Por que investir em mulheres não é risco, é retorno

Gestoras e fundadoras femininas provam que inovação, impacto e lucro caminham juntos e que apoiar mulheres é bom negócio

Investir em mulheres não é risco, é retorno
Héctor J. Rivas via Unsplash e freepik.com

Anu Duggal 7 minutos de leitura

Apenas cerca de 10% dos fundos de capital de risco chegam à quarta rodada de investimento. Desses, apenas 5% a 10% são liderados por mulheres. Eu sou uma delas.

Quando fundei o Female Founders Fund em 2014, acreditava que retornos sólidos e convicção falariam por si só. Um bom desempenho desbloquearia capital e o setor recompensaria as conquistas, especialmente daquelas que estão inovando. Ou pelo menos era o que eu pensava. O que aprendi é que o capital de risco não é uma meritocracia pura. É um ecossistema movido por redes de contatos, onde quem você conhece muitas vezes importa tanto quanto o que você constrói.

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Mudanças culturais e políticas, além de um mercado competitivo, estão tornando especialmente difícil para os gestores de fundos manterem o ritmo. Agora é o momento para o setor refletir sobre como garantir que esses fundos, especialmente aqueles liderados por gestoras diversas, possam resistir a essas forças e continuar apoiando fundadoras diversas com ideias brilhantes.

"Investir em mulheres não é caridade"

Anu Duggal, da Female Founders Fund

Investir em mulheres não é caridade. Ao gerar retornos poderosos e duradouros, provou ser um negócio inteligente. Com a diminuição da tolerância ao risco, pode ser tentador para as instituições recorrerem ao familiar. Em vez disso, deveriam prestar atenção aos dados.

UMA TRAJETÓRIA MAIS CURTA PARA AS MULHERES


Ao longo dos anos, algumas lições ficaram claras. Não são as que você encontra no seu contrato de investimento, mas são as realidades que silenciosamente moldam quem recebe financiamento, quem recebe apoio novamente e quem desaparece silenciosamente.

Os retornos são apenas uma parte do quadro. Embora o desempenho seja importante, outras forças — mudanças institucionais, redes pessoais e política interna — muitas vezes impulsionam a forma como o capital é distribuído. Uma vez que uma instituição se compromete com um fundo, esse relacionamento pode se estender por várias gerações. O incentivo para trocar de gestores é baixo.

Os emissores de cheques querem proximidade com a próxima geração de talentos de primeira linha que estão trilhando seus próprios caminhos. Esse viés favorece as empresas derivadas — ex-investidores da Sequoia, a16z ou Benchmark que dão o salto empreendedor. Mas, para gestores sem esse pedigree institucional, o caminho parece bem diferente. E para as mulheres, que continuam significativamente sub-representadas nos quadros de sócios dessas empresas, o caminho é ainda mais estreito.

O QUE QUEREM AS INSTITUIÇÕES

Seu primeiro fundo geralmente é formado por fundadores, amigos e escritórios familiares dispostos a fazer uma aposta inicial. No entanto, no segundo ou terceiro fundo, o patamar muda. As instituições querem escala, sistemas e anos de retornos comprovados, tudo isso leva tempo para ser construído. Para gestores emergentes, esse é o salto mais difícil: romper com um sistema projetado para recompensar a familiaridade em vez da convicção.

"Quem você conhece, há quanto tempo os conhece e o que você tem a oferecer determina o acesso

Anu Duggal

O capital de risco é um negócio de relacionamentos. Ele se orgulha de dados e rigor, mas, na prática, funciona com base na confiança. O capital que alimenta nosso setor ainda circula por meio de redes construídas ao longo de décadas. Quem você conhece, há quanto tempo os conhece e o que você tem a oferecer determina o acesso.

É por isso que gestores de fundos novos ou de grupos minoritários geralmente acham mais fácil captar seu primeiro fundo com base em promessas do que o segundo com provas. Convencer alguém a fazer a aposta inicial em alguém novo pode ser mais fácil do que pedir que quebre um padrão com fundos subsequentes — porque o padrão ainda é predominantemente masculino.

RIQUEZA NÃO É OPCIONAL

Também precisamos analisar a questão financeira. Riqueza não é opcional — é o preço de entrada. Por exemplo, espera-se que todos os novos gestores de fundos invistam um "compromisso de sócio-gerente", que equivale a aproximadamente 1% do tamanho total do fundo. Em um fundo de US$ 50 milhões, isso significa US$ 500.000 em dinheiro, adiantado.

Imagine pedir a um empreendedor que invista meio milhão de dólares em sua própria rodada de financiamento Série B para demonstrar comprometimento. Para muitos, especialmente mulheres e gestores de fundos iniciantes, essa barreira é intransponível sem patrimônio preexistente, seja por gerações ou por herança conjugal. É um dos filtros estruturais mais silenciosos, porém mais persistentes, no setor de capital de risco. Acaba por colocar as mulheres em desvantagem de forma singular, já que, em média, possuem menos patrimônio pessoal e intergeracional.

