Como a “máfia do Spotify” dominou a cena de startups da Suécia
Companhia ajudou a transformar Estocolmo em um dos polos de inovação mais influentes da Europa

Quando Daniel Ek e Martin Lorentzon fundaram o Spotify em abril de 2006, eles eram apenas dois empreendedores de Estocolmo com um protótipo tão rudimentar que Per Roman, cofundador da gestora Bullhound Capital (que mais tarde investiria na empresa), diz que sua primeira impressão foi a de algo “capaz de mudar o mundo”, apesar de quase não haver produto para analisar.
Duas décadas e 300 milhões de assinantes depois, o Spotify se tornou uma força definidora do ecossistema de tecnologia sueco: uma empresa cujos ex-funcionários passaram a fundar, financiar ou liderar muitas das startups mais ambiciosas já criadas no país, de forma semelhante ao impacto da chamada “máfia do PayPal” no Vale do Silício.
A companhia é uma das gigantes que, ao lado de Skype, Klarna e King, tiveram influência desproporcional sobre a cena de tecnologia da Suécia. Hoje, ex-engenheiros e executivos do Spotify comandam fundos de capital de risco que financiam a nova geração de startups suecas.
Em abril, Patrik Torstensson, um dos engenheiros mais experientes do Spotify durante os anos de expansão da empresa, foi anunciado como novo chefe de engenharia da Lovable. Ele se junta a uma extensa rede de ex-alunos que inclui os fundadores da Tictail (adquirida pela Shopify), além de Soundtrack, Lifesum, Kovant e Homer.
Mas a influência do Spotify em Estocolmo vai além da quantidade de talentos formados pela empresa. A companhia ajudou a criar uma cultura de ambição e fortaleceu a confiança de que a capital sueca pode produzir empresas globais de tecnologia voltadas ao consumidor, e de que o fracasso, caso aconteça, não será fatal.
A Fast Company conversou com vários ex-funcionários do Spotify que depois fundaram suas próprias empresas e ampliaram ainda mais o ecossistema de startups de Estocolmo.
Henrik Torstensson, sócio da Alliance VC
Henrik Torstensson entrou no Spotify em maio de 2010 como chefe de vendas premium, quando a empresa tinha cerca de 300 mil assinantes pagantes. Quando saiu, três anos depois, para cofundar o aplicativo de bem-estar Lifesum, esse número já havia crescido para seis milhões.

Ele aponta a decisão do Spotify, por volta de 2010, de contratar executivos comerciais vindos de grandes empresas norte-americanas – como equipes de vendas de anúncios do Google e líderes de parcerias do Facebook – como o momento em que o nível de talentos de Estocolmo realmente mudou de patamar.
“Houve uma combinação muito forte entre engenheiros e profissionais de produto suecos extremamente ambiciosos e talentosos com uma aceleração comercial que teria levado muito mais tempo para acontecer”, afirma Torstensson, que hoje investe na próxima geração de startups nórdicas pela Alliance VC.
Ali Sarrafi, cofundador e CEO da Kovant
Ali Sarrafi chegou ao Spotify justamente quando a empresa lançava seu primeiro aplicativo para iPhone. Ele trabalhou na equipe de dados e machine learning e ficou até o IPO (oferta pública de ações).

Nesse período, o número de funcionários saltou de cerca de 100 para aproximadamente três mil. Foi um crescimento tão acelerado que engenheiros de sua equipe reclamavam de gastar tempo demais entrevistando candidatos.
“Na época, a gente nem percebia muito bem o que estava acontecendo, porque estava vivendo aquilo por dentro”, diz.
Mais tarde, Sarrafi deixou a empresa para criar uma startup de IA industrial antes de fundar a Kovant, que vende agentes autônomos para indústrias que enfrentam o que a empresa estima ser uma lacuna global de eficiência de US$ 3 trilhões por ano.
Segundo ele, a cultura aprendida no Spotify continua moldando sua empresa até hoje. “As melhores ideias e os melhores fatos sempre vencem, não a pessoa que ocupa o cargo mais alto.”
Wilhelm Lundborg, fundador da Homer e sócio da Greens Ventures
Wilhelm Lundborg passou por algumas das principais empresas de tecnologia de Estocolmo: trabalhou na Spray no fim dos anos 1990; depois no Skype nos anos 2000; no Spotify, quando a empresa saiu de menos de 100 funcionários para 3,5 mil; na Tictail, (depois adquirida pela Shopify); e agora lidera a Homer, aplicativo de gestão residencial movido por IA.

Ele também é investidor da Greens Ventures, fundo formado majoritariamente por ex-funcionários do Spotify que apoia empresas como Lovable e Tandem Health.
Lundborg acredita que a chamada Lei de Jante – convenção cultural escandinava que desencoraja as pessoas a se destacarem – está desaparecendo em Estocolmo. “Estou pronto para dizer que isso morreu. Todo mundo está extremamente animado, feliz e celebra o sucesso dos outros”, afirma.
Ola Sars, cofundador e CEO da Soundtrack
Ola Sars nunca trabalhou no Spotify, mas sua empresa provavelmente não existiria sem ele.

Fundador de cinco startups ligadas à música, Sars liderou o lançamento do Beats Music em Los Angeles antes de voltar para Estocolmo, esgotado e convencido de que havia uma oportunidade B2B que o Spotify não estava explorando.
Em um bar discreto da capital sueca, ele apresentou a ideia a executivos do Spotify, que decidiram apoiá-la.
Em 2014, as duas partes financiaram juntas a criação da Soundtrack, hoje licenciada em 75 países, com mais de 150 milhões de faixas e cerca de 110 mil clientes corporativos pagantes, que desembolsam aproximadamente US$ 30 por mês. O Spotify ainda mantém participação acionária na empresa.
Sars diz valorizar o clima quase “de vila” do ecossistema de tecnologia de Estocolmo em comparação com o que considera a cultura agressiva do Vale do Silício.
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“Meus vizinhos são executivos de alto escalão do Spotify e eu sempre posso perguntar o que eles acham”, afirma. “Aqui não estamos competindo entre nós. Estamos competindo fora da Suécia.”