Tem um pouquinho de Brasil dando volta na Lua com a Artemis II

Vídeo feito por brasileiros ajudou a testar o sistema de comunicação a laser da NASA, usado para transmitir dados do espaço profundo

missão espacial Artemis II
Crédito: NASA

Camila de Lira 3 minutos de leitura

A primeira missão tripulada à Lua desde 1972 tem um toque verde e amarelo. Os quatro astronautas da Artemis II se comunicam diariamente com o centro de controle da NASA usando sistemas que, no ano passado, foram testados com um vídeo produzido por brasileiros.

O curta-metragem de Fernando Grostein Andrade e Fernando Siqueira traz cenas da Bahia e imagens do país. Com 48 segundos, a obra, intitulada “Eu sou um teste”, foi usada pela agência espacial norte-americana para validar seu sistema de comunicação a laser.

A tecnologia de comunicação óptica com o espaço profundo do módulo do Orion, ou O2O, é uma das mais ambiciosas atualizações de sistemas que a NASA já colocou em prática desde os anos 70. 

O O2O é projetado para enviar dados de volta à Terra a velocidades de até 260 megabits por segundo, utilizando o laser. 

ARTEMIS II: UM PASSO ALÉM DO RÁDIO

Hoje, toda comunicação espacial – incluindo a de satélites de telecomunicações – é feita por ondas de rádio. O sistema testado pela NASA usa feixes de luz para transmitir dados.

A mudança é significativa. Com ela, é possível enviar até 100 vezes mais informação e alcançar distâncias ainda maiores, inclusive no espaço profundo. 

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Para ter uma ideia, com o sistema a diferença entre os vídeos enviados da Artemis II (que está na órbita da Lua) para a  base em Houston é de apenas um segundo.

A troca de informações também funciona para captação de vídeos em alta resolução e imagens super detalhadas. 

Terra vista da nave Orion, com superfície lunar em detalhe no primeiro plano
Crédito: NASA

As fotografias de tirar o fôlego do lado oculto da Lua funcionam muito mais do que para impressionar o público. Elas servem para que cientistas que estão na Terra possam analisar a Lua e o espaço – difíceis de se observar com os telescópios atuais – com mais precisão. 

No futuro, a conectividade contínua de mão dupla também poderá permitir que cientistas operem veículos remotamente e monitorem infraestruturas críticas na Lua. E, quem sabe, chegarem a Marte com uma conexão direta.

UM POUCO DE CONEXÃO E EMOÇÃO

Em 2024, o curta brasileiro foi usado em um experimento da missão Psyche, da NASA, que testou a tecnologia de comunicação óptica no espaço profundo. 

Transmitido por feixe de laser, o vídeo percorreu cerca de 470 milhões de quilômetros, cruzando a órbita de Marte – a maior distância já alcançada por esse tipo de sistema. Para se ter ideia da grandeza: é 80 vezes a distância entre a Terra e a Lua.

O sucesso da transmissão foi comemorado pela NASA na época e considerado um passo essencial para decidir o uso da tecnologia na espaçonave Orion, que faz parte da missão Artemis II. 

O vídeo de Fernando Grostein Andrade, cineasta por trás de documentários como “Quebrando o Tabu”, fala sobre a conexão indescritível e inabalável que surge entre pessoas. As imagens mostram toques e risadas, ações tão humanas que ultrapassam qualquer tecnologia.

O tema não foi um detalhe e pareceu ecoar em um dos momentos mais tocantes da missão Artemis II até o momento: quando os astronautas nomearam uma cratera lunar em homenagem a Carroll Taylor Wiseman, falecida esposa do comandante da missão, Reid Wiseman.

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A cena foi transmitida ao vivo usando a tecnologia O2O e levou muitos na Terra às lágrimas. Mesmo tão distantes, os quatro tripulantes da Orion nunca estiveram tão perto.


SOBRE A AUTORA

Camila de Lira é jornalista formada pela ECA-USP, early adopter de tecnologias (e curiosa nata) e especializada em storytelling para n... saiba mais