António Guterres, secretário-geral da ONU: “combustíveis fósseis são beco sem saída”

Créditos: Maksim Shemetov/ Reuters

Adele Peters 3 minutos de leitura

O mais novo relatório do Estado do Clima Global é assustador: no ano passado, o mundo estabeleceu novos recordes de concentração de gases de efeito estufa, houve aumento do nível do mar, assim como do calor e da acidificação dos oceanos. Os últimos sete anos foram os mais quentes já registrados em toda a história. O relatório, divulgado na semana passada pela Organização Meteorológica Mundial, “é mais uma súplica diante do fracasso da humanidade em combater as perturbações climáticas”, declarou António Guterres, secretário-geral da ONU.

Mas ele também apontou um caminho claro para a ação, começando com um ultimato: a era do combustível fóssil precisa terminar. “O sistema global de energia está quebrado e ele nos aproxima cada vez mais da catástrofe climática”, enfatizou. “Os combustíveis fósseis são um beco sem saída – ambiental e economicamente. A guerra na Ucrânia e seus efeitos imediatos sobre os preços da energia são mais um alerta. O único futuro sustentável é renovável.”

Para que exista alguma chance de limitarmos o aquecimento a 1,5 graus Celsius e de evitarmos os piores impactos climáticos, o mundo precisa começar agora mesmo a transformar seus sistemas globais de energia. Cinco passos podem ajudar a acelerar essa transição:

1. Tratar as tecnologias de energia renovável como “bens públicos globais essenciais e disponíveis gratuitamente”

Guterres observou que o armazenamento é uma das maiores barreiras para aumentar a adoção de energia limpa. Por isso, pediu que uma coalizão global de empresas de tecnologia, fabricantes, governos e financiadores trabalhem juntos em inovação e implantação. Também argumentou que as restrições de propriedade intelectual são um problema. “A remoção dos obstáculos ao compartilhamento de conhecimento e à transferência tecnológica – incluindo as restrições de propriedade intelectual – é crucial para que a transição para a energia renovável seja rápida e justa”, defendeu Guterres.

2. Ampliar e diversificar o fornecimento de materiais críticos para energia renovável

“As cadeias de fornecimento para tecnologia de energia renovável e matérias-primas estão, hoje, concentradas em alguns países”, explicou Guterres. “A era renovável não tem como florescer se não superarmos esse grande abismo.” Para ele, os governos precisam investir na construção de novas cadeias de suprimentos.

3. É preciso nivelar o campo de atuação para as energias renováveis

A energia renovável precisa de mais apoio do governo, incluindo políticas fortes e regras de trabalho para evitar gargalos que impedem a implantação por causa da burocracia. “Peço aos governos que agilizem a aprovação de projetos solares e eólicos, que modernizem as redes e definam metas ambiciosas de energia renovável alinhadas com a meta de 1,5 grau. Peço que deem segurança a investidores, desenvolvedores, consumidores e produtores”.

4. Os subsídios aos combustíveis fósseis precisam acabar

Em 2020, carvão, petróleo e gás natural receberam US$ 5,9 trilhões em subsídios, de acordo com uma análise do Fundo Monetário Internacional – ou seja: cerca de US$ 11 milhões por minuto. “A cada ano, governos de todo o mundo gastam cerca de meio trilhão de dólares para reduzir artificialmente o preço dos combustíveis fósseis – mais que o triplo do que as energias renováveis ​​recebem”, explicou Guterres. “Enquanto as pessoas sofrem com os altos preços na bomba, a indústria de petróleo e gás está arrecadando bilhões, em um mercado distorcido.”

5. Os investimentos em energia renovável precisam triplicar para pelo menos US$ 4 trilhões por ano

Bancos e outros investidores precisam aumentar substancialmente os investimentos em energias renováveis e eliminar gradualmente os investimentos em altas emissões. Como alguns países em desenvolvimento pagam até sete vezes mais em custos de financiamento para energia renovável, os bancos precisam oferecer opções melhores.

“Cada país, cidade e cidadão, cada instituição financeira, empresa e organização da sociedade civil tem um papel nessa mudança de mentalidade”, disse ele. “Mas, acima de tudo, é hora de os líderes, públicos e privados, pararem de falar sobre energias renováveis ​​como um projeto para um futuro distante. Porque, sem energias renováveis, não vai haver futuro.”


SOBRE A AUTORA

Adele Peters é redatora da Fast Company. Ela se concentra em fazer reportagens para solucionar alguns dos maiores problemas do mundo, ... saiba mais