Por que os carros pequenos voltaram ao radar dos Estados Unidos

Preços altos, cidades densas e novos microcarros reacendem o debate sobre veículos menores nos EUA, em especial os elétricos

Crédito: Fast Company Brasil

Adele Peters 9 minutos de leitura

O minúsculo Fiat Topolino — com o comprimento aproximado de uma bicicleta de carga e metade do tamanho de um SUV ou picape americana — é o tipo de carro que os turistas param para fotografar como uma curiosidade charmosa em Roma ou Milão. O carro elétrico atinge apenas 45 km/h e foi projetado para as densas cidades europeias. Mas também custa apenas cerca de US$ 10.000. Agora, a Fiat aposta que os americanos estão prontos para algo tão pequeno.

A empresa anunciou recentemente planos para levar o carro para os EUA, pouco depois do presidente americano Donald Trump ter dito que queria ajudar a trazer "kei cars" igualmente pequenos do Japão para os EUA.

KEI CARS VERSUS MINICARROS

No Japão, os kei cars — abreviação de keijidosha, que significa “automóvel leve” — surgiram em 1949 como parte das políticas industriais japonesas para reconstruir a indústria automobilística do país, quando a maioria das pessoas não podia comprar veículos maiores. Os carros precisam ter menos de 3,35 metros de comprimento e motores pequenos. Eles são permitidos nas rodovias japonesas, mas com recursos de segurança reduzidos.

Suzuki Carry: na Índia, a fabricante japonesa tem boa presença
Suzuki Carry (Paul Esch-Laurent/Unsplash)

Os kei cars ainda são muito populares no Japão e também em países como a Índia, onde os pequenos carros da Suzuki dominam o mercado automotivo há décadas.

Mas mesmo os modelos atuais provavelmente não atenderiam aos requisitos de segurança nos EUA, e adicionar esses recursos aumentaria os custos. Veja o exemplo do Honda N-Box, um carro campeão de vendas que custa entre US$ 12.000 e US$ 15.000 e tem um consumo de combustível de cerca de 21 km/l.

“O Honda N-Box não tem airbags, não tem ABS e não tem alguns dos recursos que normalmente seriam exigidos pelas regulamentações atuais nos Estados Unidos”, diz Aditya Ramji, economista da UC Davis que se concentra em energia, transporte e mobilidade elétrica.

“Isso significa que, no momento em que eu adicionar esses requisitos e tornar este veículo compatível, o preço do N-Box de US$ 12.000 passará a ser de US$ 22.000 imediatamente", acrescenta Ramji. É semelhante ao custo do Toyota Corolla — tornando improvável que um N-Box pudesse competir sob as regulamentações atuais.

Honda N-Box EV
Honda N-Box EV (Divulgação/Honda)

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Há um forte argumento de que carros menores são melhores para a sociedade. Eles são mais acessíveis, mais eficientes, ocupam menos espaço e são mais seguros para pedestres e outros veículos em caso de colisão.

De forma atípica, Trump observou que carros kei "realmente charmosos" podem ser elétricos e econômicos em termos de combustível, pouco depois de seu governo ter iniciado o processo para flexibilizar os requisitos de eficiência de combustível.

Mas para que os menores microcarros se tornem mais do que uma categoria de nicho, muita coisa precisaria mudar.

INTERESSE CRESCENTE PELOS CARROS MENORES

Durante anos, acreditava-se que os americanos adoravam veículos grandes. As caminhonetes da série F da Ford eram, há muito tempo, os veículos mais vendidos. Os SUVs eram mais populares que os carros.

Mas a preferência por tamanho está começando a mudar. Os SUVs compactos agora vendem mais que os SUVs maiores. As vendas de caminhonetes médias estão crescendo mais rápido que as de caminhonetes grandes. As vendas de carros compactos também estão crescendo.

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As montadoras priorizam veículos maiores porque lucram mais com eles, em parte devido a uma brecha nas regulamentações de eficiência de combustível. Mas, à medida que a preocupação dos consumidores com os custos aumenta, os compradores estão se movendo na direção oposta.

