Lives, Zoom, videoconferências: em maio de 2020, enquanto o mundo se deparava com novas formas de trabalhar, entreter-se e conectar-se, em função do isolamento social provocado pela pandemia, esses eram alguns dos termos que dominavam as conversas. De forma tímida, porém, uma plataforma de áudio, restrita a usuários do sistema iOS, da Apple, criada pela empresa Alpha Exploration, nos Estados Unidos, saía da casa de dezenas para ultrapassar pouco mais de 1,5 mil usuários. Seus fundadores, Paul Davison e Rohan Seth, ex-googlers, mal imaginavam que, dez meses depois, o Clubhouse, como foi batizado, viraria uma febre também no Brasil. Uma febre, vale frisar, nichada, mas tão intensa a ponto de causar euforia em públicos distintos e diversos que vai de CEOs a artistas de TV, passando por investidores e pesquisadores.

Na ocasião, quando o Clubhouse ainda era, de fato, um clube, o fundo Andreessen Horowitz investiu US$ 10 milhões na plataforma. No último sábado, 6 de fevereiro, mais de 6 milhões de pessoas já povoavam as milhares de salas abertas e privadas dentro da nova rede social que já chegou a US$ 1 bilhão em valor de mercado. Levantamento da Conversion, agência especializada em Search Engine Optimization (SEO), identificou que, neste início de fevereiro, as buscas pelo app cresceram 100 vezes no Brasil. Se lá fora foi Elon Musk que ajudou a popularizar a plataforma, no Brasil, nomes como Flávio Augusto, Thiago Nigro, Nathalia Arcuri, Boninho, Guilherme Benchimol e outras lideranças e celebridades deram sua contribuição.

“Ainda é muito cedo para dizer o que vai acontecer com o Clubhouse, se ele é apenas um hype ou se vai se consolidar. O ponto é que faltava uma rede social de áudio. Os brasileiros, especialmente, amam conteúdo por áudio e isso vem fazendo a diferença”, analisa Diego Ivo, fundador e CEO da Conversion. Outro levantamento, da plataforma Knewin Social, realizado de 5 a 9 de fevereiro, mostra que o pico de menções ao aplicativo ocorreu na segunda, 8 de fevereiro, sobretudo pelo interesse da imprensa pelo assunto. Entre os temas mais comentados nestes dias estão pedidos de convite para entrar na rede, reclamações da disponibilidade somente para iOS, a qualidade das conversas e a inevitável comparação com o Orkut. As hashtags #clubhouse, #clubhouseinvite e #clubhouseconvite foram as mais utilizadas no período monitorado.

Na história de quase três décadas de internet comercial no Brasil, não é a primeira e nem a última vez que uma novidade tecnológica causa euforia por aqui. No entanto, vale considerar a característica efêmera de algumas delas. E o fechamento de um ciclo de outras. O que dizer do Orkut, descontinuado em 2014, mas pioneiro em muitos aspectos? E o Google +, que teve breves seis anos de vida e, para muitos, sequer deixa saudade? O MySpace, criado em 2003, virou o símbolo de uma geração, mas perdeu paulatinamente sua relevância. Mal teve tempo de se firmar e o Snapchat se viu diretamente afetado pela concorrência do Instagram. A lista é longa. Mas o que determina o período de vida de uma rede social? O próprio Facebook é posto à prova com frequência sobre por quanto tempo ainda manterá sua relevância. São muitas as variáveis para compor essas respostas, e, de fato, ainda existe um longo caminho para entender o tempo de vida do Clubhouse. Inclusive, porque ele nem chegou às mãos dos 86,3% de donos de smartphones do Brasil cujo sistema operacional é o Android.

COMUNIDADES E TEMPO REAL

Sob a ótica positiva da novidade, existem vários elementos que fazem do Clubhouse o sucesso deste momento. Elena Crescia, curadora do TEDxSãoPaulo, não lembra o que a motivou a aceitar o convite para entrar na plataforma. Porém, compreende que, os últimos cinco dias, tempo em que ela já criou várias salas e participou de dezenas de outras, valeram por semanas. “Consigo imaginar algumas oportunidades de parcerias que surgiram com pessoas que conheci nas salas do Clubhouse. Acredito que a forma de fazer pesquisa e decisões de curadoria pode mudar bastante. Para quem faz eventos, por exemplo, será necessário repensar a forma de organizar e curar”, explica Elena que, inclusive, criou uma maneira de comunicar sua rede e outras pessoas quando começam novas discussões na plataforma utilizando, por exemplo, o WhatsApp.

