Estamos na beira de um colapso econômico mundial? 150 países acham que sim
Este é um momento crítico para empresas, que podem liderar a transformação para uma economia global mais sustentável ou enfrentar riscos de extinção

Um novo relatório da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), divulgado na última segunda-feira (9), alerta que a perda de biodiversidade representa um risco sistêmico crítico para a economia global, a estabilidade financeira e o bem-estar humano.
Segundo o documento, que contou com a participação de 79 especialistas de 35 países, todas as empresas dependem da natureza e, ao mesmo tempo, a impactam, mesmo aquelas que parecem distantes de atividades ambientais.
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DEPENDÊNCIA E IMPACTO DAS EMPRESAS NA NATUREZA
O relatório destaca que empresas dependem de insumos materiais, regulação ambiental e serviços imateriais como turismo, recreação, educação e valores culturais ou espirituais.
Entretanto, poucas assumem custos financeiros pelos impactos negativos ou conseguem gerar receita com ações positivas em relação à biodiversidade. Estima-se que apenas menos de 1% das empresas divulguem publicamente seus impactos sobre a natureza, evidenciando lacunas profundas na mensuração e gestão desses efeitos.
A avaliação mostra que o crescimento econômico global entre 1820 e 2022 chegou a US$ 130,11 trilhões, mas à custa de uma redução de cerca de 40% nos estoques de capital natural, enquanto o capital humano per capita cresceu mais de 100% desde 1992.
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INCENTIVOS
O documento aponta que o modelo atual de incentivos empresariais favorece a degradação da natureza, em 2023, fluxos globais de financiamento público e privado que causaram impactos negativos diretos sobre a natureza somaram US$ 7,3 trilhões.
Sendo US$ 4,9 trilhões provenientes do setor privado e cerca de US$ 2,4 trilhões de subsídios públicos prejudiciais ao meio ambiente. Por outro lado, apenas US$ 220 bilhões foram direcionados para conservação e restauração da biodiversidade, representando apenas 3% do montante destinado a práticas que degradam o planeta.
O relatório enfatiza que a manutenção do modelo atual pode gerar lucros no curto prazo, mas resulta em impactos cumulativos que ultrapassam pontos de inflexão ecológicos, com efeitos potencialmente catastróficos para os negócios e para a sociedade.
MÉTRICAS E FERRAMENTAS PARA AVALIAR IMPACTOS
Apesar de existirem métodos para medir impactos e dependências das empresas, sua aplicação é baixa e desigual entre setores e regiões, as empresas enfrentam dificuldades de acesso a dados confiáveis, modelos adequados e cenários para tomada de decisão.
O relatório propõe três critérios para orientar a escolha de métodos:
- Abrangência geográfica e dos impactos;
- Precisão na mensuração; e
- Responsividade à mudanças geradas pelas ações empresariais.
Abordagens "de baixo para cima", como observações locais, monitoramento participativo e mapeamento espacial, são recomendadas para decisões operacionais, enquanto métodos "de cima para baixo", como análise de ciclo de vida e modelos macroeconômicos ambientais, são mais adequados para decisões corporativas e de portfólio.
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A colaboração com povos indígenas e comunidades locais é destacada como essencial para preencher lacunas de conhecimento e melhorar a gestão de riscos.
AMBIENTE FAVORÁVEL PARA AÇÃO EMPRESARIAL
O relatório identifica cinco componentes essenciais para criar um ambiente propício à mudança transformadora políticas, marcos legais e regulatórios, sistemas econômicos e financeiros, valores e cultura social, tecnologia e dados e capacidade e conhecimento.
Mais de 100 ações concretas são sugeridas para empresas, governos, instituições financeiras e sociedade civil, incluindo maior eficiência operacional, redução de desperdícios e transparência na divulgação de impactos.
Cerca de 60% das terras indígenas estão ameaçadas pelo desenvolvimento industrial, e 25% dos territórios indígenas enfrentam forte pressão da exploração de recursos, tornando o engajamento desses grupos fundamental para a preservação da biodiversidade.
O ALERTA PARA O MUNDO
Segundo os copresidentes do relatório, como Matt Jones do Reino Unido e o Prof. Stephen Polasky dos EUA, este é um momento crítico, as empresas podem liderar a transformação para uma economia global mais sustentável ou enfrentar riscos de extinção tanto de espécies quanto de seus próprios modelos de negócio.
O presidente do IPBES, Dr. David Obura, ressaltou que o relatório fornece orientações essenciais para que empresas, governos e sociedade civil alcancem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, as metas do Quadro Global de Biodiversidade e o Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas.
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Para ele, a conservação, restauração e uso sustentável da biodiversidade não são apenas questões ambientais, mas pilares centrais para a sustentabilidade da economia global. O relatório foi aprovado por representantes de mais de 150 países membros do IPBES durante a 12ª sessão plenária em Manchester.