"Acho que certamente não está em nosso DNA gostar de carros grandes", diz Ben Crowther, diretor de políticas da America Walks, uma organização que defende veículos menores para tornar as ruas mais seguras para pedestres e outros usuários da via. “É o resultado de décadas de marketing. Mas acredito que o ponto de virada está em carros pequenos se tornarem mais acessíveis. Atualmente, o preço médio de um carro novo gira em torno de US$ 50.000 nos EUA. Isso equivale facilmente ao salário de alguém. Esse custo é inflacionado porque os veículos são grandes demais.”

Caminhonete mini modelo Telo MT1 VE
Caminhonete mini modelo Telo MT1 VE (Divulgação/Telo)


A Telo, uma startup que fabrica uma pequena picape elétrica com comprimento semelhante ao de um Mini Cooper e mais barata que uma picape a gasolina típica, afirma ter observado grande interesse em seu primeiro modelo, que chegará ao mercado no próximo ano.

Jason Marks, CEO da Telo, destaca a alta demanda por kei cars e picapes. Atualmente, os EUA permitem a importação desses veículos japoneses apenas quando eles têm pelo menos 25 anos, de acordo com regulamentações voltadas para carros clássicos. Apesar das restrições, as picapes kei são a maior categoria de veículos importados individualmente para os EUA, com cerca de 7.500 unidades chegando no ano passado. “São veículos do tamanho de carrinhos de golfe, com mais de 160.000 quilômetros rodados, que não conseguem atingir 96 km/h”, diz Marks. “E mesmo assim são tão desejáveis.”

A oferta da Telo é bem diferente de um kei truck — o Telo MT1 pode transportar a mesma carga que uma picape comum, pode ser dirigido em qualquer lugar e foi projetado com recursos de segurança modernos, incluindo sensores, ao contrário dos kei cars de 25 anos atrás, que normalmente nem sequer têm airbags.

Ainda assim, o interesse em kei cars ilustra o apetite por carros menores em geral. E embora os kei cars e microcarros como o Topolino enfrentem desafios de adoção, também há espaço para que se tornem mais comuns com mais apoio.

Em teoria, o Departamento de Transportes dos EUA (DOT) poderia criar novos padrões e requisitos de certificação com base nos que estão em vigor no Japão há décadas, tornando mais viável a importação de novos kei cars. Esse processo levaria tempo.

A postagem de Trump no Truth Social dizendo "Acabei de aprovar a fabricação de CARROS MINÚSCULOS na América" ​​não constituiu, de fato, uma aprovação.

Topolino elétrico, da Fiat
Topolino elétrico, da Fiat (Divulgação/Fiat)

Microcarros como o Fiat Topolino se enquadram em uma categoria diferente sob as regulamentações dos EUA — algo que o DOT chama de "veículo elétrico de bairro" ou NEV. Esses carros são limitados a velocidades de 40 km/h. Na maioria dos estados, eles só são permitidos em estradas com limites de velocidade de até 55 km/h. Alguns estados exigem equipamentos de segurança extras, como limpadores de para-brisa. Mas airbags não são obrigatórios. Devido às limitações, é um mercado de nicho.

Alguns especialistas duvidam que a demanda por kei cars ou veículos elétricos de bairro possa crescer significativamente. "De modo geral, é difícil imaginar um cenário que possa mudar significativamente o mercado de veículos particulares em uma direção que resulte na adoção generalizada de carros muito pequenos nos Estados Unidos", afirma David Bunch, professor emérito de administração da UC Davis, que estudou a escolha do consumidor por veículos. A principal exceção, segundo ele, seriam áreas altamente urbanizadas como Nova York ou São Francisco.

O DESAFIO DA SEGURANÇA


Tanto os kei cars quanto os veículos elétricos de bairro enfrentam preocupações dos consumidores em relação à segurança. Ainda assim, Ramji argumenta que veículos pequenos poderiam ser relativamente seguros em deslocamentos urbanos, mesmo sem o conjunto atual de recursos de segurança obrigatórios, já que trafegam em velocidades relativamente baixas.

