Gasolina deve aumentar no Brasil por conta da guerra no Irã? Entenda

Diante do cenário, a Petrobras afirmou que pode reduzir parte dos efeitos dessa alta sobre os preços internos

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Joyce Canelle 6 minutos de leitura

A escalada da guerra no Oriente Médio e o bloqueio do Estreito de Ormuz voltaram a pressionar o mercado internacional de petróleo nesta semana. Na última segunda-feira (9), o barril chegou a ultrapassar US$ 120 no mercado global, reacendendo a preocupação com possíveis impactos nos combustíveis, como a gasolina, no Brasil.

Diante do cenário, a Petrobras afirmou que pode reduzir parte dos efeitos dessa alta sobre os preços internos, embora especialistas e autoridades reconheçam que o impacto não pode ser totalmente evitado.

O aumento da cotação internacional está ligado diretamente ao conflito envolvendo o Irã e ao fechamento do Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes para o transporte de petróleo no mundo. Cerca de 25% do petróleo global passa pela região, o que faz qualquer interrupção gerar forte reação nos preços, de acodo com a Agência Brasil.

Com o avanço das tensões, o barril disparou e chegou ao maior nível em mais de três anos. Nos últimos dias, no entanto, houve recuo após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que o conflito poderia se aproximar de um desfecho.

Mesmo assim, os preços continuam acima do patamar anterior ao início da crise. Antes da escalada do conflito, o barril era negociado próximo de US$ 70. Agora segue perto ou acima de US$ 90, em média R$ 460, dependendo do dia e das expectativas do mercado.

PETROBRAS DIZ QUE PODE SUAVIZAR NO BRASIL

A Petrobras afirmou que trabalha para reduzir a transmissão imediata dessas oscilações para os consumidores brasileiros. Em nota, a empresa informou que a estratégia comercial atual permite considerar fatores como logística e capacidade de refino na definição dos preços.

Segundo a estatal, essa abordagem possibilita manter períodos de estabilidade nos combustíveis sem comprometer a rentabilidade da companhia. A empresa também ressaltou que, por questões concorrenciais, não antecipa decisões sobre reajustes.

A mudança citada pela Petrobras está ligada ao abandono, em 2023, da política de paridade internacional de preços. Na época, os valores dos combustíveis no país acompanhavam diretamente as oscilações do mercado global.

MUDANÇA NA POLÍTICA DE PREÇOS

O fim da paridade automática com o mercado internacional deu à empresa mais espaço para administrar as variações.

Antes da mudança, qualquer alta ou queda no petróleo era rapidamente repassada ao consumidor, com o novo modelo, a Petrobras pode avaliar outros fatores internos antes de ajustar os preços.

Essa margem, porém, não elimina totalmente o impacto das crises internacionais.

LIMITES PARA SEGURAR PREÇOS

Mesmo com mais flexibilidade, o Brasil ainda depende da importação de derivados de petróleo, como diesel e gasolina. Isso reduz a capacidade de manter os preços internos completamente isolados do mercado global.

Outro fator apontado por especialistas é a privatização de parte das refinarias. No caso da refinaria da Bahia, por exemplo, a estatal não controla mais diretamente a política de preços, o que diminui a capacidade de intervenção.

O diesel foi um dos primeiros combustíveis a registrar pressão de preço com a nova escalada do petróleo. O produto costuma reagir mais rápido às variações do mercado externo, principalmente por causa da dependência maior de importações.

Esse movimento reforça o alerta de que novos aumentos podem ocorrer caso o petróleo continue em patamar elevado por um período prolongado.

BAIXA NA GASOLINA

Desde 27 de janeiro, a Petrobras reduziu em 5,2% o preço da gasolina A vendida às distribuidoras. Com a mudança, o valor médio passou a cerca de R$ 2,57 por litro, o que representa uma queda de R$ 0,14 por litro.

A empresa também destacou que, desde dezembro de 2022, o preço da gasolina fornecida às distribuidoras já acumula redução de R$ 0,50 por litro. Considerando a inflação do período, essa queda corresponde a aproximadamente 26,9%.

