Niilismo financeiro: entenda como a geração Z têm visto o dinheiro

Apesar da imagem de imprudência, pesquisas mostram que muitos jovens "arriscam" pois enxergam o mercado com desconfiança e preocupação.

Jovem pegando dinheiro no ar
Esse movimento, associado ao niilismo financeiro, expressa a descrença nas estratégias tradicionais. Foto: Freepik

Joyce Canelle 5 minutos de leitura

Diante da alta do custo de vida, do enfraquecimento do mercado de trabalho e do acesso cada vez mais restrito à educação e à moradia, jovens da geração Z têm mudado a forma de lidar com o dinheiro nos últimos anos.

A dívida estudantil nos Estados Unidos saltou de US$ 345 bilhões em 2004 para US$ 1,6 trilhão em 2024, com a taxa de desemprego entre jovens de 16 a 24 anos atingindo 10,6% e apenas cerca de 30% dos recém-formados conseguindo vagas de nível inicial em suas áreas. No Brasil, segundo o portal Gov., os últimos dados sobre a taxa de desemprego entre jovens de 18 a 24 no país ficou em torno de 14,9%, mais que o dobro da média nacional.

Assim, o movimento identificado como niilismo financeiro, ocorre em um contexto no qual o retorno salarial do diploma universitário encolheu, o acesso à casa própria caiu para cerca de 32% aos 27 anos em diversos países e métodos tradicionais de ascensão econômica perderam credibilidade, impulsionando a busca por investimentos especulativos, criptomoedas e apostas online.

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O QUE É NIILISMO FINANCEIRO?

Segundo o The Wall Street Journal,o niilismo financeiro descreve a percepção de que as regras tradicionais de ascensão econômica já não funcionam. A ideia central de estudar, trabalhar por décadas e economizar não garante mais estabilidade nem patrimônio. 

Diante disso, parte dos jovens passa a assumir riscos elevados, não por desconhecimento, mas por entender que as alternativas convencionais oferecem retornos cada vez mais limitados.

ENDIVIDAMENTO ESTUDANTIL

Um dos pilares dessa mudança está na educação, o ensino superior, historicamente visto como passaporte para bons empregos, tornou-se um investimento caro e de retorno cada vez mais imprevisível.

Só em 2024, nos EUA, a dívida estudantil totaliza US$ 1,6 trilhão, um aumento em relação aos US$ 1,16 trilhão em 2014. Em 2004, esse valor era de US$ 345 bilhões.

O endividamento estudantil cresceu de forma acelerada, enquanto o prêmio salarial associado ao diploma diminuiu ao longo dos anos. Para muitos jovens, a conta não fecha, mais dívida, mais tempo de estudo e menos garantia de estabilidade profissional.

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MERCADO DE TRABALHO INSTÁVEL

As portas de entrada no mercado também se estreitaram. Vagas iniciais desapareceram com a automação, reestruturações e cortes de custos. 

O desemprego entre jovens voltou a subir e, mesmo entre os empregados, contratos temporários, baixos salários e poucas perspectivas de crescimento se tornaram comuns. Essa instabilidade atinge justamente o momento em que a vida financeira deveria começar a se estruturar.

Enquanto o mercado de trabalho americano encolhe as oportunidades de entrada, com apenas 30% dos recém-formados em 2025 conseguindo vagas iniciais em suas áreas, o grande problema do jovem brasileiro hoje não é apenas "achar emprego", mas a qualidade dele. Cerca de 38% dos jovens ocupados no Brasil estão na informalidade, sem carteira assinada, fazendo bicos ou em aplicativos como a Uber, enfrentando o que economistas chamam de "armadilha do subemprego".

CASA PRÓPRIA 

Outro fator decisivo é o acesso à moradia. O preço dos imóveis cresceu muito acima da renda, tornando a compra de uma casa inviável para grande parte dos jovens.

Comparada às gerações anteriores, a geração Z enfrenta um cenário mais duro, com aluguéis elevados, financiamentos longos e exigências que afastam a possibilidade de propriedade.

O acesso à casa própria tornou-se mais restrito para os jovens. Em 2024, nos EUA, apenas cerca de 32% das pessoas de 27 anos possuíam um imóvel, percentual estagnado nos últimos dois anos e inferior ao registrado por gerações anteriores, quando quase 40% já eram proprietários na mesma idade.

No Brasil, o acesso à casa própria pelos jovens enfrenta o desafio dos juros altos e da renda instável. Segundo o IBGE (PNAD Contínua 2024/2025) e a Brain Inteligência, embora 61% dos jovens brasileiros tenham o desejo de comprar um imóvel, o fenômeno da "Geração Canguru" é a marca atual: o número de adultos entre 25 e 34 anos que ainda moram com os pais cresceu 137% na última década, uma estratégia de sobrevivência e poupança diante do alto custo de vida.

Além disso, a relação entre o preço dos imóveis e a renda praticamente dobrou em comparação às décadas de 1980 e 1990, tornando a compra de uma casa significativamente mais difícil, independentemente da região.

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ATALHOS FINANCEIROS

Com os caminhos tradicionais bloqueados ou enfraquecidos, alternativas de alto risco passam a ganhar espaço.

 Criptomoedas, mercados de previsão e apostas esportivas oferecem algo que o sistema formal não entrega a chance de retorno rápido e expressivo. 

Mesmo sabendo dos riscos, muitos jovens consideram mais racional apostar em uma possibilidade remota de grande ganho do que aceitar a perspectiva de estagnação financeira.

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PLATAFORMAS QUE LUCRAM EM ALTA

Aplicativos de investimento especulativo, corretoras de cripto ativos e casas de apostas se beneficiam desse cenário.

Essas empresas crescem justamente porque oferecem acesso fácil, promessa de ganhos elevados e uma linguagem alinhada ao ambiente digital onde a geração Z já está inserida. A volatilidade que assusta investidores tradicionais é o combustível desses mercados.

O fenômeno não é apenas econômico, mas também social. Comunidades online em fóruns e grupos privados funcionam como espaços de troca, identidade e pertencimento. 

Mesmo quando há perdas financeiras, existe a sensação de fazer parte de algo coletivo, substituindo vínculos que antes vinham de bairros, associações ou instituições tradicionais.

Apesar da imagem de imprudência, pesquisas mostram que muitos jovens enxergam esses mercados com desconfiança e preocupação. 

A adesão não nasce do desejo pelo risco em si, mas da tentativa de recuperar autonomia em um sistema que parece cada vez mais inacessível. 

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O niilismo não reflete desprezo pelo futuro, mas uma adaptação forçada a uma economia que deixou de oferecer caminhos claros. O avanço do niilismo financeiro diz menos sobre os valores da geração Z e mais sobre as falhas estruturais do modelo econômico atual.


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