Simone Kliass, locutora publicitária, embaixadora do Women in Voice Lead e SXSW speaker, vem observando o app como um experimento, sobretudo para quem pesquisa plataformas de voz. “O sucesso do Clubhouse é consequência do boom do áudio que já vivenciávamos com o podcast e os assistentes de voz”. Apesar da aparente democracia de interação da plataforma, a moderação é um desafio, segundo Simone. “O moderador precisa saber ler o ambiente mesmo sem interações escritas. O que vejo que mais funciona são salas moderadas por pessoas experientes, que pensam na audiência, distribuem o tempo entre os palestrantes, fazem perguntas que estimulam a discussão e interagem com os participantes. Como não temos uma ferramenta para envio de mensagens, vale tudo”, destaca.

O IMPACTO DOS NEGÓCIOS

Mas qual o impacto, de fato, para a dinâmica de negócios? Sobretudo, pela quantidade de C-Levels e lideranças que estão na plataforma? Cleber Paradela, diretor de brand experience da 99, explica que, no curto prazo, a ferramenta é útil para networking e aprendizado. “Nessas primeiras semanas, que atraiu muitas pessoas de inovação e tecnologia, o app se tornou uma espécie de SXSW, um dos maiores festivais de inovação do mundo, por voz e gratuito, com bate-papos app ao vivo com personalidades.  E, em breve, poderá se expandir para entretenimento, música, política, esportes, religião e outros temas”. No caso da 99, explica Paradela, existem as possibilidades, por exemplo, de criar papos recorrentes ao vivo com os motoristas da plataforma enquanto dirigem.

Gabriela Onofre, CMO da startup Único, afirma que já vem utilizando a ferramenta como elemento de alinhamentos rápidos entre o time e relacionamento com. “Tenho acompanhado já alguns grupos, seguindo pessoas que me interessam e percebo uma simplicidade misturada com instantaneidade que ajuda bastante quem precisa se conectar de forma rápida”. Em meio ao entusiasmo, muitos classificaram o aplicativo como ágora, ou praça pública de discussões, mas como pensar em democratização se ele ainda é restrito a usuários de um determinado sistema? Fernanda Belfort, fundadora da Tribo de Marketing, entende que as alavancas de escassez e exclusividade são exatamente as responsáveis pelo interesse. “Mas a verdadeira prova vem depois, se ele vai conseguir se manter relevante e efetivamente entrar no hábito das pessoas. Ainda mais para uma ferramenta que é obrigatoriamente ‘sincerona’ — diferente de todas as outras redes sociais nas quais você pode consumir o conteúdo quando quiser, o Clubhouse tem que ser ao vivo.”

SAÚDE MENTAL E AMBIENTE TÓXICO

Se existe uma discussão inerente ao universo das redes sociais e o Clubhouse não fica fora dela é a toxicidade e o efeito na saúde mental dos usuários. No Brasil, nos primeiros dias, mensagens apontavam um olhar oposto à euforia de alguns usuários que circularam em vários grupos de WhatsApp. “Muita conversinha pouca conversão”, escreveu um executivo de marketing no WhatsApp. Uma analista de tendências chamou a atenção para o tempo que a plataforma demanda. “Ontem, por exemplo, vi que me desconectei das pessoas daqui de casa como se tivesse fora em um evento. Acho que dei uma cansada rápida e real, rolou uma overdose e os assuntos começaram a entrar em looping.”

