Apple e Google podem ser as maiores ameaças ao Twitter de Elon Musk

Com moderação frouxa, Musk está colocando em risco o futuro da plataforma que acabou de comprar

Crédito: Sara Kurfess/ Unsplash

Clint Rainey 5 minutos de leitura

Partindo do princípio de que o Twitter vai conseguir sobreviver ao jogo de empurra-empurra envolvendo seu novo CEO Elon Musk, a plataforma de mídia social vai ter que enfrentar um novo desafio: um possível embate com a Apple e o Google.

Ou seja, se a abordagem frouxa demais de Musk em relação à moderação colocar o Twitter em desacordo com as políticas de desenvolvedor nas principais lojas de aplicativos, os conteúdos de ódio podem levar o microblog à ruína.

A Apple App Store, o Google Play e até players menores, como a Amazon Appstore, são programados para proteger os usuários contra discriminação, intimidação, assédio e outros tipos de conteúdo censurável. Conforme o Twitter escolhe se alinhar às redes sociais de direita, tende a entrar em rota de colisão com os protocolos de segurança das lojas de aplicativos.

Até agora, a abordagem de Musk em relação à moderação tem sido inconsistente, para dizer o mínimo. Mais recentemente, argumentou que a nova política do Twitter é “liberdade de expressão, não liberdade de alcance”. Mas ele acabou de restaurar as contas de Donald Trump e Kanye West, tendo o segundo sido bloqueado por fazer discursos antissemitas. O rapper comemorou sua volta à plataforma tuitando “Shalom :)”.

as demissões reduziram o número de moderadores e de funcionários para rastrear conteúdo prejudicial e fazer cumprir as regras da plataforma.

Musk reativou outras contas controversas, como o site de sátira de direita Babylon Bee’s e o podcaster Jordan Peterson’s, ambos suspensos por postar comentários trans- fóbicos. Anteriormente, o empresário havia dito que adiaria as mudanças nas políticas do Twitter até que um “conselho de moderação de conteúdo” fosse criado para ajudá-lo.

“Mesmo quando critica as controvérsias das políticas da plataforma, ele perpetua a mesma falta de legitimidade por meio de suas mudanças impulsivas e pronunciamentos tão curtos quanto um tuíte sobre as regras que inventa”, escreveu o ex-chefe de credibilidade e segurança do Twitter, Yoel Roth, em carta aberta publicada no “The New York Times” logo após sua renúncia. “Musk deixou claro que, no final das contas, será ele quem dará as cartas.”

Entre as ideias que teria pensado, está introduzir algum tipo de serviço de assinatura no estilo OnlyFans, que aparentemente violaria as proibições de material sexualmente explícito adotadas em muitos lugares. Enquanto isso, as demissões reduziram o número de moderadores contratados e de funcionários em tempo integral para rastrear conteúdo prejudicial e fazer cumprir as regras da plataforma.

MINHA LOJA, MINHAS REGRAS

O Twitter não detalha quantas pessoas usam a versão para desktop e quantas usam o aplicativo para smartphone. Mas Roth alertou que um possível banimento das lojas de aplicativos da Apple e do Google “seria catastrófico”.

Ele indicou aos leitores o relatório anual mais recente (e o último!) do Twitter para os acionistas, informando-os de que o lançamento de novos produtos “depende” e “pode ser impactado” pelas equipes que decidem o que entra ou não nessas lojas de aplicativos.

Na Apple, por exemplo, para criar “uma experiência segura para os usuários”, as diretrizes para desenvolvedores estabelecem que os aplicativos não podem incluir conteúdo sexualmente explícito, discriminatório, agressivo ou “simplesmente assustador”, entre outras coisas. Isso, é claro, inclui comentários que ofendem “religião, raça, orientação sexual, gênero [ou] origem nacional/ étnica dos usuários”.

um possível banimento das lojas de aplicativos da Apple e do Google seria catastrófico para a rede social.

Com certeza, a Apple poderia ser mais clara sobre o que ultrapassa esses limites. Suas diretrizes usam literalmente a frase “eu sei reconhecer quando bato o olho”, que o juiz da Suprema Corte Potter Stewart usou para explicar o que é e o que não é pornografia.

As políticas do Google Play, por sua vez, estabelecem proibições claras de conteúdo sexual, discurso de ódio, intimidação e assédio. A Amazon Appstore tem regras semelhantes, alertando que, além das proibições de conteúdo ofensivo e pornográfico, os aplicativos devem “ter sempre em vista que a Amazon Appstore é um ambiente familiar”, e a Amazon também se reserva o direito de “rejeitar qualquer aplicativo, a nosso critério”.

Apple, Google e a Amazon não responderam às perguntas da Fast Company sobre o que aconteceria se o Twitter violasse os termos de serviço da loja de aplicativos.

PODE OU NÃO PODE?

Mas a história nos oferece algumas pistas. Após o ataque de 6 de janeiro ao prédio do Capitólio, em Washington D.C., Apple, Google e Amazon baniram a plataforma conservadora de mídia social Parler – que agora está em processo de ser comprada por Kanye West. Para poder voltar ao ar, a Parler teve que concordar em moderar o conteúdo de forma mais incisiva e remover postagens que incitam à violência.

Além de uma série de outros problemas no lançamento, o Truth Social, aplicativo social de Donald Trump, não foi permitido logo de cara no Google Play. O Google argumentou que o aplicativo violou os termos de serviço da loja porque não tinha um sistema eficaz de moderação de conteúdo.

Phil Schiller, chefe da App Store, desativou sua conta no Twitter, o que não é considerado um bom sinal.

O Twitter tem uma moderação mais robusta em vigor – ou tinha. Mas Phil Schiller, chefe da App Store, acabou de desativar sua conta na rede social, o que os observadores não estão lendo como um bom sinal.

Ao mesmo tempo, a Apple se beneficiará imensamente quando o Twitter instalar as novas assinaturas do Twitter Blue de US$ 8 por mês. Naturalmente, a empresa cobraria uma comissão de 15% a 30% – a taxa atual para aplicativos pagos e compras no app.

Novamente, vale notar que a Apple não aplica de forma muito consistente as políticas gerais da App Store: quase um ano atrás, o Tumblr precisou tornar certos conteúdos adultos inacessíveis em seu aplicativo iOS para permanecer na loja.

Mas em 2013, quando o Twitter assumiu o comando do serviço de hospedagem de vídeo Vine, ele estava cheio de pornografia. A imprensa, na época, relatou o quanto isso era uma violação flagrante das políticas de conteúdo da App Store. O Vine permaneceu intacto, mas acabou adicionando uma classificação etária de 17+.


SOBRE O AUTOR

Clint Rainey é jornalista investigativo, mora em NYC e é colaborador da Fast Company. saiba mais