Do prato ao guarda-roupa, o Ozempic está mudando o consumo

Medicamentos para perda de peso já influenciam gastos com alimentação, moda e exercícios. No Brasil, os efeitos aparecem nas farmácias, nos restaurantes e no varejo.

Mão segura canetas injetáveis em uma montagem colorida com frutas, ilustrando o efeito Ozempic nos hábitos de consumo.
Créditos: Cesar Radicetti, Kateryna, panadesignteam, Prostock-Studio via Adobe Stock

Anna-Louise Jackson 6 minutos de leitura
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O avanço de medicamentos para emagrecimento, como Ozempic e Wegovy, está provocando mudanças que vão muito além da saúde. Dos supermercados às lojas de roupas, os consumidores estão reorganizando seus gastos, e empresas de diferentes setores começam a sentir os efeitos.

Nos Estados Unidos, milhões de pessoas gastam centenas de dólares por mês com medicamentos que atuam sobre o GLP-1, hormônio relacionado à regulação da glicose e do apetite. Mas o investimento no tratamento também está transformando a maneira como essas pessoas consomem.

No Brasil, os efeitos começam a ganhar escala. Segundo dados da IQVIA divulgados pela Varejo S.A., os medicamentos da categoria GLP-1 movimentaram R$ 8,5 bilhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 99,4% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Além disso, um levantamento da NielsenIQ divulgado pelo Brazil Journal mostrou que 4,6% dos domicílios brasileiros já consumiam algum desses medicamentos.

Nos Estados Unidos, onde os medicamentos dessa categoria foram aprovados para o controle crônico do peso há cinco anos, estima-se que 11% dos adultos utilizem algum tipo de GLP-1 para emagrecer.

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A popularidade desses tratamentos deu origem a tendências bastante visíveis, como a multiplicação de alimentos enriquecidos com proteínas. Outras mudanças, porém, são menos óbvias.

É o caso das joias.

O EFEITO OZEMPIC NA MODA E NA BELEZA

A indústria da moda está entre os setores beneficiados pela popularização dos medicamentos para perda de peso.

Segundo uma pesquisa realizada pela PwC em 2026, 26% dos usuários afirmam gastar mais com roupas. Depois de seis a oito meses de tratamento, muitos parecem adotar uma postura de se presentear, optando por peças de maior qualidade e marcas mais caras.

Os dados de consumo analisados pela consultoria mostram um crescimento de 66% nos gastos com jeans femininos e de 31% com roupas de banho. Mais surpreendente é o aumento de 36% nas despesas com joias. Segundo o relatório da PwC, depois de seis a oito meses de tratamento, muitos usuários parecem adotar uma mentalidade de se presentear, passando a gastar mais com produtos de maior qualidade e marcas mais caras.

A transformação também chega ao varejo brasileiro. Segundo o Brazil Journal, a Riachuelo registrou uma redução média de 5% em sua grade de tamanhos e projeta uma contração de quase 6% no mercado de roupas plus size em 2026.

O impacto aparece ainda em serviços como os de alfaiataria. Embora a perda inicial de peso possa aumentar a procura por ajustes de roupas, muitas pessoas recuperam parte do peso depois de interromper o tratamento.

A situação tem colocado à prova a política de ajustes gratuitos e vitalícios da Alan David Custom, alfaiataria de Brooklyn, em Nova York, administrada pela quinta geração da mesma família.

“As grandes oscilações de peso têm sido um pesadelo para a alfaiataria”, afirmou Alan Horowitz, proprietário da empresa, ao Financial Times.

O setor de beleza também está atento às mudanças. Em reportagem publicada pela BBC News Brasil, a L'Oréal afirmou que a popularização dos medicamentos GLP-1 já influencia a demanda por produtos de cuidados com a pele.

A empresa está desenvolvendo soluções voltadas a alterações na aparência da pele que podem acompanhar a perda rápida de peso, incluindo a flacidez.

QUEM GANHA E QUEM PERDE COM A MUDANÇA

O setor de academias apresenta algumas contradições.

A pesquisa da PwC mostrou que 36% dos usuários de GLP-1 passaram a caminhar, correr, pedalar ou nadar com mais frequência. Ao mesmo tempo, eles parecem estar mais seletivos em relação às atividades físicas.

