Tecnologia transforma gases de navios em calcário e corta até 95% do CO₂
A tecnologia desenvolvida pela startup Seabound, é capaz de capturar até 95% do CO₂ emitido pelo escapamento dos navios

Parece um contêiner de transporte comum. Mas uma caixa metálica em uma fábrica de Londres tem como objetivo resolver um dos maiores desafios da indústria naval: como reduzir as emissões de CO₂ dos navios cargueiros.
A tecnologia, desenvolvida pela startup Seabound, é capaz de capturar até 95% do CO₂ emitido pelo escapamento dos navios. Agora, depois de anos de desenvolvimento e testes-piloto, a empresa se prepara para instalar um conjunto desses contêineres em um cargueiro, em sua primeira operação comercial.
“A indústria naval é um dos últimos setores difíceis de descarbonizar”, diz a CEO Alisha Fredriksson, de 30 anos, que cofundou a empresa em 2021 após trabalhar como consultora e perceber a necessidade de uma nova solução para o setor.
Combustíveis limpos, como metanol verde e amônia verde, já existem, mas ainda são escassos. “Ainda há uma oferta muito limitada desses combustíveis e eles devem custar de duas a três vezes mais do que os convencionais”, afirma. “Além disso, o setor enfrenta concorrência de outras indústrias, que normalmente conseguem pagar mais por eles.”
Além disso, navios cargueiros têm uma vida útil de décadas; as embarcações em operação hoje não conseguem mudar facilmente para novos combustíveis.
Enquanto a transição acontece lentamente, a startup tenta resolver o problema da poluição gerada pelas dezenas de milhares de navios que já estão nos mares. Em 2024, os cargueiros emitiram 973 milhões de toneladas de CO₂ – cerca de 2,5% das emissões globais.
TRANSFORMANDO POLUIÇÃO EM ROCHA SÓLIDA
Dentro dos contêineres modulares da empresa há milhões de pequenas esferas, do tamanho de bolinhas de gude, feitas de hidróxido de cálcio, também conhecido como cal. A caixa fica próxima ao motor e se conecta ao escapamento do navio. À medida que os gases passam pela cal, o CO₂ reage com o material e se transforma em calcário.

Cada esfera muda ligeiramente de cor – do branco para um tom esbranquiçado – à medida que captura carbono e fuligem do escapamento. Um único contêiner consegue reter aproximadamente um dia inteiro de poluição. Para cobrir uma rota completa, vários módulos são conectados entre si.
Quando o navio chega ao porto, um guindaste descarrega os contêineres cheios de carbonato de cálcio – “basicamente, uma caixa sofisticada cheia de pedras”, brinca Fredriksson. O calcário pode então ser vendido como material de construção.

Outra opção é reverter a reação química, extraindo novamente o CO₂ para que ele seja armazenado ou usado na produção de combustíveis ou produtos químicos. Nesse caso, a cal pode ser recarregada nos contêineres e devolvida ao navio para capturar mais CO₂.
Segundo Fredriksson, a tecnologia é simples o suficiente para ter um custo relativamente baixo quando ganhar escala. Todo o processo, porém, gera algumas emissões antes de entrar em operação, já que a cal precisa ser produzida e transportada. Ainda assim, a Seabound planeja trabalhar com versões de menor pegada de carbono, a chamada “cal verde”.
Inicialmente, embora a tecnologia consiga capturar até 95% do CO₂ diretamente do escapamento, a eficiência total de captura de todo o processo deve ficar mais próxima de 80%. Com o tempo, é viável reduzir as emissões em até 90%.
CAPTURA DE CARBONO NOS NAVIOS EM OPERAÇÃO
A startup começou trabalhando com clientes na Europa, onde regulações rigorosas estão pressionando o setor a reduzir rapidamente suas emissões.
Seu primeiro cliente, a Heidelberg Materials, vai começar a usar a tecnologia ainda este ano em um navio de transporte de cimento. Enquanto a embarcação navega pela costa da Noruega, os contêineres vão capturar o CO₂. Depois, a empresa vai utilizar o calcário em seus fornos para produzir cimento.
Na União Europeia, o transporte marítimo passou a estar totalmente sujeito ao sistema de comércio de emissões do bloco. Além disso, uma política paralela vem aumentando as multas sobre as emissões provenientes do combustível queimado por navios. As companhias de navegação também sofrem pressão de grandes clientes que têm metas climáticas ambiciosas.

A Seabound pretende focar inicialmente em rotas mais curtas, que permanecem dentro da Europa, montando operações nos portos onde os navios reabastecem. Mais adiante, o plano é expandir para a Ásia.
Hoje, há cerca de 60 mil navios cargueiros em operação no mundo. Adotar essa tecnologia em todos eles seria, obviamente, um enorme desafio – embora o setor já tenha passado por mudanças relevantes antes, como a instalação de sistemas de lavagem para capturar poluentes de enxofre.
Há quem argumente que a nova tecnologia cria um risco moral: as empresas poderiam demorar mais a adotar soluções de emissão zero se puderem recorrer à captura de carbono. Mas, para Fredriksson, diante do ritmo lento de adoção de combustíveis alternativos e de outras soluções, a captura de carbono é necessária.
Leia mais: Como reduzir a pegada do cimento, responsável por 8% das emissões de carbono
“Fundamos a Seabound há cerca de quatro anos e acho que os combustíveis do futuro ainda parecem tão distantes quanto pareciam quando comecei a empresa”, diz ela.
Se esses combustíveis alternativos se tornarem amplamente disponíveis, afirma, a tecnologia de captura de carbono ainda poderá ser usada para tratar a poluição emitida pelos navios. “Nesse caso, poderíamos ter um transporte marítimo com emissões negativas de carbono.”