Toronto troca estacionamentos por “ruas-esponja” contra enchentes

Projeto urbanístico transforma vias em corredores verdes capazes de reduzir calor e absorver água da chuva

cidade de Toronto adota sistema de ruas-esponja contra enchentes
Crédito: Waterfront Toronto

Adele Peters 3 minutos de leitura

Para criar espaço para mais moradias sem perder áreas verdes, urbanistas de um novo bairro em Toronto inverteram a lógica tradicional do planejamento urbano: em vez de reservar áreas específicas para parques e praças, decidiram fazer as ruas cumprirem esse papel.

“A rua funciona quase como um pátio público”, diz Rasmus Astrup, diretor de design e sócio da SLA, escritório dinamarquês que participou do projeto do novo bairro, chamado Ookwemin Minising.

A principal avenida será livre de carros, “como um parque linear”, afirma Astrup, e terá cerca de 400 árvores. Outras ruas permitirão circulação de veículos, mas priorizando grandes áreas verdes.

O projeto oferece espaços públicos aos moradores e, ao mesmo tempo, funciona como infraestrutura climática, ajudando a reduzir ilhas de calor, apoiar a biodiversidade e absorver água durante tempestades.

REPENSANDO O DESENVOLVIMENTO URBANO

A região, ao sul do centro de Toronto, onde o rio Don encontra o lago Ontário, era uma área industrial. Há mais de um século, a cidade canalizou parte do rio e aterrou áreas úmidas para abrir espaço para fábricas.

A infraestrutura antiga não funcionou bem: tanto o rio quanto a zona industrial ficaram poluídos e as alterações no curso d’água aumentaram o risco de enchentes.

Mas, ao longo de um gigantesco projeto de revitalização que durou décadas, o governo local limpou a orla, redesenhou o rio para um formato mais natural e criou novas áreas verdes voltadas à proteção contra enchentes. O projeto acabou formando uma ilha onde o novo bairro será construído.

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Crédito: Waterfront Toronto

O plano original do bairro, divulgado há dois anos, previa ruas típicas da América do Norte: largas, voltadas para carros e cercadas por blocos uniformes de apartamentos.

Após críticas da comunidade, a agência pública responsável pelo projeto, Waterfront Toronto, percebeu que o bairro precisava de mais apartamentos para ajudar a enfrentar a crise habitacional da cidade.

Uma nova equipe de design foi contratada (incluindo a SLA) com a missão de aumentar a densidade habitacional em 27%.

“Pensamos: como vamos fazer isso? Não temos espaço”, conta Astrup. A solução foi reinventar o conceito de rua, transformando-a em espaço urbano multifuncional. “A rua é onde você passa o tempo, lê um livro, senta”, afirma.

O projeto elimina estacionamento nas vias para abrir espaço a vegetação e áreas de convivência. As árvores não ficam apenas alinhadas nas calçadas, como acontece normalmente, mas avançam para dentro da rua, obrigando carros a seguir trajetos sinuosos e mais lentos.

Em um dos trechos, a chamada “Sandbar Trail” acompanha o caminho de um antigo banco de areia e será preenchida por vegetação.As árvores também serão plantadas em combinações naturais de espécies diferentes.

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“Isso só funciona porque o espaço é preenchido pela natureza”, diz Astrup. “Não funcionaria se fosse apenas asfalto e concreto.”

CONTROLANDO O FLUXO DA ÁGUA

A chamada abordagem “esponja” para desenho urbano, baseada em infraestrutura verde, não é exatamente nova. Mas normalmente ela é aplicada de forma pontual em ruas já existentes. Como o novo bairro está sendo construído do zero, os urbanistas puderam repensar toda a lógica do sistema.

A ilha não é completamente plana, então a equipe começou analisando como a topografia natural direciona o fluxo da água.

Os designers também quiseram evitar o modelo tradicional de grade urbana. “É um sistema extremamente racional e altamente engenheirado que não tem nada a ver com os fluxos naturais da natureza e, na verdade, é frágil”, afirma Astrup.

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Crédito: Waterfront Toronto

As ruas terão inclinações suaves que conduzem a água para bioswales (canais vegetados projetados para absorver água da chuva). As vias também contarão com sistemas convencionais de drenagem, mas a natureza será a primeira barreira de captura e armazenamento da água.

As plantas e tipos de solo usados em cada bioswale foram escolhidos tanto pelas necessidades de drenagem quanto por objetivos ligados à biodiversidade.

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Outros parceiros do projeto, como Trophic Design e Monumental, incorporaram princípios indígenas de convivência com outras espécies. Além disso, uma rede contínua de áreas verdes vai ajudar animais a circular pelo bairro.

Segundo Astrup, outras cidades poderiam adotar abordagens semelhantes. “Acho que precisamos redefinir o que significa desenvolvimento urbano”, afirma.


SOBRE A AUTORA

Adele Peters é redatora da Fast Company. Ela se concentra em fazer reportagens para solucionar alguns dos maiores problemas do mundo, ... saiba mais