Apps que “tiram roupa” de fotos seguem ativos na Apple e Google apesar de proibição
Mecanismos de busca e recomendação tendem a favorecer conteúdos de nudez com alto engajamento, o que pode impulsionar apps controversos

No começo deste ano a internet foi tomada pela indignação de diversos usuários, com a possibilidade de fotos e vídeos serem modificados por Inteligência Artificial (IA).
Alguns meses depois, mesmo com regras que proíbem esse tipo de conteúdo, a Apple e o Google continuam permitindo a presença de aplicativos capazes de “despir” pessoas em fotos, mesmo sem consentimento.
A constatação é de um relatório divulgado pelo Tech Transparency Project, grupo que monitora o impacto das grandes empresas de tecnologia.
MEDIDAS FORAM TOMADAS APÓS DIVULGAÇÃO DE RELATÓRIO
Segundo o levantamento, ao pesquisar termos como “nudify” ou “undress” nas lojas de aplicativos, usuários ainda encontram ferramentas que usam inteligência artificial para alterar imagens de celebridades e pessoas comuns, simulando nudez ou semi-nudismo.
Além disso, as próprias plataformas exibem anúncios ou sugestões relacionadas a esses aplicativos, o que amplia seu alcance.
Os apps identificados pelo relatório já somam cerca de 483 milhões de downloads e geraram aproximadamente US$ 122 milhões em receita, de acordo com estimativas da empresa de análise de mercado AppMagic. Após a divulgação do relatório, parte desses aplicativos foi removida ou teve suas políticas ajustadas.
PROBLEMA PERSISTE MESMO COM PRESSÕES GLOBAIS
Apesar de pressões globais por mais controle, incluindo ações de governos e legisladores, o problema persiste. Ainda que algumas remoções tenham ocorrido no início do ano, pesquisadores afirmam que, poucos meses depois, dezenas de aplicativos semelhantes continuavam disponíveis nas plataformas.
Para a diretora do projeto, Katie Paul, o problema não se limita à falta de fiscalização. Segundo ela, em entrevista para O Globo, as plataformas acabam, na prática, facilitando o acesso a esse tipo de conteúdo ao sugerir aplicativos durante as buscas.
O estudo identificou pelo menos 18 aplicativos com esse tipo de função na App Store e 20 na Google Play. Em alguns casos, os próprios sistemas de busca sugeriram nomes de apps semelhantes enquanto o usuário digitava, aumentando a visibilidade dessas ferramentas.
EDITORES DE IMAGENS QUE PARECEM GENÉRICOS TAMBÉM CONSEGUEM DESNUDAR FOTOS
Embora alguns aplicativos tenham nomes e imagens com conotação sexual explícita, outros se apresentam como editores de imagem genéricos, o que dificulta a detecção durante a análise das lojas. Ainda assim, podem ser usados para criar conteúdo sexualizado, muitas vezes com poucos cliques.
Além desta questão da revisão dos “genéricos”, mecanismos de busca e recomendação tendem a favorecer conteúdos com alto engajamento, o que pode impulsionar justamente apps controversos.
Tanto a Apple quanto o Google afirmam ter políticas rígidas contra esse tipo de prática. A App Store proíbe conteúdo pornográfico, enquanto a Google Play veta aplicativos que objetifiquem pessoas ou simulem a remoção de roupas.
As empresas disseram ao Globo em nota que investigam denúncias e removem apps que violam suas regras. A Apple informou ter excluído ao menos 15 aplicativos citados no relatório e alertado outros desenvolvedores sobre possíveis violações. Já o Google declarou que muitos dos apps foram suspensos e que as investigações continuam.
MOVIMENTO ANTI SEXUALIZAÇÃO É INTERNACIONAL
O debate tem ganhado força no cenário internacional. Nos Estados Unidos, por exemplo, o presidente Donald Trump sancionou a lei conhecida como “Take It Down Act”, que criminaliza a divulgação de conteúdo sexual sem consentimento e obriga plataformas a remover esse tipo de material.
Já o Reino Unido estuda medidas para responsabilizar executivos de tecnologia que não atuarem contra esse tipo de prática.
O Brasil tem adotado medidas rigorosas para combater a sexualização, adultização e exploração sexual de crianças e adolescentes na internet, com a criação de novas legislações, como o ECA Digital (Lei 15.211/2025).
Mesmo com avanços regulatórios, o relatório indica que ainda há falhas significativas na forma como as grandes plataformas controlam e limitam o uso indevido de ferramentas baseadas em inteligência artificial.
A quantidade de pornografia na internet e redes sociais é massiva, com conteúdo adulto figurando entre os tipos de tráfego mais altos da rede. Autoridades e usuários devem continuar observando de perto e fazendo pressão nos grandes players, como Apple e o Google.