Um macaquinho e sua pelúcia na mira do marketing
A história do filhote japonês que encontrou “família” em uma pelúcia mobilizou milhões e ganhou versões corporativas em diversos países

Um primata, identificado como macaco-japonês (Macaca fuscata,) tem gerado comoção internacional depois que suas imagens agarrado a um bicho de pelúcia - um orangotango vendido pela Ikea -, e apartado do bando, passaram a fazer parte do noticiário e invadiram as redes sociais. Nos últimos dias, nenhum grande tema de proporções globais sensibilizou as pessoas e os algoritmos. Foi a história do pequeno Punch, nascido há sete meses, um dos moradores do Zoológico de Ichikawa (perto de Tóquio), que causou mobilização.
O filhote foi abandonado pela mãe logo depois do nascimento. Os tratadores fizeram alguns testes até chegarem à ideia de substituir a figura materna pela pelúcia em forma de orangotango vendida nas lojas da multinacional sueca Ikea.
O nome foi dado Shunpei Miyakoshi, tratador de animais do zoológico, segundo reportagem publicada pelo veículo Oricon. Seria uma homenagem ao cartunista japonês Kazuhiko Kato, conhecido como Monkey Punch.
O macaquinho teve direito a hashtags de apoio sob o argumento de que estava sofrendo bullying dos outros macacos que vivem em uma das áreas dos primatas. #AguentaFirmePunch, pediram os internautas, chocados ao ver a indiferença - e até agressividade - com que Punch vinha sendo tratado durante a socialização.
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Introduzir um novo integrante a um grupo da sua espécie nem sempre é fácil, como explicaram os especialistas em comportamento animal. Núcleos familiares e estruturas de poder já estão estabelecidas. E Punch, assim como os filhotes de tantas outras espécies, já mostrou não ter medo de aventuras e provocações aos mais velhos, sem se dar conta dos riscos.

Ainda assim, o vídeo de um animal maior - provavelmente uma fêmea tentando dar um pouco de tranquilidade ao seu filhote em uma das investidas do recém-chegado - se espalhou de provocou preocupação quanto ao futuro de Punch naquele ambiente hostil aos olhos humanos.
Ao mesmo tempo, o Zoológico de Ichikawa passou a ter no portão filas de visitantes à espera de mais um momento em que o pequeno macaco-japonês passasse correndo diante dos celulares arrastando seu próprio bicho de pelúcia - ou enrolado ao brinquedo como se estivesse ganhando um cafuné materno.
CLIQUES E CLIENTES
Nesse clima, surgiram empresas de diferentes segmentos - de alimentação ao streaming - para aproveitar o "new face" em suas campanhas nas redes sociais. Mas não foram só as companhias que quiseram aproveitar o momento. Na Índia, com a ajuda de muita inteligência artificial, Punch e seu bicho de pelúcia apareceram ao lado de uma policial para divulgar o número do serviço de emergência (o nosso 190).

A Ikea, é claro,vem sendo a empresa que mais tem aproveitado o bom (ou mau) momento de Punch. Diversas subsidiárias criaram imagens do animal ou de outro macaquinho de pelúcia vendido nas lojas e nos sites da marca, ao lado do orangotango Djungekskog, a "mãe de aluguel" da figura mais popular entre os símios desde King Kong e os personagens da franquia O Planeta dos Macacos. Em vários países, o produto está esgotado, mostrando que, até agora, a marca foi quem mais soube aproveitar a temperatura para se beneficiar até agora do sucesso do pequeno primata,
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O prefeito da cidade de Ichikawa, Ko Tanaka, aproveitou a popularidade do filhote e postou em sua conta no X uma foto ao lado de Petra Fare, presidente e diretora de sustentabilidade da IKEA Japão, ao lado de montes de pelúcias para reposição do orangotango, já surrado de tanto ser levado de um canto para outro por Punch.

Na conta japonesa da rede, Punch e sua dupla aparecem abraçados sob a frase "Às vezes, família é quem encontramos pelo caminho". Já a operação de Singapura foi em outra linha, usando suas várias versões de pelúcia e o texto "No fim das contas, todos nós somos vulneráveis".
A conta internacional dos Ursinhos Carinhosos (os Care Bears, da empresa americana Cloudco Entertainment) no Instagram mandou uma mensagem fofa: "Nós amamos você, Punch".
Já a operação do KFC no Panamá usou a mesma rede social para publicar uma montagem nonsense em que mostra o famoso órfão de Ichikawa servindo uma coxinha de frango frito (!) para um macaco de pelúcia.

Numa linha mais "engraçadinha", a subsidiária indiana da Neflix postou no Instagram o trecho de uma cena de uma das personagens da produção Kabhi Kushi Kabhi Gham protestando e a legenda "Eu para quem pratica bullying contra Punch".
Também na Índia, a Motorola usou o garoto-propaganda japonês com um de seus smartphones, com a frase "Cada fotograma impressiona."
No clima animal e mais sutil no objetivo de vender, a operação da marca Jeep no Peru colocou Punch e seu orangotango de mãos dadas, andando por uma floresta, e o texto "A aventura apenas começa". A imagem foi publicada em suas redes sociais.
Ainda nas redes sociais, a Ryanair tratou de colocar o personagem em uma aeronave com o texto "Só Punch merece voos de graça".

As estratégias foram diferentes, mas o objetivo das grandes marcas foi o mesmo: se associar a Punch, o filhote descartado pela mãe (segundo os profissionais do zoológico, talvez pelas altas temperaturas, que dificultaram o parto) e que, com dificuldades de se enturmar, fez de uma pelúcia uma espécie de "amigo imaginário".
SEM FLORESTA E MORTOS POR AGRICULTORES
Em uma situação normal, os filhotes são totalmente dependentes das mães nos dois primeiros anos de vida. Só então são considerados desmamados. Até lá, são agarrados à mãe e nesse contato aprendem as lições de sobrevivência, num vínculo que vai durar a vida toda, como explica publicação do New England Primate Conservancy.
Os macacos-japoneses são classificados como de Menor Preocupação pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN, novembro de 2015) e estão na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da UICN. Segundo a publicação, a população total (calculada em mais de 100.000 indivíduos em seus habitats naturais) explicam o baixo nível de ameaça.
Mas os pesquisadores alertam para o fato de, a cada ano, em torno de 10 mil animais serem mortos por agricultores na tentativa de impedir que eles avancem sobre as plantações. Eles buscam alimento em terras que já foram seu habitat natural, quando eram florestas.
OS TRÊS MACACOS
O macaco-japonês tem significado mítico em seu país de origem. No Japão, segundo a crença xintoísta, esses primatas eventualmente aparecem como bestas míticas conhecidas como raijū, que fazem companhia a Raijin, o deus do trovão, segundo a New England Primate Conservancy.

(https://www.flickr.com/photos/noelmoore123/396365353)
Os mais conhecidos são os Três Macacos Sábios na imagem conhecida pela mensagem de “não veem o mal, não ouvem o mal e não falam o mal”, tapando olhos, ouvidos e boca. O provérbio surgiu esculpido num painel de madeira sobre a porta do Santuário Tōshōgū, em Nikko, Japão, feito pelo escultor Hidari Jingoro, no século XVII.