esteja amarela.”
No pescado convencional, essa janela de qualidade ideal é muito curta. O método da Shinkei promete ampliá-la.
Por enquanto, o NERA ainda tem o tamanho de um eletrodoméstico, assim como a primeira versão do PSDN, e funciona apenas na fábrica da empresa em El Segundo. A ambição de Khawaja é criar sensores que possam ser usados em diferentes pontos da cadeia.
“Se conseguirmos reduzi-los o suficiente, poderemos instalar leitores no cais onde os peixes chegam e no supermercado onde as etiquetas são impressas”, afirma.
Em um sofisticado restaurante de omakase de US$ 500 por pessoa, o chef pode observar o peixe por vários dias para identificar o momento em que a textura começa a ficar mais firme, indicando que o sabor atingiu o ponto máximo.
Khawaja não vê razão para que o mesmo conhecimento não possa ser aplicado ao peixe guardado na geladeira de uma família comum.
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