Aquisições de startups alertam para guerra por talentos de IA

Em meio à disputa por especialistas em IA, reguladores questionam acordos que evitam aquisições formais

Aquisições de startups alertam EUA para guerra por talentos de IA
allanswart via Getty Images, Etactics Inc via Unsplash

Chris Stokel-Walker 6 minutos de leitura

Nos Estados Unidos, algumas aquisições de alto perfil eliminam um concorrente em ascensão, como a do FriendFeed pelo Facebook em 2009. Outras expandem imediatamente o portfólio de ofertas de uma empresa, como a compra do Slack pela Salesforce em 2020. Outras ainda podem se transformar em um ativo irreconhecível, como a compra da Alexa Internet pela Amazon em 1999, na época um site de monitoramento de tráfego web. (O primeiro Amazon Echo, marcando a estreia da Alexa, seria lançado em 2014.)

Mas muitas aquisições de empresas de tecnologia de menor visibilidade são feitas, pelo menos em parte, para obter acesso a talentos de engenharia especializados. As chamadas "aquisições com foco em contratação" tradicionalmente não causavam muita surpresa. Mas a definição do termo tem se expandido à medida que a corrida armamentista da IA ​​acelerou uma nova forma de aquisição tácita, a "aquisição reversa com foco em contratação".

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Nesse movimento, que tecnicamente não é uma aquisição, uma empresa adquire uma participação minoritária em outra ou não faz nenhum investimento financeiro. No entanto, ela contrata um ou mais fundadores ou membros-chave da equipe executiva. Isso pode deixar o negócio adquirido por meio de "aquisição reversa de talentos" sem rumo ou impedir que funcionários menos experientes tenham acesso a oportunidades de emprego ou liquidez. Também pode permitir que a companhia que realiza a aquisição reversa evite o tipo de processo e supervisão que acompanham uma aquisição formal.

COMPORTAMENTO ESTÁ SOB OBSERVAÇÃO

A Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC) afirmou que está começando a examinar com mais atenção tanto as aquisições reversas quanto as tradicionais, dado o seu potencial para abusos. "A resposta clássica é evitar o escrutínio regulatório, certo?", diz Kyle Jensen, professor de empreendedorismo na Yale School of Management. "Principalmente o escrutínio antitruste."

Uma aquisição formal pode desencadear análises de fusões e aquisições e fornecer aos reguladores um conjunto claro de documentos, avaliações e direitos de controle para questionar e decidir se a concorrência saudável foi ou não prejudicada.

As aquisições reversas não fazem nada disso. Assim, a FTC está começando a questionar se a contratação da equipe é basicamente a mesma coisa que comprar uma empresa (o que corrigiria a distorção da definição do termo), mas evitando o escrutínio regulatório.

“Pelo que entendi, [a FTC] realmente quer criar uma posição mais equitativa entre as aquisições padrão e as chamadas aquisições reversas”, diz Igor Letina, professor associado da Universidade de Berna, na Suíça, falando em caráter acadêmico. (Letina também é vice-presidente da Comissão Suíça da Concorrência.) “O que eles estão sinalizando é que examinarão ambos os tipos de negócios da mesma forma, de acordo com o mesmo padrão, e garantirão que estejam em conformidade com as leis antitruste.”

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Letina se mostra cauteloso quanto a qualquer tentativa de chamar isso de repressão por parte da FTC. Mas a decisão da Comissão pode ter enormes ramificações para o setor. As aquisições reversas são saídas convenientes para a equipe executiva. Se as saídas mais rápidas se tornarem mais difíceis, o que acontecerá com as contratações, com as promessas de participação acionária — e com a ideia de que uma “aterrissagem suave” é sempre uma opção ao criar uma empresa?

A IMPORTÂNCIA DAS FUSÕES E AQUISIÇÕES

Fusões e aquisições têm sido fundamentais para o mundo dos negócios há muito tempo, argumenta S. Somasegar, diretor administrativo do Madrona Venture Group, uma empresa de capital de risco com sede em Seattle. É assim que as empresas podem adquirir talentos, clientes e tecnologia.