Ter uma reserva financeira também é vital para jogar a longo prazo que o capital de risco exige. Para se manter no mercado, principalmente durante recessões, é preciso ter uma reserva financeira. Grandes retornos não acontecem com frequência. Vender parte do investimento antecipadamente pode ajudar um pouco, mas gestores de fundos pequenos nem sempre podem se dar ao luxo de aceitar um preço menor sem dificultar a captação de recursos posteriormente.

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Não se trata apenas de resiliência e perseverança; trata-se de tempo de sobrevivência. E como as mulheres frequentemente ingressam no setor mais tarde, sem as redes de segurança que historicamente ampararam seus colegas homens, seu tempo de sobrevivência costuma ser significativamente menor. Permanecer no jogo tempo suficiente para ver suas convicções validadas é, em si, uma forma de privilégio.

Outro desafio que se apresentou ao longo dos anos é que, embora diversas instituições e corporações bem-intencionadas tenham se mobilizado para apoiar e capitalizar gestores de diferentes origens, o objetivo por trás de muitos desses investimentos tem sido fornecer capital inicial para ajudar novos fundos a decolarem, com a expectativa de que investidores institucionais maiores assumam o controle a partir daí.

UMA JORNADA DIFÍCIL

Mesmo com o aumento da participação de mulheres no setor, a transição ainda é difícil. Com as mudanças culturais e políticas que ocorreram, existe uma oportunidade real de repensar como apoiar gestores diversos além do primeiro fundo. Por exemplo, ampliando a base de apoio a longo prazo para que possam resistir aos ciclos de mercado e construir franquias duradouras. O sistema atual ainda pressupõe que as mulheres, de alguma forma, "se formarão" em estruturas de apoio institucional que nunca foram projetadas para elas.

Fundei o Female Founders Fund como uma empreendedora que identificou uma lacuna no mercado. Trata-se de uma clara disparidade entre o calibre das mulheres que constroem empresas e o capital disponível para apoiá-las. Doze anos depois, essa tese se provou correta repetidas vezes.

No Female Founders Fund, vimos isso em primeira mão. A Maven Clinic se tornou o primeiro unicórnio na área de saúde feminina, definindo uma categoria de atendimento totalmente nova. A Billie reinventou o cuidado pessoal moderno antes de ser adquirida pela Edgewell. A BentoBox transformou a tecnologia para o setor de hospitalidade, levando a uma saída bem-sucedida.

A Tala, agora avaliada em quase US$ 1 bilhão, continua a crescer globalmente, expandindo o acesso a serviços financeiros em mercados emergentes. A Wagmo criou uma nova categoria de benefícios para funcionários focada em cuidados com animais de estimação, enquanto a Violette_FR construiu a primeira marca de beleza francesa liderada por artistas em décadas.

"Inovação liderada por mulheres gera valor real para empresas e consumidores"

Anu Duggal

ELAS GERAM VALOR

Essas empresas impactam milhões de clientes finais e desenvolveram produtos, ferramentas e serviços que se expandiram por diversos setores. Isso comprova que a inovação liderada por mulheres gera valor real para empresas e consumidores. Essas fundadoras são criadoras de categorias, combinando grandes visões com execução de classe mundial.

Esses resultados não são exceções. São a prova de que apoiar fundadoras é uma estratégia de investimento inteligente que gera retornos significativos. Não podemos permitir que este momento, com mercados mais competitivos e mudanças nas prioridades de mercado e sociais, crie um impulso negativo.

As mulheres agora lideram setores antes considerados inacessíveis: Space DOTS, fundada por uma engenheira aeroespacial com formação pela NASA; Beyond Aero, reinventando o voo por meio da propulsão a hidrogênio e eletricidade; Amini AI, construindo a infraestrutura de dados ambientais da África; Waabi, redefinindo o transporte autônomo; e Dacora, fazendo história como a primeira empresa automotiva fundada por mulheres.

MULHERES MOLDAM A PRÓXIMA FRONTEIRA

Da indústria aeroespacial à inteligência artificial, do clima aos transportes, as mulheres estão moldando a próxima fronteira e o melhor ainda está por vir.

Para continuarmos a ver novos exemplos de sucesso, especialmente para aquelas que vivem fora do ecossistema tradicional do Vale do Silício, precisamos manter o fluxo de capital. É assim que a próxima geração de mulheres e fundadoras sub-representadas se verão representadas nas líderes que estão construindo hoje.

Num momento em que o mundo parece cada vez mais dividido, investir ainda mais no progresso não é apenas um bom negócio — é uma boa gestão. Porque a parte mais difícil não é captar recursos, mas sim construir um fundo que perdure. E quanto mais tempo passo neste ramo, mais claro fica: investir em mulheres não é um risco, é um retorno.


SOBRE A AUTORA

Anu Duggak é sócia-fundadora do Female Founders Fund saiba mais