Com a guerra, cresce o número de ciberataques a sites ligados a Israel

Cerca de 500 ataques recentes rastreados por pesquisadores da Universidade de Cambridge tiveram como alvo sites israelenses

Crédito: Getty Images

Chris Stokel-Walker 3 minutos de leitura

Um novo estudo da Universidade de Cambridge analisa os ataques online que vêm sendo realizados desde a ofensiva do Hamas contra Israel no dia 7 de outubro.

Ross Anderson e seus colegas Anh V. Vu e Alice Hutchings analisaram um banco de dados de ciberataques em todo o mundo, que eles já monitoram regularmente, nas duas semanas anteriores e na seguinte ao ataque do grupo islâmico. No total, identificaram 8.659 ciberataques ao longo deste período, sendo cerca de 536 deles ligados ao conflito entre Israel e o Hamas.

A grande maioria (531) foi direcionada a alvos israelenses, frequentemente a sites de empresas com o domínio “.co.il”. O número de ataques subiu de quase zero nas semanas anteriores a 7 de outubro para 95 dois dias depois (logo após Israel declarar oficialmente guerra ao Hamas).

Os sites afetados tiveram seu conteúdo substituído por mensagens e hashtags como #opisrael (operação Israel), #freepalestine (liberdade para a Palestina), #savepalestine (salvem a Palestina) e #savegaza (salvem Gaza). Muitos desses ataques tiveram como alvo empresas e sites não militares.

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Com o avanço do conflito, o número aumentou. Cerca de 20 ciberataques foram registrados em 17 de outubro, imediatamente após a explosão no Hospital Árabe al-Ahli, em Gaza.

Esses picos contrastam com a tendência natural de diminuição no número de ataques a cada dia, que sugere um declínio no interesse em promover ciberataques.

“Suspeito que muitas dessas ações de desfiguração de sites israelenses sejam realizadas por jovens de diferentes partes do mundo”, afirma Anderson. “Jovens tendem a ser mais pró-Palestina do que pró-Israel.”

SEMELHANÇAS COM A GUERRA NA UCRÂNIA

O departamento de Anderson observou algo semelhante logo após a invasão russa à Ucrânia em 2022, quando o chamado Exército de TI Ucraniano, um grupo heterogêneo de indivíduos (nem todos de lá), começou a lançar ataques à infraestrutura de TI russa.

Na guerra Rússia-Ucrânia, o interesse inicial em realizar ataques a sites russos, sejam eles de empresas ou do governo, diminuiu rapidamente, à medida que pessoas sem uma forte conexão com o conflito aparentemente se cansaram de acompanhar as investidas.

A suspeita é de que muitas dessas ações de desfiguração de sites israelenses sejam realizadas por jovens de diferentes partes do mundo.

Uma parte da pesquisa do Centro de Cibercrime de Cambridge se concentra nas diversas maneiras pelas quais o comportamento criminoso na internet se desenvolve. Uma hipótese sugere que os jovens começam aprendendo a trapacear em jogos de videogame, depois criam os seus próprios e, em algum momento, passam a escrever malwares. “Conforme vão aprendendo o ofício, eles se tornam mais capazes e perigosos”, afirma Anderson.

No entanto, o pesquisador acrescenta que muitos agora começam a se envolver em crimes cibernéticos em comunidades incel, que frequentemente são repletas de misoginia e o antissemitismo.

“Aqueles que passam anos reclamando incessantemente sobre a sua incapacidade de conseguir arranjar uma namorada podem acabar frequentando lugares onde há muita gente explicitamente nazista dizendo ‘a culpa é dos judeus’”, diz ele.

INTENÇÃO OU INSATISFAÇÃO?

Alan Woodward, professor de cibersegurança da Universidade de Surrey, no Reino Unido (que não esteve envolvido na pesquisa), sugere que parte da disparidade entre o número de ataques contra sites ligados a Israel e à Palestina pode ser atribuída ao fato de que simplesmente há muitos mais páginas israelenses.

Muitos dos ataques tiveram como alvo empresas e sites israelenses não militares.

Mas o número surpreende Woodward. “Israel tem a reputação de ser bem protegida no ciberespaço”, diz ele. “Os ataques parecem vir de fontes centralizadas – um pequeno grupo está por trás disso.”

Ele sugere que é possível que uma nação terceira esteja atacando os sites em nome daqueles que apoiam o Hamas. “Os suspeitos habituais que têm interesse em prejudicar Israel vêm à mente”, diz Woodward.

No entanto, também é plausível que os hackers sejam cidadãos comuns que desejam mostrar sua insatisfação com a forma como Israel respondeu aos ataques do Hamas. “Esse tipo de [ciber]ataque não é tecnicamente difícil, apenas requer coordenação”, explica.

Anderson não acredita que haja muito propósito ou razão por trás dos ataques, nem qualquer tipo de controle centralizado por parte de um Estado-nação. “Não há uma estratégia cibernética”, diz ele.


SOBRE O AUTOR

Chris Stokel-Walker é um jornalista britânico com trabalhos publicados regularmente em veículos, como Wired, The Economist e Insider saiba mais