Trump adia ultimato ao Irã e dá 5 dias para reabrir o Estreito de Ormuz

Presidente americano suspende ataques ao Irã, enquanto conflito se intensifica, causa mortes, pressiona preço do barril de petróleo e bagunça a economia global

Trump guerra Estreito de Ormuz
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Jon Grambrell, David Rising e Samy Magdy 8 minutos de leitura

O presidente Donald Trump estendeu nesta segunda-feira (23) o prazo para o Irã reabrir o crucial Estreito de Ormuz à navegação internacional, afirmando que os EUA suspenderiam os ataques contra as usinas de energia iranianas por cinco dias.

Pouco depois do anúncio de Trump em seu site Truth Social, a televisão estatal iraniana exibiu um gráfico com a seguinte mensagem:

- "Presidente dos EUA recua após firme advertência do Irã".

O adiamento ocorreu horas antes do prazo autoimposto por Trump, ainda no mesmo dia.

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Escrevendo em letras maiúsculas, Trump afirmou que os EUA e o Irã tiveram “conversas muito boas e produtivas” que poderiam levar a “uma resolução completa e total” da guerra. As negociações continuariam “ao longo da semana”, disse ele.

Trump acrescentou que a suspensão de sua ameaça de atacar usinas de energia estava “sujeita ao sucesso das reuniões e discussões em andamento”.

ANÚNCIO SEM DETALHES

Trump não deu detalhes sobre as negociações que ocorreram. O Irã não reconheceu imediatamente nenhuma conversa entre os países, mas o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, disse ter conversado por telefone com seu homólogo turco, Hakan Fidan. A Turquia já atuou como intermediária em negociações entre Teerã e Washington.

Abbas Araghchi, Ministro das Relações Exteriores do Irã
Abbas Araghchi, Ministro das Relações Exteriores do Irã (KHAMENEI.ir/Wikimedia Commons/2024)

O anúncio de Trump ocorreu enquanto os Emirados Árabes Unidos informavam que suas defesas aéreas estavam tentando interceptar novos disparos iranianos na tarde de segunda-feira.

Mais cedo, ainda nesta segunda-feira, o Irã alertou que atacaria usinas de energia em todo o Oriente Médio e minaria o Golfo Pérsico depois que Trump ameaçou bombardear usinas na República Islâmica caso o estreito não fosse reaberto.

QUARTA SEMANA DE GUERRA E O RISCO A INSTALAÇÕES NUCLEARES

A guerra, agora em sua quarta semana, já presenciou diversas reviravoltas dramáticas — o assassinato do líder supremo do Irã, o bombardeio de um importante campo de gás iraniano e ataques contra instalações de petróleo e gás e outras infraestruturas civis em países árabes do Golfo. O conflito já matou mais de 2.000 pessoas, abalou a economia global, fez os preços do petróleo dispararem e colocou em risco alguns dos corredores aéreos mais movimentados do mundo.

O ultimato de Trump e a promessa de retaliação do Irã ameaçam aumentar ainda mais a tensão, com repercussões potencialmente catastróficas para civis em toda a região.

Mapa do Oriente Médio com destaque para o estreito de Ormuz
Mapa do Oriente Médio, com destaque para o Estreito de Ormuz (Fonte: Enciclopédia) Britânica

Se concretizados, os ataques poderiam deixar vastas áreas do Irã e do Golfo sem energia elétrica, além de paralisar usinas de dessalinização que fornecem água potável para muitos países desérticos. Há também crescentes preocupações com as consequências de eventuais ataques a instalações nucleares.

A intensidade da retórica demonstra como a guerra escalou a um ponto inimaginável no início do conflito, em 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel começaram a bombardear o Irã.

AS AMEAÇAS DE TRUMP E OS REFLEXOS NO BOLSO


Trump afirmou que os EUA "destruiriam" as usinas de energia do Irã, a menos que o país liberasse o controle do Estreito de Ormuz em 48 horas — um prazo que expiraria no final desta segunda-feira, horário de Washington, mas que agora foi prorrogado.

O Irã fechou o estreito, por onde passa um quinto do petróleo mundial, além de outras commodities importantes, em resposta aos ataques dos EUA e de Israel. Um pequeno número de navios conseguiu passar. O Irã insiste que a via navegável crucial permanece aberta — apenas não para os EUA, Israel ou seus aliados.

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O bloqueio causou estragos nos mercados de energia, elevou os preços de alimentos e outros produtos muito além do Oriente Médio e provocou ondas de choque em toda a economia global.

“Nenhum país ficará imune aos efeitos desta crise se ela continuar nesta direção.”

Fatih Birol, da AIE

“Nenhum país ficará imune aos efeitos desta crise se ela continuar nesta direção”, disse Fatih Birol, chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), com sede em Paris.

A Guarda Revolucionária paramilitar do Irã prometeu retaliação caso Trump cumprisse sua ameaça, afirmando que o país atacaria usinas de energia em todas as áreas que fornecem eletricidade para bases americanas, “bem como as infraestruturas econômicas, industriais e energéticas nas quais os americanos têm participação”.

O presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Qalibaf, disse que o Irã consideraria infraestruturas vitais em toda a região como alvos legítimos, incluindo instalações de energia e dessalinização essenciais para o abastecimento de água potável nos países do Golfo.

A agência de notícias semioficial Fars, próxima à Guarda Revolucionária, publicou uma lista dessas instalações, incluindo a usina nuclear dos Emirados Árabes Unidos. No fim de semana, o Irã lançou mísseis contra Dimona, em Israel, perto de uma instalação fundamental para seu programa de armas atômicas. A instalação israelense não foi danificado.

O chefe do Comando Central dos Estados Unidos, almirante Brad Cooper, afirmou em entrevista que o Irã estava lançando mísseis e drones de áreas povoadas e sugeriu que essas áreas seriam alvejadas.

“Vocês precisam ficar em casa por enquanto”, disse Cooper a civis iranianos em entrevista à rede de satélite em língua farsi Iran International, transmitida na manhã de hoje

Em sua primeira entrevista individual desde o início da guerra, Cooper disse que os EUA e Israel estavam visando infraestrutura e instalações de produção para destruir a capacidade do Irã de reconstruir suas forças armadas.

“Não se trata apenas da ameaça de hoje”, disse ele. “Estamos eliminando a ameaça do futuro.”

ISRAEL ATACA TEERÃ E IRÃ ALERTA SOBRE INVASÕES

Israel lançou novos ataques nesta segunda-feira contra a capital iraniana, dizendo que havia “iniciado uma onda de ataques em larga escala” contra alvos de infraestrutura em Teerã, sem dar mais detalhes imediatamente. Explosões foram ouvidas em vários locais durante a tarde. Não ficou imediatamente claro o que havia sido atingido.

Com o envio de mais navios de assalto anfíbio (embarcações de combate de grande porte projetadas para projetar poder em terra, transportando e desembarcando tropas, veículos e aeronaves diretamente em território inimigo) e fuzileiros navais adicionais dos EUA para o Oriente Médio, o Irã alertou contra qualquer ataque terrestre.

“Qualquer tentativa do inimigo de atingir as costas ou ilhas do Irã levará, naturalmente e de acordo com a prática militar estabelecida, à minagem de todas as rotas de acesso… no Golfo Pérsico e ao longo da costa”, alertou o Conselho de Defesa do Irã em um comunicado.

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O uso generalizado de minas poderia colocar em risco não apenas navios militares, mas também dezenas de navios comerciais que aguardam para atravessar o Estreito de Ormuz, e a limpeza levaria muito tempo após o fim do conflito.

Trump afirmou que não tem planos de enviar tropas terrestres ao Irã, mas também disse que mantém todas as opções em aberto. Israel sugeriu que suas forças terrestres poderiam participar da guerra.

Israel também atacou o grupo militante Hezbollah, ligado ao Irã, no Líbano durante a guerra, enquanto o grupo lançou centenas de foguetes contra Israel.

ATAQUES FAZEM O NÚMERO DE VÍTIMAS ESCALAR

Nos últimos dias, Israel atingiu vários prédios residenciais em Beirute e bombardeou pontes sobre o rio Litani, no sul do Líbano. O presidente libanês, Joseph Aoun, classificou os ataques a pontes como "um prelúdio para uma invasão terrestre", enquanto o Egito denunciou os ataques como "punição coletiva" de civis pelas ações do Hezbollah.

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As autoridades afirmam que os ataques israelenses mataram mais de 1.000 pessoas no Líbano e deslocaram mais de 1 milhão.

O número de mortos no Irã ultrapassou 1.500, segundo o Ministério da Saúde iraniano. Em Israel, 15 pessoas foram mortas em ataques iranianos. Pelo menos 13 militares americanos foram mortos, além de mais de uma dúzia de civis na Cisjordânia ocupada e nos países árabes do Golfo.

O QUE A FALTA DE PLÁSTICO TEM A VER COM A GUERRA?

Os preços do petróleo permaneceram teimosamente altos no início do pregão, com o preço do petróleo Brent, referência internacional, em torno de US$ 113 o barril, um aumento de cerca de 55% desde o início da guerra.

Gasolina deve aumentar no Brasil petrobras
Foto: Freepik

Jorge Moreira da Silva, um alto funcionário das Nações Unidas, afirmou que o mundo já presenciou um efeito dominó, incluindo "aumentos exponenciais nos preços do petróleo, combustíveis e gás", que tiveram um impacto profundo em milhões de pessoas, principalmente em países em desenvolvimento da Ásia e da África.

"Não há solução militar", declarou.

Em outro sinal dos efeitos abrangentes, a gigante química sul-coreana LG Chem anunciou nesta segunda-feira que precisou fechar uma importante fábrica porque a guerra interrompeu o fornecimento de nafta, um derivado do petróleo usado na fabricação de plástico. (Associated Press, com Charlotte Graham-McLay, Sally Abou AlJoud, Bassem Mroue e Tong-hyung Kim)


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Jon Grambrell, David Rising e Samy Magdy são jornalistas da Associated Press saiba mais