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Entre as pessoas que utilizam esses medicamentos, 14% reduziram a frequência com que participam de aulas coletivas, enquanto apenas 11% aumentaram sua participação.

Como médicos recomendam exercícios de força para ajudar a preservar a massa muscular e a saúde óssea durante o emagrecimento, algumas academias estão repensando seus espaços.

Redes como PureGym, Planet Fitness e The Gym Group passaram a dedicar áreas maiores aos exercícios de força e ao treinamento funcional, segundo o Financial Times.

A indústria aérea também pode sentir os efeitos dessa transformação.

Se os 178 passageiros de um Boeing 737 perdessem 10% do peso corporal, a redução no consumo de combustível poderia representar uma economia anual combinada de aproximadamente US$ 580 milhões para American Airlines, Delta Air Lines, Southwest Airlines e United Airlines.

A estimativa hipotética foi calculada pela analista Sheila Kahyaoglu, do banco de investimentos Jefferies, no início deste ano.

Como as companhias aéreas procuram constantemente reduzir despesas, o impacto poderia ser significativo. “Isso realmente pode fazer diferença, especialmente porque o petróleo está tão caro neste momento”, afirmou Kahyaoglu ao Financial Times.

No Brasil, a Azul também acompanha a tendência. Segundo o Brazil Journal, o CEO da companhia, John Rodgerson, afirmou que uma redução média de dois quilos no peso de cada passageiro poderia gerar uma economia de aproximadamente R$ 3 milhões por mês em combustível.

Por outro lado, mesmo que os passageiros que perderam peso estejam mais dispostos a viajar, também podem consumir menos lanches e bebidas alcoólicas durante os voos.

MENOS COMIDA, NOVAS ESCOLHAS

Algumas das mudanças mais expressivas no comportamento dos consumidores aparecem na alimentação.

Nos Estados Unidos, os restaurantes de serviço rápido estão entre os negócios mais afetados pela popularização dos GLP-1. Depois de seis a oito meses de uso dos medicamentos, os gastos das famílias nesses estabelecimentos caíram quase 9%.

A tradicional noite da pizza também perdeu espaço: as despesas com esse tipo de refeição diminuíram 22% no mesmo período.

Nos supermercados, os carrinhos de compras estão mudando.

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Segundo a PwC, 61% dos usuários atuais de GLP-1 afirmam comprar menos doces. Bebidas açucaradas e alcoólicas também perderam espaço, enquanto produtos frescos e opções ricas em proteínas ganharam importância.

Entre os entrevistados, 44% disseram comprar mais frutas, verduras e legumes, enquanto 34% aumentaram as compras de proteínas frescas.

Alimentos como iogurte grego, carne seca e barras nutricionais também passaram a fazer parte dessas escolhas.

canetas emagrecedoras enfraquecem movimento que prega moda inclusiva
Créditos: CR, Liudmila/ Chernetska/ iStock

No Brasil, essa mudança já é percebida pelos restaurantes.

Uma pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostrou que 61% dos empresários do setor identificaram alterações nos hábitos dos clientes associadas ao uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro.

Entre os entrevistados, 65% perceberam mudanças nos pedidos de sobremesas, enquanto 64% observaram aumento na procura por porções menores. Mais de 70% também relataram maior frequência na escolha de pratos considerados leves.

O movimento ainda é gradual, mas já influencia as decisões dos estabelecimentos. Parte dos empresários está apostando em cardápios com porções menores, novas combinações de pratos e produtos de maior valor agregado.

Os resultados mostram que o uso dos medicamentos pode desencadear mudanças mais amplas no estilo de vida, embora muitas pessoas tenham dificuldade para manter o peso após interromper o tratamento.

“Talvez não seja surpresa que pessoas dispostas a pagar tanto pela própria saúde com os GLP-1 também estejam dispostas a gastar mais com opções melhores e mais saudáveis”, afirmou Saxon Moseley, responsável pelo setor de lazer e hospitalidade da consultoria RSM UK, ao Financial Times.

Adaptação da reportagem de Anna-Louise Jackson, publicada originalmente na Fast Company em 27 de outubro de 2026. Consultar o original em inglês. Os dados brasileiros foram acrescentados pela redação, com fontes identificadas nos respectivos trechos.


SOBRE A AUTORA

Anna-Louise Jackson é jornalista e editora freelance com mais de 15 anos de experiência na cobertura de economia, mercado financeiro e... saiba mais