Quando denunciar não basta: mulheres criam novas redes contra a violência digital

Rede JP combina formação, apoio especializado e inteligência artificial para ampliar a proteção de mulheres expostas a ataques online.

Ilustração sobre violência digital contra mulheres e redes de proteção online
Créditos: Natalia via Adobe Stock / olia danilevich via Pexels

Beatriz Felizardo 5 minutos de leitura
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Uma conta invadida. Dados pessoais vazados. Ameaças, perseguição e campanhas de ódio nas redes. A violência digital contra mulheres assume diferentes formas e atinge com mais intensidade mulheres negras, pessoas LGBTQIA+, populações periféricas, ativistas, defensoras de direitos humanos e pessoas que ocupam cargos políticos.

O cenário aparece no estudo Regime de ameaça: a violência política de gênero e raça no âmbito digital, divulgado pelo Instituto Marielle Franco em 2025. Diante de um ataque, porém, há uma pergunta que os mecanismos tradicionais de denúncia nem sempre conseguem responder: o que acontece depois?

As plataformas digitais oferecem canais para reportar conteúdos abusivos. Na prática, porém, a resposta pode ser limitada. Uma análise da Revista AzMina identificou que apenas duas em cada dez ofensas dirigidas a jornalistas negras ou indígenas foram retiradas do ar.

Para quem está no centro dos ataques, o problema pode continuar mesmo depois da denúncia.

Os efeitos também escapam das telas. Um relatório global da Unesco, em parceria com o International Center for Journalists, mostrou que 20% das mulheres jornalistas entrevistadas abandonaram toda interação online após sofrer ataques. Outras 20% relataram episódios de violência fora das telas que acreditavam ter começado no ambiente digital.

QUANDO DENUNCIAR NÃO É SUFICIENTE

Um ataque digital pode exigir decisões rápidas justamente quando a vítima está mais vulnerável. Um guia lançado pelo Supremo Tribunal Federal recomenda guardar provas, como capturas de tela e links, evitar responder às agressões, reforçar a proteção das contas com autenticação em dois fatores e buscar orientação jurídica.

Colocar tudo isso em prática, porém, exige conhecimento, tempo e apoio.

A dificuldade tampouco termina no envio da denúncia. Uma reportagem da Agência Pública com mulheres jornalistas mostrou casos em que ameaças explícitas e ofensas misóginas permaneceram no ar. As entrevistadas relataram processos demorados, respostas automáticas e pouca informação sobre as providências tomadas pelas plataformas.

É nesse espaço entre o ataque, a denúncia e uma resposta efetiva que começam a surgir novas redes de proteção.

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UMA REDE PARA RESPONDER AOS ATAQUES

Fundada em 2018 para promover equidade e ampliar a diversidade no jornalismo brasileiro, a Rede de Jornalistas Pretos (Rede JP) identificou a necessidade de criar mecanismos para ajudar mulheres negras a permanecer em espaços de visibilidade pública sem enfrentar sozinhas os riscos associados a essa exposição.

A partir dessa demanda nasceu a REPCONE, Rede de Proteção Digital para Comunicadoras Negras. O projeto reúne formação, cuidado, orientação especializada, resposta a ataques e ferramentas de segurança digital.

Na primeira edição, em 2025, o programa reuniu 50 participantes e registrou alcance estimado de 17,1 milhões de pessoas. Em 2026, a iniciativa ampliou o foco para a América Latina, com a seleção de 30 jornalistas, ativistas, lideranças comunitárias e pesquisadoras. A prioridade são mulheres expostas a contextos de maior risco e invisibilidade estrutural.

“Buscamos criar uma estrutura permanente de apoio para que essas mulheres não enfrentem a violência digital sozinhas”, afirma Marcelle Chagas, coordenadora-geral da Rede JP.

A nova fase inclui também o Latinas IA, agente digital criado para oferecer suporte contínuo a mulheres em situação de vulnerabilidade na América Latina.

A proposta é concentrar, em um mesmo ambiente, orientações práticas sobre segurança digital e os primeiros passos diante de um ataque. Trata-se de uma camada de resposta imediata para quem precisa decidir rapidamente o que registrar, como proteger suas contas e onde procurar ajuda.

A ferramenta surge em um contexto no qual a inteligência artificial apresenta uma dupla face: pode ser usada para ampliar ataques, fabricar imagens e automatizar perseguições, mas também pode apoiar ações de prevenção e proteção. Os novos riscos criados pela IA para meninas e mulheres tornam essa disputa ainda mais urgente.

OS ATAQUES ESTÃO CRESCENDO

As ocorrências de violência contra mulheres em ambientes digitais registradas pelo Ligue 180 cresceram 188,6% em um ano, segundo dados divulgados pelo Ministério das Mulheres.

Entre janeiro e maio de 2026, foram registradas 16.725 ocorrências, diante de 5.795 no mesmo período de 2025. O aumento pode refletir tanto o crescimento da violência quanto uma redução da subnotificação, associada à maior procura pelo canal.

Os dados também mostram que os ataques não atingem todas as mulheres da mesma maneira. Em 2025, mulheres negras correspondiam a 48% das vítimas identificadas nos registros do Ligue 180.

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PROTEÇÃO DIGITAL TAMBÉM É CONDIÇÃO DE PERMANÊNCIA

A violência digital não produz apenas danos individuais. Quando jornalistas, ativistas, pesquisadoras e lideranças abandonam as redes ou reduzem sua participação por medo, o debate público também perde vozes e perspectivas.

Por isso, responsabilizar exclusivamente a vítima pela própria segurança é insuficiente. A resposta envolve plataformas, autoridades, organizações, veículos de comunicação e redes capazes de oferecer apoio jurídico, técnico e emocional.

O debate regulatório também avança no país. Novas regras brasileiras ampliaram as obrigações das plataformas diante de conteúdos ilegais e ataques praticados no ambiente digital. Ainda assim, transformar normas em proteção efetiva depende da velocidade da resposta e da capacidade de acolher quem está sob ataque.

Iniciativas como a REPCONE procuram ocupar uma lacuna concreta: o período entre a primeira agressão e a chegada de uma resposta institucional. O Latinas IA pretende orientar os primeiros passos, mas casos de risco imediato continuam exigindo atendimento oficial e apoio especializado.

Denunciar continua necessário, mas a denúncia, sozinha, não garante que o ataque cesse nem que a vítima consiga permanecer online.

Proteger mulheres no ambiente digital também significa garantir que elas possam continuar trabalhando, comunicando, participando da vida pública e ocupando espaços de visibilidade sem enfrentar a violência em isolamento.


SOBRE A AUTORA

Beatriz Felizardo é estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, apaixonada por direitos humanos e curiosa sobre as transformaç... saiba mais