Ex-hype do Vale do Silício abandona tênis e aposta em IA
A americana Allbirds, que já simbolizou consumo sustentável entre executivos de tecnologia, tenta renascer alugando GPUs, chips disputados no avanço da inteligência artificial

A queda da Allbirds, antiga queridinha do modelo de vendas diretas ao consumidor, tomou um rumo bastante peculiar. A Allbirds, fabricante de calçados sustentáveis que conquistou o Vale do Silício há cerca de uma década, começará a vender silício.
Em um comunicado à imprensa, a empresa afirmou que se transformará em um negócio focado no aluguel de GPUs — os poderosos chips de processamento gráfico que sustentam o crescimento acelerado da IA, escassos e com alta demanda, para grande desgosto de gamers e CEOs de tecnologia.
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O que restou da empresa de calçados irá "direcionar seus negócios para infraestrutura de computação de IA, com uma visão de longo prazo para se tornar uma provedora totalmente integrada de GPU como serviço (GPUaaS) e soluções em nuvem nativas de IA".
O anúncio da empresa pouco contribui para esclarecer a estranheza sem precedentes de passar da venda de botas minimalistas de lã para a venda de hardware de IA como serviço. A Allbirds afirma que em breve mudará seu nome para "NewBird AI", um empreendimento financiado por US$ 50 milhões em dívida conversível de um investidor não divulgado.
A Allbirds planeja usar os fundos para comprar uma série de equipamentos de ponta, que serão emprestados a clientes com necessidade de poder computacional em contratos de longo prazo. Tudo isso faz parte de uma grande visão para uma “plataforma neocloud” que, de alguma forma, ressurgirá das cinzas de uma varejista outrora grandiosa de — é preciso enfatizar — sapatinhos fofos.
A ALLBIRDS PERDEU SUAS ASAS
Em seu auge, a Allbirds era sinônimo de uma estética da Bay Area que enfatizava a simplicidade e a consciência ecológica em vez do consumo ostensivo. Com sapatos feitos de fibras naturais e materiais mais sustentáveis, um par de Wool Runners combinava a sinalização de virtude ambiental com designs confortáveis para o dia a dia de uma forma muito mais simples do que uma gigante de tênis focada em atletas como a Nike poderia imaginar.
À medida que a Allbirds ganhava força, a empresa abriu seu capital e mergulhou no mundo das lojas físicas, com uma expansão rápida de sua presença no varejo. Há dois anos, a Allbirds começou a reduzir sua presença no varejo de forma "oportunista". No entanto, no início deste ano, anunciou que quase todas as suas lojas fechariam as portas para reduzir custos e preparar o negócio para a estabilidade a longo prazo. "Este é um passo importante para a Allbirds, enquanto buscamos um crescimento lucrativo sob nossa estratégia de recuperação", disse o CEO da Allbirds, Joe Vernachio, no final de janeiro.

Em fevereiro, a Allbirds apontou para uma mudança mais palatável para a alta moda, mas esse plano de recuperação durou pouco. No mês seguinte, a empresa anunciou que venderia seus ativos por meros US$ 39 milhões, uma fração dos US$ 4 bilhões que já valeu. O American Exchange Group (AXNY), proprietário de marcas como Aerosoles e Ed Hardy, ficaria com as partes. “Este próximo capítulo com a AXNY se baseia no trabalho fundamental já realizado e prepara a marca para prosperar nos próximos anos”, disse Vernachio — uma declaração normal para uma empresa em perigo e sem sequer indícios da estranha reviravolta que está por vir.
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Lembrar de uma mudança mais bizarra exige um pouco de esforço. Houve um tempo em que a RadioShack, varejista americana de eletroeletrônicos, se voltou para as criptomoedas, lançando sua própria altcoin ($RADIO) e publicando uma enxurrada de tweets provocativos para chamar a atenção.
A insanidade inerente à mudança da Allbirds, de sapatos para GPUs, supera facilmente o espetáculo da triste decadência da RadioShack, mas será essa a mudança mais estranha de todos os tempos? Essa honra talvez ainda pertença à Long Island Iced Tea Corp., que em 2017 mudou seu nome para Long Blockchain, fazendo com que suas ações disparassem — um evento que acabou resultando na acusação de três pessoas por uso de informação privilegiada pela SEC (a CVM americana).