O crescente conjunto de recursos de segurança em outros carros modernos, incluindo sensores e frenagem automática, também contribui para isso. “Acredito que a tendência que veremos à medida que a frota se renova e mais veículos com recursos de segurança se torna mais evidente é que você não precisa da blindagem completa de um SUV ou de uma picape, porque seu carro, e o de todos os outros na estrada, está trabalhando ativamente, além do motorista, para evitar a colisão”, afirma Crowther.

Se mais carros pequenos estivessem em uso, também haveria menos mortes de pedestres: se uma pessoa for atropelada por um veículo pequeno, ela tem muito mais chances de sobreviver.

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Isso ocorre porque a força da colisão é menor e porque carros pequenos atingem o corpo mais abaixo do que uma caminhonete grande ou um SUV, que podem atingir fatalmente alguém na cabeça ou no peito. Além disso, carros pequenos têm menos probabilidade de danificar outros veículos em uma colisão. O paradoxo, claro, é que as pessoas tendem a escolher carros que as protejam, e não os outros na estrada.

“A noção de ‘benefícios de segurança’ dos carros menores é problemática há muito tempo, porque eles precisam compartilhar a estrada com veículos maiores, e em uma ‘disputa’, os veículos maiores vencem”, diz Bunch. “Ou seja, carros menores são, por definição, menos seguros em um ambiente com veículos de tamanhos variados.”

OS MINICARROS PODEM CRESCER?

Mesmo com os desafios existentes, pode haver espaço para mais carros pequenos nos EUA, especialmente em cidades densamente povoadas. A demanda não é garantida — o minúsculo Smart Fortwo foi retirado do mercado americano em 2019 devido às baixas vendas.

Mas algumas mudanças nas políticas públicas poderiam impulsionar o crescimento. Por exemplo, uma cidade poderia oferecer permissões de estacionamento mais baratas com base no tamanho do veículo, já que carros pequenos não ocupam tanto espaço valioso nas calçadas. Os estados poderiam optar por permitir veículos elétricos em mais ruas — ou, para aumentar a segurança, poderiam reduzir os limites de velocidade em mais vias.

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Um melhor planejamento urbano também ajudaria. “Para ter veículos elétricos em bairros residenciais, é preciso uma melhor combinação de usos do solo, o que não vemos na maioria dos bairros residenciais”, afirma Kara Kockelman, professora de engenharia de transportes da Universidade do Texas em Austin.

“Nesses loteamentos planejados, um supermercado fica em uma rua com limite de velocidade muito mais alto", lembra a professora. Se fosse possível dirigir em baixa velocidade para fazer compras ou ir para o trabalho ou escola, os microcarros poderiam se tornar uma opção mais viável para mais pessoas. Claro, também seria mais fácil andar de bicicleta nesse cenário.

Nissan Sakura EV
Nissan Sakura EV (Divulgação/Nissan)


Tanto os microcarros quanto os kei cars poderiam ser úteis como um segundo carro para deslocamentos curtos, diz Ramji, e isso poderia potencialmente ajudar a desbloquear um novo mercado urbano para veículos elétricos.

Não é provável que o atual governo dos EUA faça algo intencionalmente para promover carros elétricos. Mas criar novas regulamentações que permitam os kei cars também poderia, teoricamente, impulsionar as vendas de veículos elétricos. Um kei car popular atualmente, o Nissan Sakura EV, tem uma autonomia de cerca de 177 km e custa entre US$ 16.000 e US$ 17.000 — muito menos do que a maioria dos veículos elétricos no mercado americano.

“Talvez esta seja uma oportunidade nos EUA para pensar em como o segmento de carros pequenos pode servir fundamentalmente à narrativa da eletrificação e realmente dar um salto estratégico nesse ecossistema, olhando para veículos elétricos urbanos em vez de carros a gasolina no segmento de minicarros”, diz Ramji.


SOBRE A AUTORA

Adele Peters é redatora da Fast Company. Ela se concentra em fazer reportagens para solucionar alguns dos maiores problemas do mundo, ... saiba mais