POR REDAÇÃO FAST COMPANY BRASIL

Delegar a estratégia da sua marca, empresa ou dinâmica de conteúdo social a uma plataforma apenas, já se provou uma grande furada. Diariamente, a atualização de features, mudança na política de algoritmos, remuneração e relação com os criadores faz das redes sociais ferramentas muito mais mutáveis do que o próprio comportamento dos usuários. Na semana passada, por exemplo, o Instagram se tornou notícia, mais uma vez, ao anunciar o fim da função “arrasta para cima” nas contas verificadas com mais de 10 mil seguidores. No lugar, serão utilizadas figurinhas como um suporte de hiperlink.

Para Bia Granja, cofundadora e CCO do youPix, a utilização das figurinhas no lugar do “arrasta para cima” deixa a navegação mais endêmica dentro da plataforma. No entanto, com a quantidade de elementos permissíveis em um stories, o desafio, a partir de agora, vai além do hábito dos usuários. “Penso que quando há muita coisa em uma imagem, gifs, texto e outros elementos, a navegação fica poluída e pode tirar a força de um link, por isso, é importante que criadores e produtores de conteúdo consigam fazer essa gestão”, explica, reforçando que essa mudança compõe um pacote de outras que têm relação direta com usabilidade da plataforma.

A partir de 30 de agosto, a função “arrasta para cima” passa a ser substituída por um sticker (Crédito: Divulgação)

Impacto no conteúdo. Esse é o efeito da mudança defendido por Ana Paula Passareli, COO das empresas especializadas em creators Brunch e Toast. De acordo com a especialista, que gerencia a carreira de 35 criadores de conteúdo, considerando que o “arrasta para cima” dará lugar a ativações mais orgânicas e intuitivas, quanto melhor for a desenvoltura comunicativa do talento, melhores resultados ele poderá ter. “E quando falo de resultados, é importante lembrar do papel essencial dos creators no varejo. Eles formam o elo da consideração da compra e desempenham uma função que transcende a noção equivocada de que são meros canais de mídia”, explica Ana Paula.

E falando em varejo, Pedro Alvim, gerente de marcas e redes sociais do Magazine Luiza, líder da equipe que dá vida à influenciadora digital Lu, destaca que, por trás dessa mudança, existem outras mudanças necessárias que causariam muito mais impacto. “O próprio Instagram sinalizou que pretende flexibilizar os critérios dos creators que poderão utilizar o recurso para baixo de 10 mil seguidores. Com isso, perfis menores, como micro influenciadores, poderão agregar na sua estratégia de conteúdo projetos com marcas links externos nos stories, assim como os grandes creators”, sinaliza.

AÇÕES ANTI-CRINGE

Muito além das mudanças relacionadas à usabilidade, o Instagram vive uma crise de identidade que surge, naturalmente, das plataformas que se tornam líderes em volume de usuários e conteúdo. E neste contexto, cada mudança ou declaração causa reflexões e análises. Em julho, Adam Mosseri, head do Instagram, afirmou que a plataforma não é mais sobre fotos, sua vocação original, mas agora, serve ao propósito de se tornar um hub de conteúdo e vídeos. Naturalmente, a frase ficou associada à concorrência direta com o TikTok, plataforma do momento que, no ano passado, já havia superado Instagram e Facebook como o app mais baixado do mundo.

Plataformas como a Kwai já se consolidaram como ferramentas de social-commerce na China. No Brasil, hábito ainda está em formação (Crédito: Reprodução)

Para Bia Granja, de fato, o TikTok, neste momento, tem atraído parcerias interessantes e criadores. No caso, a crise de identidade do Instagram, que acaba de chegar a adolescência, passa, sobretudo, pelo esforço em não se tornar uma plataforma ultrapassada, ou cringe, como muitos analistas apontam que aconteceu com o Facebook. “Por ter sido a bola da vez, o Instagram precisou lidar com o cansaço dos usuários e com os conteúdos repetitivos”, afirma. “Parte dos problemas que vemos nas plataformas que crescem de forma exponencial está no desejo pela hegemonia. Tentar ser tudo não funciona nem para serem humanos e nem para algoritmos. E se olharmos o histórico das plataformas que passaram pelo que o Instagram está passando, o futuro não é tão instagramável assim”, indaga Ana Paula.

Pedro Alvim, do Magazine Luiza, alerta que o universo das redes sociais nunca esteve tão dinâmico: “eu destaco não apenas o TikTok, apps como o chinês Kwai e lançamentos como o Shorts, do Youtube, deixarão o mercado de plataformas ainda mais agitado, com um desafio imenso: a luta pelos criadores de conteúdo e suas produções. Sem eles, as plataformas não irão conseguir mobilizar e reter suas audiências”, explica. Em julho, o Facebook, proprietário do Instagram, anunciou um fundo de US$ 1 bilhão para remunerar criadores. “Outro cenário interessante que também se desenha são marcas se posicionado também como creators e publishers, nesse contexto. A pirâmide de influência e os papéis dos players desse mercado estão mudando, e isso também representará um desafio para as plataformas”, conclui. O próprio Magalu possui em seu ecossistema publishers como o Steal The Look, Canal Tech e Jovem Nerd.