Vai se aposentar? Reavalie ações e aumente investimento em renda fixa

Se a alocação atual da sua carteira estiver muito distante da meta e você já estiver prestes a se aposentar, o ideal é reduzir o risco o quanto antes

investimentos para garantir a aposentadoria
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Christine Benz 4 minutos de leitura

Para investidores que avançam rapidamente rumo à aposentadoria, manter-se firme no investimento em ações tem sido, nos últimos anos, o caminho de menor resistência, pois elas têm superado com folga os títulos de renda fixa.

Ainda assim, os acontecimentos recentes devem servir como um alerta: é hora de reduzir um pouco o risco e olhar com mais atenção para os títulos de renda fixa.

As ações passaram por episódios de volatilidade recentemente, mas seguem próximas das máximas históricas. Isso abre uma janela de oportunidade para quem está prestes a se aposentar (ou já se aposentou) diminuir a exposição à renda variável e direcionar os recursos para ativos mais seguros, como caixa e títulos de alta qualidade.

O principal benefício que os títulos de renda fixa trazem para um portfólio em fase de retirada (decumulação) é a menor volatilidade. Embora os retornos tendam a ser mais baixos do que os das ações, eles são muito mais previsíveis.

Em carteiras de aposentadoria, manter uma parcela em ativos de menor risco ajuda a mitigar o chamado “risco de sequência” – a possibilidade de enfrentar perdas significativas logo no início da aposentadoria.

Como carteiras mais carregadas em ações têm maior potencial de perdas do que aquelas mais equilibradas ou com maior peso em renda fixa, elas ficam mais expostas a esse risco.

Além da menor volatilidade, os rendimentos mais altos atuais indicam melhores perspectivas de retorno para a renda fixa na próxima década, em comparação com alguns anos atrás. Isso porque o pagamentos de juros inicial de um título tem forte correlação com seus retornos futuros.

Em 2020, o rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA de 10 anos estava em cerca de 0,5%. Hoje, gira em torno de 4,3%. Isso não apenas melhora o potencial de retorno daqui para frente, como também oferece maior proteção contra quedas de preço – mesmo que o valor de mercado do título caia, o investidor continua recebendo o rendimento.

Há também um motivo conjuntural para considerar a renda fixa. Com o mercado preocupado com uma possível desaceleração econômica, títulos de alta qualidade tendem a se sair bem. Historicamente, os retornos da renda fixa têm sido consistentemente positivos em períodos de recessão.

Por fim, para aposentados que temem ter perdido o timing para reduzir risco porque a volatilidade já começou, vale relativizar. A longa valorização das ações fez com que muitos portfólios ficassem excessivamente expostos à renda variável. Uma carteira que era 60% ações e 40% renda fixa há cinco anos poderia estar hoje perto de 80% em ações, mesmo sem novos aportes.

COMO FAZER (E PARA ONDE IR)

Primeiro, o que não fazer: abandonar completamente as ações e migrar 100% para segurança. Sim, há incertezas tanto na economia quanto nos mercados. Mas a melhor forma de lidar com esse cenário é com humildade e com um portfólio suficientemente diversificado para performar de forma razoável em diferentes cenários.

Se recessões e o risco de sequência são grandes ameaças para carteiras muito expostas a ações, a inflação é o principal risco para portfólios excessivamente conservadores e carregados em renda fixa.

Isso porque o potencial de retorno de uma carteira só de títulos de renda fixa é limitado, e a inflação tende a consumir uma fatia maior desses ganhos do que em carteiras equilibradas ou com mais ações.

Uma estratégia bastante utilizada é a dos “portfólios em cestas”: ações para os períodos de crescimento, títulos de renda fixa para momentos de recessão e busca por segurança e caixa para quando tanto ações quanto renda fixa enfrentam dificuldades.

A alocação entre essas três “cestas” depende da sua taxa de gastos e da proximidade das retiradas. Em uma estrutura padrão, faz sentido reservar de um a dois anos de despesas em caixa e de cinco a oito anos em renda fixa. Esses dois blocos podem sustentar o investidor durante períodos prolongados de queda no mercado acionário.

Vale lembrar: não faz sentido montar uma posição relevante em caixa muito antes da aposentadoria, já que o custo de oportunidade é alto.

Se a alocação atual da sua carteira estiver muito distante da meta e você já estiver aposentado, ou prestes a se aposentar, o ideal é reduzir o risco o quanto antes, dentro do possível.

Se a aposentadoria ainda estiver mais distante ou os desvios forem menores, dá para fazer esse ajuste de forma gradual, por meio de aportes periódicos e direcionando novos investimentos para ativos mais seguros.

Por fim, é importante considerar o impacto tributário. Ajustes dentro de contas com benefícios fiscais não geram impostos. Mas, ao rebalancear carteiras tributáveis, pode haver incidência, especialmente na venda de ações com ganhos acumulados.

Nesse caso, vale usar novos aportes para corrigir o desequilíbrio e/ou buscar orientação tributária antes de executar mudanças maiores.


SOBRE A AUTORA

Christine Benz é diretora de finanças pessoais e planejamento de aposentadoria da Morningstar. saiba mais