“Como toda grande inovação tecnológica, o Clubhouse já nasce com algumas questões que têm gerado alertas. Existe uma preocupação sobre o grande alcance que a plataforma pode permitir de pessoas simultâneas em uma mesma sala, com possibilidade de dar microfone a anônimos falarem para todos. Daí podem surgir haters, discursos de ódio, racismo, homofobia e xenofobia”, alerta Paradela, da 99. Em outubro do ano passado, o Clubhouse emitiu um comunicado condenando tais atitudes, e deu aos moderadores da sala o poder de denúncia, silenciamento e expulsão. Em caso de expulsão, a pessoa que convidou o agressor para a plataforma também é banida. “Um outro ponto sensível é a plataforma criar bolhas através do algoritmo, dando a sensação de que todos a volta compactuam com o mesmo pensamento que você. As salas de discussão são apresentadas ao usuário de acordo com os interesses, pessoas que segue e hábitos de consumo”, analisa.

Marcelo Trevisani, CMO da IBM, alerta para um elemento que é fator preocupante para outras redes no longo prazo caso o Clubhouse deixe de ser nicho: share of screen. “Eu, por exemplo, tive dias que não abri o Instagram para ficar apenas no Clubhouse”, explica. Sobre a questão de privacidade e segurança da plataforma, Trevisani sinaliza que, neste momento, existem regras claras indicando, por exemplo, os alertas de gravação de conversa e casos já conhecidos de banimento dos usuários em função de racismo. “O tema da privacidade me chama bastante a atenção a partir do momento que, na euforia em ter tido a ‘honra de ser convidado’, ou a expectativa de ser ‘aceito’ por um membro, muita gente deixa a plataforma ter acesso aos seus contatos. Ou seja, a plataforma está compilando os dados até de quem ainda não está nela — e não concordou ou consentiu com termo algum”, avalia Fernanda Belfort. Outro ponto levantado por alguns usuários é o acesso por deficientes auditivos, considerando que a plataforma não possui recursos de legenda e transcrição, por exemplo.

DESCONSTRUINDO O CLUBHOUSE

A primeira versão do app foi desenvolvida em uma semana tendo a plataforma Agora.io como base, uma plataforma terceirizada também conhecida como Communication Platform as a Service (CPaaS). De acordo com Rodrigo Helcer, CEO da Stilingue, essa plataforma permite a criação rápida e com baixo investimento de funcionalidades de engajamento social via áudio e vídeo.  “Neste sentido, copiar o Clubhouse é muito fácil, mas replicar o efeito de rede que ele vem criando é que será o grande desafio”, explica. Ainda segundo Helcer, a “genialidade” por trás do aplicativo não está na tecnologia, mas na UX fácil e no fator social. “Este acerto social, certeiro no formato de uso fácil e na hora certa pela pandemia, muito provavelmente nos provará que a barreira competitiva desse tipo de ideia também virá do campo social, de quem tiver o melhor network effect”.

Ainda sobre a tecnologia por trás do Clubhouse, Helcer explica que o algoritmo base da estrutura de áudio é genérico e acessível a qualquer um e, além do elemento social já mencionado, segurança será outro elemento que determinará o futuro do app. “O efeito benéfico ou maléfico dos conteúdos recomendados ao usuário seguramente dependerá das decisões de seus fundadores e investidores quanto ao modelo de receita, ainda não revelado, na tentação que poucos no Vale do Silício resistiram: dinheiro. Se Clubhouse der certo, terão em posse o famoso “network power”, isto é, a capacidade de influenciar uma grande massa de pessoas conectadas. E não é novidade que o poder é causa de muitos ‘bugs’ que fogem das preocupações tecnológicas, em como essa influência será administrada.

Nem somente de euforia e entusiasmos vivem as redes sociais. Em determinado momento a questão sobre como monetizar chega. Segundo análise da XP Investimentos, emitida nesta semana, a “empresa é tão nova que ainda não possui um modelo de negócios, apesar das várias possibilidades de monetização: assinatura, tickets para chats específicos, gorjetas à criadores”. A análise também aponta que, para as big techs, o entrante ainda não representa uma grande ameaça, mas consolida a popularidade do áudio como meio de comunicação. Movimentos neste mercado, inclusive, são frequentes e relevantes. Em janeiro, a Amazon pagou US$ 350 milhões pela Wondery, uma das maiores produtoras de podcast do mundo. O Twitter, tenta impulsionar o Spaces, chat entre usuários que pode, de alguma forma, fazer frente ao Clubhouse.

 

SOBRE O AUTOR

Luiz Gustavo Pacete é editor-contribuinte da Fast Company Brasil