No caso do diesel, a companhia informou que, neste momento, não houve alteração nos valores praticados. Ainda assim, desde dezembro de 2022, o combustível registra redução acumulada de 36,3% nos preços para distribuidoras quando se leva em conta a inflação.

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Além das oscilações do petróleo no mercado internacional, o preço da gasolina no Brasil também depende de diversos componentes que vão além do valor definido pela Petrobras. Dados recentes mostram que a estatal responde por menos de um terço do valor pago pelo consumidor nos postos.

De acordo com levantamento elaborado pela Petrobras com base em dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e do Cepea da USP, o preço médio da gasolina no país ficou em R$ 6,30 por litro no período de 1º a 7 de março de 2026. Desse total, cerca de R$ 1,80 correspondem à parcela da Petrobras, o equivalente a aproximadamente 28,6% do preço final.

Outra parte importante do valor está nos impostos, o tributo estadual representa cerca de R$ 1,57 por litro, o que corresponde a 24,9% do preço. Já os impostos federais somam aproximadamente R$ 0,68, ou 10,8% do total.

A mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina também influencia no valor final. O custo desse componente corresponde a cerca de R$ 0,98 por litro, representando 15,6% do preço médio.

Por fim, entram os custos de distribuição e revenda, que incluem transporte, armazenamento e a margem dos postos de combustíveis. Essa parcela soma aproximadamente R$ 1,27 por litro, ou cerca de 20,2% do preço pago pelo consumidor.

No Brasil, a gasolina vendida nos postos é a chamada gasolina C, formada pela gasolina A produzida nas refinarias com a adição obrigatória de 30% de etanol anidro. Essa composição também influencia na formação do preço final e pode variar de acordo com o custo do etanol em cada região do país.

GOVERNO PEDE CAUTELA DIANTE DA VOLATILIDADE

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou em coletiva com jornalista em Brasilía, que o governo acompanha a situação, mas defendeu cautela antes de qualquer decisão. De acordo com o G1, Haddad, aponta forte oscilação do petróleo nos últimos dias mostra que o cenário ainda é incerto.

Com guerra, petróleo sobe e preocupa consumidores nos EUA
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O ministro destacou que mudanças bruscas em políticas econômicas baseadas em movimentos de curto prazo podem gerar efeitos negativos. Para Haddad, é necessário acompanhar a evolução do conflito e avaliar diferentes cenários.

IMPACTO TAMBÉM PODE ATINGIR JUROS E INFLAÇÃO

Além dos combustíveis, a alta do petróleo preocupa autoridades econômicas por causa do possível impacto na inflação. O aumento da gasolina e do diesel tende a se espalhar pela economia, pressionando custos de transporte e produção.

Esse fator pode influenciar também as decisões do Banco Central sobre a taxa de juros. Atualmente, a taxa básica da economia está em 15% ao ano, o maior nível em quase duas décadas.

O mercado esperava que o início do ciclo de cortes da Selic acontecesse na próxima reunião do Comitê de Política Monetária. Com a instabilidade no mercado de petróleo.

O QUE ESPERAR?

O comportamento dos preços nas próximas semanas dependerá principalmente da evolução do conflito no Oriente Médio. Caso o bloqueio no Estreito de Ormuz seja mantido ou as tensões se agravem, a pressão sobre o petróleo pode continuar.

Se houver redução das hostilidades ou reabertura das rotas de exportação, os preços internacionais tendem a recuar. Nesse cenário, o risco de aumento da gasolina no Brasil também diminui.

Por enquanto, a Petrobras afirma que trabalha para reduzir os efeitos imediatos da volatilidade global e o preço da gasolina. Ainda assim, o mercado de combustíveis segue atento aos próximos desdobramentos da crise internacional.


SOBRE O(A) AUTOR(A)

Bacharel em Jornalismo, com trajetória em redação, assessoria de imprensa e rádio, comprometida com a comunicação eficiente e a produç... saiba mais