Sustentabilidade corporativa em 2026: materialidade, inovabilidade e resiliência estratégica

Sustentabilidade corporativa é a gestão inteligente do presente para assegurar a geração de valor e a sobrevivência do capital no longo prazo

mãos em círculo tocam as pontas dos dedos simbolizando trabalho em equipe
Crédito: Just Super/ Getty Images

Carlos Penteado Braga 5 minutos de leitura

Em 2026, a sustentabilidade corporativa atravessa sua metamorfose definitiva ao deixar de ser um arcabouço restrito à gestão de riscos e reputação para consolidar-se como o motor da estratégia do negócio. Este movimento é pautado pela inovabilidade – onde a inovação é impulsionada pela sustentabilidade para gerar valor tangível para o negócio.

O sucesso agora é medido pela integração de operações sustentáveis à rentabilidade. Este novo paradigma é impulsionado por fundos de investimento que, segundo a Bloomberg, movimentaram mais de US$ 3 trilhões em ativos sustentáveis em 2025, exigindo que empresas líderes dominem cinco tendências para a competitividade atual.                                                          

1. IFRS S1 e S2: sustentabilidade no coração do balanço

2026 é o "ano da verdade" para a governança das empresas listadas no Brasil. A adoção integral das normas IFRS S1 e S2 transformou o reporte de sustentabilidade em um documento auditável com o mesmo rigor das demonstrações financeiras.

Segundo a mesma Bloomberg, a falha em tangibilizar riscos climáticos tem custo direto: spreads de crédito podem alargar 2,4 pontos base em eventos adversos. Já os líderes capturam prêmios reais: o índice global de títulos sustentáveis (GSS) rendeu 11,99% superando o índice global agregado entre 2022 e 2025.

Esse desempenho decorre do compromisso dos investidores com ativos alinhados a metas socioambientais, o que confere a esses títulos uma performance superior e mais estável do que a dos mercados convencionais diante da atual incerteza climática.                                                

2. Minerais críticos e a geopolítica da descarbonização

A corrida pelo "net zero" tornou os minerais críticos – como lítio, cobre e terras raras – a nova espinha dorsal da economia. O Banco Mundial estima que a produção deve subir 500% até 2050 para suprir a transição energética e a infraestrutura de IA.

No contexto de 2026, o Brasil é um player estratégico, mas o desafio migrou da extração para a ética. A tendência é a rastreabilidade total ("da mina ao mercado"), com empresas de tecnologia investindo diretamente na mineração responsável para garantir resiliência frente à escassez global. 

3. Mercado de carbono: integridade e potencial bilionário

O mercado brasileiro amadurece sua regulação focando na transição para a remoção efetiva de carbono. Segundo a McKinsey, o Brasil possui o maior potencial global em soluções baseadas na natureza, podendo movimentar até US$ 15 bilhões por ano até 2030.

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Dados da Bloomberg reforçam que companhias que lideram a descarbonização em setores intensivos já registram retornos excedentes de até 8% em relação aos pares, consolidando o crédito de carbono de alta integridade como um ativo estratégico para a resiliência financeira.                                                 

4. Economia da resiliência: o custo da "adaptação"

O Fórum Econômico Mundial alerta que a mitigação sozinha não basta. Em 2026, o investimento em infraestrutura resiliente tornou-se vital.

Segundo a Bloomberg, os danos por eventos extremos nos EUA totalizaram US$ 1 trilhão em 2025, impulsionando a tese de "adaptação e resiliência", cujas empresas focadas superaram o S&P 500 em 7,7% anuais em cinco anos.

No Brasil, a tragédia no Rio Grande do Sul evidenciou a falta de cobertura de seguros: de R$ 89 bilhões em perdas estimadas, apenas R$ 6 bilhões estavam cobertos por seguros privados, de acordo com a Susep.

Essa enorme "lacuna de proteção" demonstra que a ausência de investimentos em adaptação e infraestrutura resiliente representa um risco sistêmico à continuidade dos negócios e à solvência do setor privado.                                                         

5. Governança de natureza: o novo mandato dos conselhos

A governança em 2026 exige um "alfabetismo climático e ambiental" sem precedentes. O relatório Board Scorecard, do Chapter Zero Brazil (IBGC), revela que, embora o risco climático seja onipresente na pauta, sua integração estratégica ainda é o maior gargalo.

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A nova tendência é a expansão deste mandato para incluir a biodiversidade como pilar de resiliência financeira: influenciados pelo framework da TNFD (força-tarefa para divulgação financeira relacionada à natureza), os conselhos agora supervisionam não apenas a descarbonização, mas a dependência e o impacto da empresa sobre o capital natural.

Essa evolução consolidou a implementação de incentivos variáveis vinculados a metas mensuráveis, transformando o conselho no guardião da viabilidade do negócio em um planeta sob pressão, onde a preservação de ecossistemas é indissociável da proteção do valor da companhia.                                                       

SUSTENTABILIDADE E RENTABILIDADE

Em 2026, a consolidação da sustentabilidade corporativa redefine o conceito de liderança empresarial através da inovabilidade. O que observamos não é apenas uma mudança de métricas, mas a integração da sustentabilidade como uma capacidade analítica transversal e preditora de performance.

Ao tangibilizar riscos climáticos no balanço, garantir cadeias de suprimentos resilientes e investir em adaptação, as organizações deixam de apenas mitigar danos para criar avenidas de valor.

Em última análise, a sustentabilidade corporativa em 2026 é a ciência da rentabilidade moderna: a gestão inteligente do presente para assegurar a geração de valor e a sobrevivência do capital no longo prazo.


SOBRE O AUTOR

Carlos Penteado Braga é professor associado e coordenador do Centro de Referência em Inovação & ESG da FDC, consultor do BID e con... saiba mais