Da lista Forbes Under 30 às acusações de fraude: por que isso se repete?
Uma CEO de startup pode enfrentar décadas de prisão, reforçando um padrão incômodo entre nomes celebrados por sucesso precoce

Se eu ganhasse um dólar cada vez que um ex-aluno da lista 'Forbes 30 Under 30' fosse acusado de fraude, eu teria US$ 5. Não é muito, mas é estranho que isso tenha acontecido cinco vezes.
A essa altura, a "maldição" da Forbes já está bem documentada, desde o fiasco de Charlie Javice no JPMorgan (que estava na lista Under 30 em 2019) até o queridinho do mundo das criptomoedas, Sam Bankman-Fried, perpetrando uma das maiores fraudes financeiras da história (ele apareceu na lista em 2021). Na semana passada, mais uma homenageada foi alvo de acusações federais.
Gökçe Güven, de 26 anos, fundadora e CEO da startup fintech Kalder, enfrenta 52 anos de prisão após ser acusada de fraude, por supostamente lesar investidores em milhões de dólares. Güven também figurou na lista Forbes 30 Under 30 do ano passado, na categoria Marketing e Publicidade.
Güven teria apresentado um pitch deck que distorcia o número de marcas que trabalhavam com a startup e inflava a receita.
O Departamento de Justiça dos EUA alega que, durante a rodada de investimento seed (ou semente) da Kalder em abril de 2024 — que rendeu US$ 7 milhões de mais de uma dúzia de investidores —, Güven apresentou um pitch deck que distorcia o número de marcas que trabalhavam com a startup e inflava a receita.
PEGOU MAL
A trajetória de Güven, da lista 30 Under 30 à prisão, não passou despercebida nas redes sociais.
“Entrar na lista Forbes 30 Under 30 é estranho: 2% de chance de você se tornar bilionário, 35% de chance de sua empresa falir, 63% de chance de você acabar na prisão por crimes de colarinho branco porque roubou dinheiro tentando se tornar bilionário, e então sua empresa faliu”, publicou o empreendedor de tecnologia Chris Bakke no X em 2 de fevereiro.
“Alguém precisa escrever sobre o que isso diz sobre o capitalismo contemporâneo, que TANTOS dos nomes na lista Forbes 30 Under 30 são fraudes!”, escreveu outro usuário do X. “Deveriam criar uma lista 30 Under 30 com pessoas que atuam na área jurídica”, sugeriu outro.
LISTA DE SUPOSTOS FRAUDADORES
Güven se junta às fileiras de outros supostos fraudadores infames, muitos dos quais a Forbes incluiu em seu primeiro Hall da Vergonha, na categoria “Escolhas Under 30 que gostaríamos de poder apagar”, em novembro de 2023.
“Arrependimentos? Temos alguns”, reconheceu a publicação na época.
Entre eles está Bankman-Fried, fundador da corretora de criptomoedas FTX e da empresa de trading Alameda Research, que em 2024 foi condenado a 25 anos de prisão e obrigado a pagar US$ 11 bilhões em confisco após fraudar seus clientes em mais de US$ 8 bilhões.
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Caroline Ellison, namorada de Bankman-Fried e responsável pela operação de trading de criptomoedas da Alameda Research, seguiu seus passos, entrando para a lista "30 Under 30" no ano seguinte. Em dezembro de 2022, Ellison se declarou culpada de sete acusações criminais, incluindo fraude eletrônica e lavagem de dinheiro.
Em setembro de 2025, Charlie Javice foi condenada a mais de sete anos de prisão por fraudar o JPMorgan Chase em US$ 175 milhões para viabilizar a venda de seu aplicativo de auxílio financeiro estudantil, Frank.
Em 2023, o investidor imobiliário e homenageado na lista "30 Under 30" de 2016, Nate Paul, foi acusado de vários crimes de fraude eletrônica. Em 2018, cinco anos depois de Martin Shkreli ter entrado para a lista, o "Pharma Bro" foi condenado a sete anos de prisão por fraude, após aumentar o preço de um medicamento essencial para o tratamento do HIV em 4.000%.
DE ASSÉDIO À CULTURA TÓXICA
Embora tenham escapado de acusações criminais, muitos outros ex-integrantes da lista "30 Under 30" enfrentaram acusações que variam de assédio sexual a fomento de uma cultura tóxica no ambiente de trabalho.
Embora seja fácil criticar a Forbes por atrair esses jovens brilhantes para um clube exclusivo com um número considerável de vigaristas e fraudadores, o verdadeiro culpado, como escreveu Arwa Mahdawi a colunista do jornal britânico The Guardian e autora de Strong Female Lead, é "a fetichização da juventude".
"A lista '30 Under 30' não é apenas uma lista, é uma mentalidade: uma pressão para alcançar grandes feitos antes que a juventude escape."
Arwa Mahdawi, colunista
"A lista '30 Under 30' não é apenas uma lista, é uma mentalidade: uma pressão para alcançar grandes feitos antes que a juventude escape", escreveu ela. "Essa pressão pode levar algumas pessoas ambiciosas a buscar atalhos."
Para aqueles que esperam fazer parte da turma de 2026, saibam que a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (com papel regulatório e fiscalizador semelhante ao da CVM brasileira) está de olho.