Sustentabilidade pesa mais para quem está na base da cadeia de suprimentos

Os modelos globais de sustentabilidade precisam mudar, ou continuarão aprofundando desigualdades enquanto vendem a ilusão de progresso

Créditos: zmurciuk_k/ BJP7images/ Getty Images

Anu Adedoyin Adasolum 5 minutos de leitura

Os modelos globais de sustentabilidade não estão funcionando. Eles foram criados para promover um comércio mais ético e responsável, mas falham ao ignorar a realidade das cadeias de suprimentos – especialmente o trabalho invisível que acontece no início dela, em setores essenciais, como o da extração de minerais críticos.

Por décadas, comerciantes, mineradores e agricultores africanos e de outras áreas produtoras – peças fundamentais de indústrias globais que vão do cacau ao lítio – têm carregado o maior peso desses sistemas.

Enquanto isso, grandes corporações, mais adiante na cadeia, colhem os lucros. O foco está nos produtos finais, como veículos elétricos e smartphones sofisticados, mas o esforço na base do processo, onde os desafios são maiores, continua sendo ignorado.

Esse desequilíbrio nos modelos globais de sustentabilidade enfraquece toda a ideia de responsabilidade que deveria existir dentro das cadeias globais de suprimentos.

A lógica das cadeias de suprimentos é clara: as primeiras etapas – extração e processamento de matérias-primas – exigem o maior esforço. E quem está no centro desse processo? Agricultores, mineradores e comerciantes de países em desenvolvimento.

São eles que fazem o trabalho mais pesado – extraindo recursos, cultivando plantações e preparando as matérias-primas que abastecem indústrias em todo o mundo. Mas, apesar de seu papel essencial, são os que mais sofrem.

Regulamentações rígidas e exigências de sustentabilidade recaem desproporcionalmente sobre esses trabalhadores, justamente os que têm menos recursos para atender a tais demandas.

Mapa mundi que ilustra o conceito de cadeia de suprimentos
Crédito: Freepik

Veja o setor de mineração, por exemplo. O lítio, essencial para baterias de veículos elétricos, é extraído sob condições difíceis e, muitas vezes, perigosas. Depois, essa matéria-prima é enviada para outros países, onde será refinada e transformada em produtos que são vendidos como símbolos de sustentabilidade. Mas quem realmente pensa nas pessoas que tornaram essa produção possível?

Em vez de reconhecer os impactos ambientais e sociais que os mineradores enfrentam, o discurso global sobre baterias “verdes” convenientemente ignora essa realidade. O trabalho árduo desaparece da narrativa, e o produto final – os carros elétricos – assume o papel de protagonista na história da sustentabilidade.

POR QUE ESSES MODELOS NÃO FUNCIONAM

O grande problema é que os modelos globais de sustentabilidade nunca foram projetados para refletir a realidade das cadeias produtivas. Eles podem parecer fazer sentido na teoria, mas na prática, falham em diversos aspectos:

Ignoram a realidade da extração

As primeiras etapas da cadeia – extração e processamento inicial – são tratadas como um problema, e não como a base da indústria. São excessivamente reguladas, pouco apoiadas e vistas como inerentemente “sujas”, enquanto as fases posteriores desfrutam de uma reputação “mais limpa” e menos exigências.

Empurram os custos para os mais vulneráveis

Os custos de conformidade recaem desproporcionalmente sobre os menores e mais frágeis participantes da cadeia. Agricultores, mineradores artesanais e pequenos comerciantes precisam arcar com as despesas para atender aos padrões globais, enquanto as grandes corporações – que têm muito mais recursos – evitam sua parcela de responsabilidade.

Valorizam o produto final, mas ignoram sua origem

Quando matérias-primas se transformam em produtos reconhecíveis – como barras de chocolate ou baterias de veículos elétricos –, esses produtos são celebrados como símbolos de inovação e progresso. Mas a realidade por trás deles é bem menos glamurosa.

O esforço, as longas jornadas de trabalho e os sacrifícios feitos no início da cadeia são frequentemente ignorados. Na melhor das hipóteses, são reduzidos a uma nota de rodapé; na pior, são tratados como meros detalhes inconvenientes dentro da narrativa sustentável.

REEQUILIBRAR A EQUAÇÃO

Se a sustentabilidade for realmente eficaz para as pessoas e para o planeta, precisamos repensar completamente esses modelos. Isso significa começar do zero, garantindo justiça em cada etapa da cadeia de suprimentos. Aqui é onde a mudança precisa acontecer:

Parar de transferir os custos para os produtores

A sustentabilidade não pode acontecer às custas das pessoas que fazem o trabalho mais difícil. As corporações que dependem de recursos precisam assumir a responsabilidade pelos custos de conformidade dos modelos globais de sustentabilidade.

Por exemplo, empresas de chocolate que utilizam cacau africano devem investir ativamente nos agricultores e cooperativas que mantêm suas cadeias de suprimentos funcionando. Isso não é apenas uma obrigação moral, é uma necessidade comercial.

Investir em soluções locais

As primeiras etapas da cadeia de suprimentos precisam de mais apoio. Isso significa que governos, corporações e instituições internacionais devem trabalhar juntos para investir em sistemas que ajudem os produtores a prosperar.

Desde a criação de cooperativas para mineradores artesanais até o financiamento de programas de treinamento para agricultura sustentável, esses investimentos aliviariam a pressão sobre os produtores e garantiriam que os padrões globais possam ser realmente atendidos.

Medir o que realmente importa

As métricas atuais de sustentabilidade focam demais em ganhos rápidos e resultados chamativos. O verdadeiro progresso acontece quando priorizamos melhorias incrementais e alcançáveis. Em vez de estabelecer metas impossíveis, precisamos criar padrões que reflitam a realidade da extração de recursos e recompensem mudanças significativas.

Trabalhar juntos para compartilhar a responsabilidade

Nenhuma entidade pode resolver isso sozinha. Parcerias público-privadas são essenciais para amplificar os esforços de sustentabilidade sem colocar todos os custos sobre os produtores.

Empresas que trabalham ativamente com comerciantes para resolver questões como rastreabilidade e conformidade já demonstraram que práticas justas e sustentáveis são possíveis, especialmente quando os governos apoiam essas iniciativas.

UMA VISÃO MAIS JUSTA DE SUSTENTABILIDADE

Sustentabilidade não pode significar simplesmente transferir o peso para as comunidades que sustentam as cadeias globais de suprimentos. Comerciantes, agricultores e mineradores não são apenas fornecedores de matéria-prima – são a base das indústrias que impulsionam o progresso mundial. Eles merecem reconhecimento, apoio e uma fatia justa dos benefícios.

Mão  sustentando o planeta ilustra conceito de sustentabilidade

Os modelos globais de sustentabilidade precisam mudar – e com urgência. Caso contrário, continuarão aprofundando desigualdades enquanto vendem a ilusão de progresso.

É hora de parar de fingir que esses sistemas funcionam, porque não funcionam. Precisamos criar modelos que reflitam os desafios reais das cadeias produtivas e que sejam justos, viáveis e verdadeiramente sustentáveis – para todos os envolvidos


SOBRE A AUTORA

Anu Adedoyin Adasolum é CEO da empresa de otimização de cadeia de suprimentos Sabi. saiba mais