SP2B nasceu com borogodó de brasilidade e cheio de sinais

Na estreia do São Paulo Beyond Business, os sinais mais potentes não estavam com os nomes globais, estavam nas entrelinhas

Crédito: SP2B/ Divulgação

Patrícia Carneiro 8 minutos de leitura
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Existe uma habilidade que vai separar quem prospera de quem apenas reage às incertezas de agora, e ela não cabe em nenhum relatório de tendências.

Chama-se ler sinais fracos: perceber, no ruído do presente, os fios tênues do que ainda não tem nome. É arte e ciência ao mesmo tempo, une a intuição de quem sente antes de saber e o rigor de quem transforma percepção em método.

Os relatórios anuais já foram mortos por Amy Web. Aqueles PDFs de 100 páginas que chegavam sempre atrasados, embalando o passado recente como se fosse profecia, perderam a função em um mundo que muda mais rápido do que se consegue diagramar.

O que ocupa o lugar deles é outra coisa: a capacidade de fazer essa leitura em tempo real, com o corpo dentro do acontecimento, capturando o que pulsa antes que vire manchete, planilha ou case.

Foi com essa lente que atravessei a primeira edição do SP2B, o São Paulo Beyond Business, no Parque Ibirapuera. E é dela que falo aqui: não como cronista do evento, mas como pesquisadora de inteligência antecipativa e coletiva tentando ler, ao vivo, o que aquele caos organizado estava anunciando.

OS NÚMEROS IMPRESSIONAM, MAS NÃO É NELES QUE MORA O FUTURO

A grandiosidade da estreia é fato. A organização contabilizou 45.286 credenciados na conferência, com projeção de chegar a 70 mil, além de 20 mil pessoas nos shows esgotados do fim de semana.

Foram cerca de dois mil palestrantes em 20 palcos simultâneos, uma operação de 2,5 mil pessoas e uma projeção de meio milhão de pessoas impactadas no parque. A segunda edição já está confirmada, de 9 a 15 de agosto de 2027.

Impressiona. Mas confesso: o futuro que eu procurava não estava nos palcões com os nomes globais. Estava nas entrelinhas, em narrativas que se repetiam, ressoavam, costuravam um fio invisível entre palcos distantes, pessoas que não se conheciam e conversas de corredor.

Para enxergar o que a organização de fato colocou de pé, era preciso mergulhar para além da grade oficial e ter sensibilidade para o que ainda não tinha nome.

O próprio "beyond" (além) do título já era o primeiro sinal. Recolocar os negócios dentro de um ambiente de cruzamentos – cultura, comportamento, inovação, empreendedorismo, ancestralidade – é uma aposta de mundo, não só de programação.

É admitir que a inovação relevante deste século não nasce mais dentro do silo do "business", e sim no atrito entre campos que costumávamos manter separados.

SOBRE A COMPARAÇÃO COM O SXSW (E POR QUE ELA TAMBÉM É UM SINAL)

Parte do público mais viajado torceu o nariz e comparou o SP2B ao SXSW de Austin. É uma crítica legítima em muitos aspectos operacionais e vale acolhê-la sem defensiva. Mas ela merece um contraponto igualmente honesto.

Quantos empreendedores e executivos brasileiros investem R$ 45 mil para cruzar o continente e viver o Texas todo ano? A comparação, quando vira régua, revela menos sobre o evento e mais sobre um certo classismo nosso, o hábito de só reconhecer valor no que vem carimbado de fora.

O SP2B nasce tentando traduzir uma brasilidade multifacetada, caótica e mestiça. É injusto exigir que ela caiba no gabarito de um festival construído por outra cultura, para outro público, ao longo de quatro décadas.

Mais interessante do que julgar a estreia pela régua importada é notar o sinal que a própria comparação carrega. O incômodo de ser medido pelo Norte é, ele mesmo, o começo de uma virada. E foi essa virada que apareceu, insistente, em vários pontos do evento.

OS SINAIS QUE EU LI

Ler sinais fracos não é só captá-los. É criar sentido entre eles – e aí está o poder da imaginação nesta equação. Sinais isolados são curiosidades; sinais conectados são pistas de futuros em construção.

Reúno a seguir os que mais ressoaram, já tentando puxar o fio que os une.

"SULEAR" EM VEZ DE "NORTEAR"

O mapa da inovação apresentado por Caio Vassão – arquiteto e urbanista que há anos pensa metadesign, complexidade e uma inovação explicitamente pós-colonial – me tirou o fôlego. Trocava o vocabulário importado por outro, mais nosso e mais físico, apontando três ativos de inovação brasileira: festa, floresta, fisicalidade.

A importância do Sul Global no ecossistema de inovação

É a tradução prática de um conceito que o físico Márcio D'Olne Campos cunhou em 1991 e que Paulo Freire eternizou na "Pedagogia da Esperança": sulear. No hemisfério sul, quem nos orienta é o Cruzeiro do Sul, não a Estrela Polar.

Parar de nortear o olhar da inovação e começar a sulear não é retórica identitária, é uma decisão epistemológica sobre de onde partem as nossas perguntas.

