BTS no Brasil: como o turismo de fandom movimenta milhões
Muito além dos ingressos, viajar para acompanhar ídolos movimenta hotéis, transporte, gastronomia e comércio. A passagem do grupo por São Paulo ajuda a dimensionar esse mercado.

Para quem viaja para acompanhar seus artistas favoritos, a escolha do destino nem sempre começa pela cidade. Muitas vezes, é a data de um show que define a viagem. A partir daí, entram no planejamento passagens, hotéis, restaurantes e passeios, além dos ingressos para o evento.
Esse comportamento, conhecido como turismo de fandom, transforma a relação dos fãs com seus ídolos em um motivo para viajar. Mais do que assistir a uma apresentação, a experiência envolve conhecer lugares, encontrar pessoas que compartilham os mesmos interesses e participar de momentos que vão além do espetáculo.
A passagem do BTS por São Paulo, com apresentações em 28, 30 e 31 de outubro de 2026, ajuda a dimensionar o fenômeno. Segundo projeção da São Paulo Turismo (SPTuris), as três datas podem gerar mais de R$ 330 milhões em movimentação econômica. A previsão de público acumulado é de aproximadamente 253 mil espectadores, somadas as apresentações.
A estimativa inclui a receita com ingressos e os gastos dos turistas que chegam à cidade. Mas a influência do turismo de fandom ultrapassa os grandes eventos de K-pop e ajuda a explicar um comportamento que movimenta diferentes setores da economia.
QUANDO A PAIXÃO DEFINE O DESTINO
A experiência do médico Cauê Cruz, de 29 anos, que mora em Brasília, mostra como o interesse por um artista pode orientar decisões de viagem. Fã de música pop, ele já viajou para assistir a apresentações de Lady Gaga, em Miami, e Taylor Swift, no Rio de Janeiro.

Em ambos os casos, o show foi o ponto de partida para organizar o roteiro, mas os custos e o destino também pesaram na decisão.
A escolha de Miami, por exemplo, passou por uma comparação de despesas. Cruz chegou a considerar um evento no Rio de Janeiro, mas os preços de passagens e hospedagem influenciaram sua decisão. Ao pesquisar as datas da turnê de Lady Gaga nos Estados Unidos, encontrou uma alternativa que considerou viável.
Segundo sua estimativa, a viagem custou entre R$ 20 mil e R$ 25 mil, incluindo ingresso, hospedagem, alimentação e passeios. O valor também foi influenciado pela permanência mais longa nos Estados Unidos, que permitiu conhecer a cidade além do show.
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Nas viagens nacionais, Cruz calcula gastar cerca de R$ 5 mil, em média, com passagem, ingresso, hospedagem e alimentação. Para viabilizar esses deslocamentos, reserva dinheiro especificamente para acompanhar artistas.
Mas a experiência não se resume aos gastos. Ao longo das viagens, o médico fez amizades com outros fãs e encontrou uma forma de conexão que vai além da música.
“É fascinante perceber que pessoas com histórias, realidades e trajetórias completamente diferentes foram movidas pela mesma paixão a ponto de sair de casa e viajar para viver aquele momento juntas”, afirma Cruz.
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Os preparativos de quem viaja para acompanhar o BTS mostram como essa paixão pode se transformar em um planejamento financeiro que começa meses antes do espetáculo. A influenciadora digital Yasmin Duarte, que compartilha nas redes sociais os preparativos para assistir a duas apresentações em São Paulo, estima ter gasto mais de R$ 14 mil com ingressos, passagens, hospedagem e produtos relacionados ao grupo.

