Brasileiros: apaixonados ou com medo da China?

A presença chinesa avança no consumo, nos investimentos e nas decisões empresariais — e pode transformar o modelo de desenvolvimento brasileiro

Aperto de mãos diante de cédulas chinesas representa a relação econômica entre Brasil e China.
Créditos: Getty images, Magnific

Monica Magalhães 3 minutos de leitura
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Há 17 anos, a China é o principal parceiro comercial do Brasil. Durante boa parte desse período, a presença chinesa no país esteve concentrada em energia, infraestrutura e telecomunicações, além de uma infinidade de produtos fabricados na China e, muitas vezes, vendidos sob outras marcas.

O brasileiro consumia Made in China, mas ainda não consumia China como marca.

A partir de 2023, esse cenário começou a mudar. Marcas chinesas de carros, eletrônicos e plataformas de comércio eletrônico passaram a fazer parte da vida cotidiana dos brasileiros.

Maio de 2025 marcou uma nova aceleração. Em outra visita de Lula a Pequim, Brasil e China ampliaram a agenda de cooperação e anunciaram novos acordos e investimentos.

No mesmo ano, o Brasil recebeu US$ 6,1 bilhões em investimentos chineses, 45% a mais que em 2024. Com isso, tornou-se o principal destino mundial do capital chinês no exterior, concentrando 10,9% dos investimentos realizados pelo país em outras economias, segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China.

Para alguns setores, essa aproximação abriu perspectivas de prosperidade. Para outros, pode representar perda de mercado e até recuperação judicial.

O fato é que empresários brasileiros passaram a olhar para a China com outros olhos. Alguns por interesse genuíno em aprender. Outros por curiosidade ou pela necessidade concreta de garantir a sobrevivência do próprio negócio.

O movimento também aparece nas viagens. A Booking.com registrou crescimento de 229% nas pesquisas feitas por brasileiros por hospedagens na China para viagens programadas entre setembro de 2025 e março de 2026. Outro levantamento, realizado pela Nomad, apontou aumento de 178% no número de viajantes brasileiros no país entre 2024 e 2025.

Multiplicam-se missões empresariais, viagens de inovação e imersões organizadas por associações, consultorias e instituições governamentais.

Apaixonados pela China ou envolvidos em um relacionamento necessário, empresários brasileiros sentem diretamente os reflexos das escolhas políticas e econômicas do país.

Mas nosso interesse pela China não cresce apenas por admiração e respeito. Decisões controversas do governo Trump também ajudaram a fortalecer o soft power chinês, ao despertar em parte do mundo uma curiosa satisfação em se aproximar de seu principal rival.

Leia também: O que Trump conseguiu com as tarifas? Entenda os impactos no Brasil e no mundo

Temos sinais de sobra para afirmar que o futuro econômico — e, em alguma medida, social — do Brasil está cada vez mais entrelaçado ao da China.

Em julho, Lula e Xi Jinping concordaram em avançar nas conversas sobre um possível acordo entre o Mercosul e a China, considerando as flexibilidades necessárias para aproximar os dois mercados.

Começa a ceder, assim, uma das barreiras que ainda protegiam parte da indústria brasileira de uma competição chinesa ainda maior.

Relações econômicas dessa dimensão se materializam em contratos de longo prazo, fábricas, cadeias de fornecedores, infraestrutura, centros de pesquisa, transferência de tecnologia, empregos e bilhões em capital investido.

Mudar a direção do que está sendo construído me parece cada vez mais improvável.

A cada novo projeto, empresas e setores dos dois países passam a depender mais uns dos outros. Ao mesmo tempo, aumenta o custo de uma eventual ruptura. O que vemos é um cenário crescente de interdependência entre as duas economias.

A China fará parte do futuro do Brasil. O que ainda não sabemos é quanto essa aproximação poderá mudar nosso modelo de desenvolvimento.

Em 10 ou 15 anos, podemos estar discutindo padrões de energia, baterias e cidades inteligentes construídas sobre tecnologias chinesas. Empresas brasileiras podem adotar práticas, modelos produtivos e referências de gestão inspiradas no ecossistema chinês.

Padrões, ao longo do tempo, moldam comportamentos e instituições.

Resta saber se estaremos preparados para navegar pela prosperidade e pelos riscos que essa relação poderá produzir.


SOBRE A AUTORA

Monica Magalhães é futurista e pesquisadora de tecnologias emergentes. saiba mais