Menos de 30% das funções de liderança nas empresas brasileiras são ocupadas por profissionais negros. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse índice se mantém estável. Com o objetivo de assumir a responsabilidade e somar esforços para transformar projetos em iniciativas concretas, um grupo de 45 empresas brasileiras, de diversos segmentos, se uniu para lançar o Movimento pela Equidade Racial (Mover), coalizão que une concorrentes e parceiros para promover a equidade racial. Juntamente com o anúncio, a entidade irá divulgar um manifesto que assume erros, mas indica intenções para questões antirracistas e de equidade racial no ambiente corporativo.

A iniciativa reúne algumas das principais empresas nacionais e multinacionais operando no Brasil (Crédito: Divulgação)

Alcoa, Aliansce Sonae, Align, Ambev, Americanas, Arcos Dorados, Atento, Bain & Company, BRF, Cargill, Coca-Cola Brasil, Colgate-Palmolive, CSN, Danone, Descomplica, DHL, Diageo, Disney, EF, General Mills, Gerdau, GPA, Grupo Carrefour Brasil, Heineken, JBS, Kellogg, Klabin, Kraft Heinz, L’Oréal Brasil, Lojas Renner, Magalu, Manserv, Marfrig, MARS, Michelin, Mondelëz International, Moove, Nestlé, Grupo Boticário, PepsiCo, Petz, Sodexo, Tenda, Vale e Via compõem o grupo e se comprometem em gerar 10 mil novas posições de liderança para pessoas negras e oportunidades para 3 milhões de pessoas nos próximos anos por meio de ações práticas até 2030.

“O Mover se propõe a investir R$ 15 milhões anuais, pelos três primeiros anos, destinados a processos, estruturas, mudança cultural e investimentos em capacitação, e treinamento”

O Mover também se propõe a investir R$ 15 milhões anuais, pelos três primeiros anos destinados a processos, estruturas, mudança cultural e investimentos em capacitação, e treinamento. A iniciativa é inédita no Brasil. No ano passado, oito das maiores empresas de alimentos e bebidas que atuam no país se uniram no movimento “Nós”, no entanto, o objetivo era fortalecer os empreendedores de pequenos e médios comércios durante a pandemia. Marcelo Melchior, CEO que representou a Nestlé na iniciativa “Nós” e agora é um dos representantes do grupo de CEOs do Mover, destaca a dinâmica da coalização. “Essas empresas, cada uma em um estágio, tinham seus programas voltados para o tema, mas por que não juntar esforços para dar o exemplo e acelerar este processo?”.

DA INTENÇÃO PARA A PRÁTICA

Além dos estágios de cada uma dessas empresas em relação ao combate ao racismo e à equidade racial, Marcelo explica que aprendizados e até mesmo terminologias dentro dos mais variados programas eram diferentes. Agora, por meio dessa união, um dos objetivos é, além da força do exemplo, mostrar que dá para fazer algo diferente em relação a um assunto tão urgente. “Pelo tamanho das empresas que representamos e a voz ativa que possuímos é imprescindível que também utilizemos essa força para ser parte da solução e conscientizar a sociedade em relação a esse tema”, diz Melchior.

“O grupo também se compromete em gerar 10 mil novas posições de liderança para pessoas negras e oportunidades para 3 milhões de pessoas até 2030”

Uma das partes do manifesto destaca a necessidade de aprender com os erros, mas assumir novas posições. “Assumir os erros já cometidos, nos conscientizar e agir na construção de uma sociedade com possibilidades justas para todas as pessoas”, diz o documento. Melchior reforça a importância e o cuidado do Mover em não se apresentar como um movimento de marketing, mas como uma ação concreta para lidar com o problema. “Desde o início do projeto, nos aliamos com consultorias e pessoas que entendem dessa causa para que tenhamos ações efetivas. Esses especialistas nos ajudaram a entender o contexto para que seja algo com durabilidade e, de fato, um compromisso de longo prazo”, reforça.

COMBATE AO RACISMO E INOVAÇÃO

Questionado pelo desafio de conscientizar seus próprios profissionais em relação ao acolhimento, Melchior destaca que quando o tema é racismo estrutural existem muitas barreiras não escritas, ou seja, um desafio de cultura, mas que deve mudar. “O exemplo sempre dá a razão. Um ambiente mais diverso é riqueza para todos. Já não vivemos mais no tempo em que um currículo com a chancela de Harvard ou uma outra faculdade renomada garante experiência. Experiência é sobre vivência, sobre trabalho e sobre vida”, destaca reforçando que, o combate ao racismo e a busca por equidade é uma questão de sobrevivência. “Como empresa e com a responsabilidade de alcançar milhões de pessoas, temos que representar a sociedade em que vivemos ou deixamos de ser relevantes”, conclui Melchior.

SOBRE O AUTOR

Luiz Gustavo Pacete é editor-contribuinte da Fast Company Brasil