Em um vídeo publicado nas redes sociais, Duarte detalha os custos da viagem, incluindo dois pacotes VIP com acesso ao soundcheck, a passagem de som do grupo antes do espetáculo. Ela também contabiliza a compra de uma Army Bomb, bastão de luz oficial utilizado pelos fãs durante os shows, acessórios para personalizá-lo e roupas para as apresentações.
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O investimento na experiência, porém, não se restringe a quem vem de fora da capital paulista. Outra fã, que se identifica nas redes como Clarinha, afirma já ter gasto cerca de R$ 19 mil com os preparativos para os shows, mesmo morando a aproximadamente 30 minutos do MorumBIS.
Os relatos mostram como o consumo associado ao fandom pode alcançar diferentes categorias, desde passagens e hospedagem até produtos oficiais, vestuário e equipamentos eletrônicos. Embora os gastos de Clarinha não estejam diretamente ligados ao turismo, eles ajudam a dimensionar a cadeia de consumo em torno do show.
Com quatro décadas de experiência no setor de turismo, Margarida Santalices, conhecida como Meg Getz, observa que a busca por experiências tem ganhado espaço nas decisões dos viajantes.
A especialista passou por grandes companhias aéreas, incluindo a Iberia, onde foi diretora para o Brasil, e empreendeu nos setores de hospedagem, viagens e eventos. Atualmente, mora em Ohio, nos Estados Unidos, e prepara roteiros personalizados para visitantes de Nova York.
“As pessoas hoje querem viajar para ter experiência. E uma dessas experiências se chama acompanhar o seu ídolo”, afirma Santalices.
TURISMO DE FANDOM FAZ AS MALAS
Os efeitos desse comportamento aparecem antes mesmo da realização dos shows. A procura por passagens e hospedagem começa meses antes da chegada dos artistas e pode alterar a demanda de diferentes serviços turísticos.
Em janeiro, após o anúncio da turnê do BTS, a plataforma ClickBus registrou um salto nas buscas por viagens de ônibus para São Paulo entre 27 e 31 de outubro. O volume foi 190 vezes maior do que o registrado para o mesmo período de 2025.
A movimentação também apareceu no setor de hospedagem. Segundo a Hoteis.com, as buscas feitas por viajantes brasileiros por acomodações na capital paulista, para estadias entre 19 de outubro e 1º de novembro, cresceram 50% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O show pode ser o principal motivo do deslocamento, mas o roteiro frequentemente inclui conhecer restaurantes, museus e outros pontos turísticos
Embora os indicadores representem buscas, e não necessariamente compras ou reservas efetivadas, eles mostram como a agenda de um artista pode influenciar o planejamento de viagens com meses de antecedência.
A SPTuris estima que aproximadamente 20% do público dos shows internacionais seja formado por turistas. Aplicada ao público acumulado previsto para as três apresentações do BTS, essa proporção representa mais de 50 mil, com gasto médio estimado de R$ 1.500 por turista.
Com isso, a movimentação projetada nos setores de hotelaria, gastronomia, transporte e comércio supera R$ 75 milhões. O valor faz parte da estimativa de mais de R$ 330 milhões para os três shows, que também inclui cerca de R$ 260 milhões em receita bruta com a venda de ingressos.
Os números representam projeções de movimentação econômica, não necessariamente o lucro das empresas ou o aumento líquido de receita de cada setor.
UMA CADEIA DE NEGÓCIOS QUE VAI ALÉM DOS INGRESSOS
A realização de grandes espetáculos também exige uma estrutura logística que começa a funcionar muito antes da abertura dos portões.
Para as apresentações do BTS, cerca de 83 toneladas de equipamentos desembarcaram no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, no dia 21 de outubro. Transportada em 39 paletes aéreos, a carga passou pelos procedimentos de liberação e seguiu por via terrestre até São Paulo.

Após os shows, os equipamentos devem retornar ao aeroporto para serem enviados ao exterior, acompanhando a continuidade da turnê mundial.
A operação evidencia uma dimensão menos visível dos grandes eventos: além dos gastos dos fãs, há demanda por transporte de cargas, armazenamento, segurança, serviços técnicos e mão de obra especializada.
Para empresas do setor turístico, compreender o comportamento dos fãs também pode ajudar a desenvolver ofertas e serviços voltados a visitantes que chegam com uma motivação específica.
Santalices observa que o planejamento dessas viagens exige mais do que reunir recomendações populares nas redes sociais. É preciso considerar o perfil do viajante, seus interesses, o tempo disponível, o clima e a localização das atrações.
O show pode ser o principal motivo do deslocamento, mas o roteiro frequentemente inclui conhecer restaurantes, museus e outros pontos turísticos. Para quem viaja em grupo, alinhar horários, preferências e despesas também faz parte da preparação.
A experiência dos visitantes ainda depende da infraestrutura das cidades. Transporte, sinalização, segurança e facilidade de circulação influenciam a percepção sobre o evento e sobre o próprio destino.
Melhorias nesses serviços também podem beneficiar os moradores, desde que a organização e os investimentos deixem resultados para além dos dias de espetáculo.
DO BTS AO BTSNOMICS: UM FENÔMENO GLOBAL
O potencial econômico das comunidades de fãs também pode ser observado fora do Brasil. Na Coreia do Sul, a influência do BTS sobre diferentes setores chegou a ganhar o nome de BTSnomics, expressão que faz referência ao impacto do grupo sobre o consumo, o turismo e a economia.

Em 2022, o Korea Culture and Tourism Institute, órgão de pesquisa ligado ao governo sul-coreano, estimou que a realização de shows do BTS no país poderia gerar efeitos econômicos de até 1,2 trilhão de wons, dependendo das condições consideradas.
A projeção levava em conta a venda de ingressos e produtos oficiais, além dos gastos dos visitantes com transporte, hospedagem e outros serviços. Tratava-se de uma estimativa baseada em cenários, não de uma medição dos resultados de cada apresentação.
Outro exemplo vem da Cidade do México, que recebeu três shows da turnê ARIRANG em maio de 2026. Antes das apresentações, a Câmara Nacional de Comércio, Serviços e Turismo da Cidade do México (Canaco CDMX) projetou uma movimentação econômica de 1,861 bilhão de pesos mexicanos.
Embora os cálculos utilizem metodologias diferentes, os exemplos ajudam a dimensionar como a mobilização de fãs pode alcançar diferentes mercados e setores.
Para quem viaja, porém, a experiência não se resume aos números. A possibilidade de conhecer outros lugares, compartilhar interesses e viver momentos especiais também ajuda a explicar por que tantas pessoas estão dispostas a investir tempo e dinheiro para acompanhar seus ídolos.
“Dinheiro vai e volta, mas esses momentos são únicos, restritos àquele tempo e espaço”, resume Cauê Cruz.