Usar IA gasta água? Entenda o que são os data centers e como funcionam

A água é usada principalmente em sistemas de resfriamento, evaporando em 80%

Foto: Freepik IA

Joyce Canelle 4 minutos de leitura

O avanço acelerado da inteligência artificial (IA) ao longo de 2024 e 2025 trouxe um efeito colateral pouco discutido fora do setor de tecnologia. Cada comando enviado a sistemas de IA ativa uma estrutura física que consome grandes volumes de água.

Esses sistemas operam em data centers espalhados pelo mundo e utilizam água principalmente para resfriamento. O tema ganhou força diante da expansão dessas instalações e do aumento da pressão sobre recursos hídricos em várias regiões.

O QUE SÃO DATA CENTERS

Data centers são estruturas que concentram servidores responsáveis por armazenar e processar dados, é nesses ambientes que funcionam plataformas de streaming, redes sociais, serviços bancários e ferramentas de IA.

Esses prédios operam 24 horas por dia, dentro deles há milhares de equipamentos eletrônicos organizados em rackse o processamento intenso gera calor constante. Se a temperatura sobe além do limite adequado, há risco de falhas, perda de dados e interrupção de serviços.

Por isso, o controle térmico é essencial, e é nesse ponto que o consumo de água se torna significativo.

POR QUE A IA AUMENTA O CONSUMO DE ÁGUA?

Modelos de IA exigem alto poder computacional, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Riverside estimam que um comando de 100 palavras em sistemas de IA pode consumir cerca de 519 mililitros de água ao considerar o processo de resfriamento envolvido.

Pode parecer pouco em uma única interação, o problema está na escala, milhões de usuários utilizam essas ferramentas a cada minuto no mundo todo.

Grandes centros de dados podem consumir até 5 milhões de galões de água por dia, em alguns casos o volume anual chega a 1,8 bilhão de galões, equivalente ao consumo de uma cidade de médio porte.

Nos Estados Unidos, um relatório apontou que os data centers consumiram cerca de 449 milhões de galões de água por dia em 2021, a tendência é de crescimento à medida que estruturas maiores são construídas para atender à demanda por IA.

COMO A ÁGUA É UTILIZADA

A água é usada principalmente em sistemas de resfriamento, muitos data centers adotam torres de resfriamento evaporativo. Parte significativa da água captada evapora durante o processo. Pesquisadores indicam que cerca de 80% da água retirada por esses centros acaba evaporando. O restante retorna como efluente para sistemas de tratamento.

Além do consumo direto nas instalações, existe o uso indireto, parte da eletricidade que alimenta os servidores vem de usinas termelétricas que também utilizam grandes volumes de água para geração de energia. Assim, a pegada hídrica inclui tanto a operação local quanto a produção da eletricidade consumida.

Outro ponto relevante está na fabricação dos chips, a produção de semicondutores exige água ultrapura em grandes quantidades. Uma fábrica pode consumir cerca de 10 milhões de galões por dia nesse processo.

IMPACTO NAS COMUNIDADES

O crescimento dos data centers já provoca efeitos em regiões onde a água é limitada, no norte da Virgínia/EUA, considerado um dos maiores polos de data centers do mundo, o consumo chegou a cerca de 2 bilhões de galões em 2023.

Em áreas sujeitas à seca, a expansão dessas estruturas levanta questionamentos sobre prioridade no uso da água, comunidades locais dependem do mesmo recurso para abastecimento doméstico e agricultura. A projeção da World Wildlife Federation aponta que 66% da população global pode enfrentar algum nível de escassez hídrica nos próximos anos. O cenário amplia o debate sobre a necessidade de gestão responsável, segundo a Water Tech Solutions.

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CAMINHOS PARA REDUZIR O CONSUMO

O setor tem buscado alternativas para reduzir a pressão sobre recursos hídricos, sistemas de circuito fechado permitem reutilizar a água diversas vezes antes do descarte. Algumas tecnologias prometem cortar o uso de água doce em até 70%. O resfriamento por imersão e o resfriamento líquido direto no chip também aparecem como soluções mais eficientes, e essas técnicas diminuem a necessidade de torres evaporativas tradicionais.

Outra estratégia é priorizar fontes de energia renováveis, usinas solares e eólicas praticamente não utilizam água no processo de geração, diferentemente de termelétricas movidas a carvão ou gás natural.

Empresas do setor de tratamento hídrico também desenvolvem plataformas para monitorar a chamada Eficiência do Uso da Água, métrica que relaciona o volume consumido à energia utilizada. O objetivo é tornar a operação mais transparente e eficiente.

O DESAFIO DA EXPANSÃO DIGITAL

A digitalização da economia é irreversível, estudos indicam que a maioria das grandes empresas já utiliza ou testa inteligência artificial, e ao mesmo tempo, novos data centers estão sendo anunciados, inclusive no Brasil.

Em dezembro de 2023, o Tiktok anunciou o primeiro data center do Brasil. Segundo a Fast Company Brasil, O empreendimento será instalado no Complexo Industrial e Portuário do Pecém e representa um dos maiores investimentos já feitos por uma empresa de tecnologia no Brasil, com previsão de R$ 200 bilhões ao longo das próximas duas décadas.

O novo data center do TikTok consolida o Ceará como polo estratégico de tecnologia e energia renovável.

A discussão sobre energia já ocupa espaço relevante no debate público, a água começa agora a entrar na pauta e o funcionamento da IA depende de infraestrutura física robusta.


SOBRE O(A) AUTOR(A)

Bacharel em Jornalismo, com trajetória em redação, assessoria de imprensa e rádio, comprometida com a comunicação eficiente e a produç... saiba mais