Uma startup quer vender luz do sol à noite por US$ 5 mil a hora
A Reflect Orbital planeja usar espelhos gigantes em satélites para iluminar usinas solares e áreas atingidas por desastres. Astrônomos alertam para os riscos.

Uma startup quer encher o céu noturno de feixes ultrapotentes de luz solar refletida. O que poderia dar errado?
Segundo os astrônomos, quase tudo. O plano da Reflect Orbital de lançar 50 mil satélites equipados com espelhos gigantes equivale a “uma bala na cabeça”, segundo um astrofísico, que alerta para os riscos tanto ao meio ambiente quanto ao futuro da astronomia.
VENDER A LUZ DO SOL
Com a proposta de oferecer “luz solar como serviço”, a Reflect pretende colocar em órbita uma constelação de satélites capazes de direcionar para a Terra, sob demanda, feixes de luz solar com cinco quilômetros de largura. A intensidade da iluminação poderia variar entre “a luz do meio-dia e a luz do luar”.
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No site da empresa, as possíveis aplicações incluem abastecer painéis solares, iluminar áreas atingidas por desastres, auxiliar missões de busca e resgate e fornecer iluminação para canteiros de obras, cidades e eventos.
Mas, com um preço de US$ 5 mil por hora de luz solar, o serviço seria caro demais para a maioria dos clientes. Isso leva os críticos a acreditar que apenas as Forças Armadas e grandes corporações teriam condições de contratar a Reflect, apesar da imagem altruísta que a empresa procura transmitir.
Até agora, a Reflect não lançou nenhum satélite. Em julho, recebeu autorização da Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC, na sigla em inglês) para lançar um único satélite de demonstração, contrariando grupos ambientalistas que pediram à agência que reconsiderasse sua decisão.
A empresa também reservou recentemente dois lançamentos exclusivos de foguetes com a indiana Skyroot Aerospace.
O FIM DA ASTRONOMIA
A possibilidade de interferir no ciclo natural entre dia e noite despertou imediatamente a preocupação de ambientalistas e astrônomos. Esses especialistas já precisam lidar com um céu noturno cada vez mais ocupado por equipamentos espaciais, como os satélites da rede Starlink, da SpaceX.
Gáspár Bakos, astrofísico da Universidade de Princeton, afirmou à revista Sky & Telescope que os planos da Reflect de oferecer luz solar sob demanda “basicamente ignoram todo o progresso que fizemos nas últimas décadas para conscientizar sobre a poluição luminosa e reduzi-la”.
Bakos e outros astrônomos temem que os feixes provoquem a dispersão de luz pelo céu noturno, dificultando enormemente a observação de objetos espaciais por telescópios instalados na Terra.
Astrônomos amadores também poderiam sofrer danos permanentes à visão caso observassem um dos feixes da Reflect por meio de um telescópio com abertura superior a 12 polegadas (cerca de 30 centímetros).
Iluminar ambientes naturalmente escuros durante a noite também poderia ameaçar plantas e animais que dependem da alternância entre dia e noite para regular seus processos biológicos.
Isso inclui os seres humanos, cujo ritmo circadiano regula, entre outras funções do organismo, os padrões de sono, a produção de hormônios e a digestão.
A COMPARAÇÃO COM AS LÂMPADAS
Em entrevista ao site Payload, Ben Nowack, CEO da Reflect Orbital, respondeu às críticas frequentes aos planos da empresa.
Segundo ele, caso os astrônomos estejam preocupados com a poluição luminosa, a Reflect tomará medidas para evitar interferências no funcionamento dos telescópios.
“Se houver um astrônomo ou algum lugar que não queira receber luz e tenha exigências muito rígidas em relação à luminosidade [...] vamos garantir que não atenderemos clientes nas proximidades”, afirmou Nowack.
Quanto às preocupações com os impactos sobre a vida na Terra, o executivo atribuiu as críticas a um medo generalizado de novas tecnologias.
“Preocupações e receios semelhantes surgiram quando as lâmpadas foram apresentadas ao mundo. As pessoas se preocupavam com o ritmo circadiano e se perguntavam coisas como: isso é algo divino?”, disse.
O problema é que os feixes de luz solar da Reflect seriam um pouco mais intensos do que os de uma lâmpada comum, podendo espalhar iluminação por até 30 quilômetros além das áreas-alvo.
Segundo um relatório de Bakos e seus colegas, cada satélite também apareceria no céu como uma fonte pontual de luz com brilho quatro magnitudes superior ao da Lua.
“Isso não é uma ‘preocupação’. É como levar uma bala na cabeça”, afirmou Bakos. “É o fim da astronomia feita a partir da Terra.”