A ANCESTRALIDADE COMO TECNOLOGIA DE FUTURO

No painel "O futuro é ancestral", a futurista Rosa Alegria – pioneira dos estudos de futuro no Brasil – dividiu o palco com a física Sônia Guimarães, a artista indígena Auá Mendes e o griô M.M. Izidoro.

ancestralidade indígena

Conceitos como o ubuntu africano ("eu sou porque nós somos") apareceram não como folclore, mas como lógica aplicável a novos modelos de sociedade. O sinal aqui é sobre temporalidade: a ideia de que memória e sabedoria ancestral são insumos de futuro, e não o oposto dele.

Não por acaso, é a mesma Rosa Alegria que vem mostrando, em sua pesquisa "Da Futurofobia à Futurotopia", que a maioria dos jovens brasileiros associa o amanhã ao medo e à ansiedade. Reancorar o futuro na ancestralidade é um dos poucos antídotos reais a essa futurofobia.

A ELITE DE NEGÓCIOS DESCOBRINDO O MUSEU AFRO

Grandes painéis aconteceram dentro do Museu Afro Brasil, e esse simples deslocamento físico já foi impacto. A instituição registrou um aumento de 30% de visitantes em relação ao mesmo período do ano anterior.

entrada do Museu Afro Brasil

Quando o circuito de inovação e capital entra em um espaço que costumava ignorar, algo se move, não no discurso, mas na geografia dos corpos e do dinheiro. Sinal fraco costuma ser exatamente isso: um deslocamento pequeno que ainda não sabemos nomear.

AS FEMTECHS SAINDO DA MARGEM

Ganhou espaço um segmento que a medicina tradicional historicamente subatendeu: tecnologias voltadas à saúde e

menstruação e saúde  da mulher

à biologia das mulheres – do ciclo menstrual à fertilidade, da maternidade ao climatério e aos diagnósticos de endometriose e câncer de mama assistidos por inteligência artificial.

É um mercado que atende metade da população do planeta e que só agora começa a ser tratado como o que é: uma fronteira bilionária de inovação, e não um nicho.

A CONVERSA SOBRE A NOSSA PRÓPRIA LÍNGUA

Um post de Tadeu Jungle provocando sobre por que insistimos em batizar tudo em inglês quando poderíamos assumir a oca, a pacubra, o nome que é nosso, também é sinal fraco. Porque sinal fraco não está só nos palcos: está nas conversas que o evento provoca ao seu redor, no que as pessoas escolhem estranhar em voz alta.

TRÊS PILARES EMERGENTES

Quando ponho esses sinais lado a lado e deixo a imaginação fazer o trabalho de costura, três grandes tensões emergem – e é nelas que eu apostaria os olhos de qualquer líder que queira antecipar a próxima década a partir do Brasil.

A primeira é brasilidade e antibrasilidade: o velho complexo de vira-latas se reconfigurando em força e pluralidade tecnológica exportável, em vez de eterna cópia envergonhada do Norte.

A segunda é destruição e regeneração: a inovação deixando de ser só otimização de retorno para se perguntar o que, afinal, ela regenera ou devasta.

A terceira é ancestralidade e futuro, uma falsa oposição que o evento ajudou a dissolver, mostrando que o passado profundo pode ser o material mais avançado que temos.

Repare que nenhum desses pilares é um "ou isto ou aquilo". Todos são "e". E talvez seja essa a competência mais brasileira de todas: a capacidade de misturar, de segurar contradições no mesmo corpo sem precisar resolvê-las.

Não é fraqueza de foco. É uma forma sofisticada de lidar com a complexidade que o resto do mundo está só agora aprendendo a nomear.

O BOROGODÓ COMO FECHAMENTO

A curadoria musical fechou esse raciocínio melhor do que qualquer keynote. No show de Criolo com Ajuliacosta, a emoção dela no palco não apontava para um futuro de "isto ou aquilo", mas para o borogodó – essa mistura que nós, brasileiros, sabemos fazer como poucos.

O SXSW tem uma máxima em torno da vibe "wired", do estar conectado e ligado na energia do agora. Parafraseando o próprio Tadeu Jungle, São Paulo e o Brasil são muito mais wired que Austin. A questão é se vamos abraçar isso ou continuar pedindo licença para existir.

Sinais isolados são curiosidades; sinais conectados são pistas de futuros em construção.

Porque aqui está a parte prática, para quem constrói e não só assiste. Sinais fracos são pistas, não destinos, e somos nós que decidimos quais abraçar.

A habilidade se treina em três movimentos que qualquer time pode incorporar: captar o que ressoa antes de ter nome, criar sentido conectando sinais dispersos com imaginação disciplinada e escolher, conscientemente, quais futuros ajudar a nascer.

Não é sobre prever o amanhã. É sobre notá-lo enquanto ele ainda cabe num sussurro, e ter a coragem de apostar nele.

A primeira edição do SP2B foi grandiosa e caótica, do jeito que São Paulo sabe ser. E, se você tiver sensibilidade para ler nas entrelinhas, vai perceber que o caos não era o defeito. Era o sinal.


SOBRE A AUTORA

Patrícia Carneiro é fundadora da Plannhub Inteligência, Estratégia e Inovação. Estrategista de insights, foi a primeira mulher negra d... saiba mais