Mas, particularmente com o imperativo urgente de acessar os principais talentos em IA, a estrutura estratégica das grandes empresas mudou nos últimos anos de “construir, comprar ou fazer parceria” para “construir, comprar e fazer parceria” — um cenário ideal para aquisições reversas com contratação. “É uma estrutura um tanto nova”, diz ele.

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De fato, essa estrutura está se tornando familiar: uma grande empresa de tecnologia contrata um fundador e uma parte da equipe, enquanto firma um contrato de licenciamento ou de prestação de serviços com o que restou da startup. O Google contratou os cofundadores da Character.AI, Noam Shazeer e Daniel de Freitas, em agosto de 2024 e licenciou sua tecnologia, tudo isso sem investir nela. Em junho de 2025, a Meta adquiriu 49% da Scale AI por US$ 14,8 bilhões e nomeou o cofundador Alexandr Wang como diretor de IA da Meta.

Dado o quão semelhante é o impacto a uma aquisição, Letina acredita que as autoridades de defesa da concorrência devem tratá-la dessa forma. "Não devemos nos concentrar na forma", afirma. "Devemos nos concentrar na essência econômica. Trata-se de uma aquisição de ativos ou não?"

A IMPORTÂNCIA DAS PESSOAS PARA O COMPRADOR

Nem todos consideram as aquisições reversas com contratação de funcionários inerentemente suspeitas. Para Jensen, existem muitos motivos legítimos pelos quais um comprador pode preferir pessoas à entidade corporativa. "Há uma empresa com pessoas realmente talentosas", diz ele. "As coisas não deram certo. Talvez a empresa tenha muitas dívidas e ativos problemáticos. Ninguém quer isso." O perigo, sugere ele, surge quando um negócio deixa de ser "apenas uma contratação" e passa a operar como uma "aquisição paralela".

mãos digitando no teclado de um laptop
Crédito: Pony Wang/ Getty Images

O problema é o que fazer a respeito. Se tais acordos se tornarem tão arriscados em termos de regulamentação a ponto de grandes empresas deixarem de realizá-los, a tomada de decisões dos empreendedores poderá começar a mudar.

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Todo fundador quer que sua empresa tenha sucesso, mas um bom plano B é sair do negócio vendendo a equipe principal. Se essa opção for bloqueada, isso pode Isso afetaria a taxa de criação de novas startups.

Os indivíduos nas startups também podem perder a liberdade de escolher se querem trabalhar para uma possível empresa adquirente, argumenta Jensen. "Estou proibido de trabalhar para o Google?", questiona. "É um resultado estranho, não é? Eu deveria poder trabalhar para quem eu quiser."

DÚVIDAS SOBRE EFETIVIDADE DA REPRESSÃO

Mesmo que uma repressão seja politicamente popular, não é óbvio que ela protegeria os funcionários das startups. Letina destaca que a recente prática de selecionar os melhores funcionários e deixar o restante da equipe pode ser especialmente prejudicial pelas consequências. "Todas as pessoas que ficaram para trás, em essência, saíram perdendo", afirma.

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A recente tendência de gestores deixarem funcionários desamparados após sua saída também pode prejudicar a capacidade das startups de contratar pessoal. Um regime mais rigoroso da FTC poderia levar grandes empresas a realizar aquisições completas que absorvem ou fornecem liquidez para a contratação de mais funcionários.

Mas Somasegar teme que qualquer mudança regulatória possa impactar a velocidade da inovação. "As coisas estão mudando muito rápido", diz ele. “Os setores estão mudando rapidamente. Não dá para colocar obstáculos arbitrários no caminho”, diz ele. “Não quero estar numa situação em que uma empresa queira comprar outra e leve dois anos para saber se a aquisição vai acontecer ou não.”


SOBRE O AUTOR

Chris Stokel-Walker é um jornalista britânico com trabalhos publicados regularmente em veículos, como Wired, The Economist e Insider saiba mais